Olimpíada de Brasília

Sem que a gente se apercebesse, realizou-se em Brasília, simultânea à de Pequim, uma Olimpíada que mediu recordes do atletismo político nacional. Como manda a tradição, há disputas coletivas e competições individuais. Aqui estão os resultados mais importantes:

:: Arremesso de calúnia é disputado por equipe e ganhou, com quilômetros de folga, a bancada daquele PFL que, agora DEM, tem vergonha do seu passado. Abiscoitou o troféu Carlos Lacerda de peroba.

::Já a modalidade cuspe de veneno a distância é pessoal e intransferível. Apesar do favoritismo disparado do senador Arthur Virgílio, com as cores azul e amarela do PSDB, ele se mostrou meio fora de forma e acabou atropelado por outro senador, João Agripino Maia, do time do DEM. Agripino mereceu a medalha Cascavel de gesso.

:: A esperada exibição de saltos ornamentais, a ser disputada in memoriam do ex-senador ACM, teria a participação do neto dele, o ACMinho, do deputado Fernando Gabeira e ex-deputado Roberto Freire e do ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo. Mas à última hora foi suspensa. Decidiu-se atribuir o prêmio, hors-concours, ao ex-presidente FHC, invencível na arte dos contorsionismos, prestidigitações e pirotecnias.

:: A maratona com obstáculos, que termina no Palácio do Planalto, teve na largada José Serra, Dilma Rousseff, Ciro Gomes, Aécio Neves, Nelson Jobim e, para variar, os insistentes Paulo Maluf e Geraldo Alckmin. Estes dois ficaram pelo caminho, mas, para os demais, a prova só termina em 2010. Serra também disputou capoeira, na categoria rasteira sorrateira. Venceu fácil, fácil.

:: Brasília inovou, em seus Jogos, com a prova de marcha de costas. Você sabe: aquela esquisita corridinha na qual você não pode tirar um dos pés do chão. Em Brasília, a coreografia consistiu em andar para a frente, mas olhando para trás. Aí, não teve para ninguém: Lula nadou de braçada.

:: Inconformada de apenas assistir a tanta manifestação de exibicionismo alheio, o time da imprensa que cobria os Jogos – mesmo com o chorado desfalque de Pedro Bial, que estava em Pequim – improvisou a sua versão de trampolim fixo. Não houve vencedores. O trampolim rachou e a imprensa culpou o PT.

A bem da tranqüilidade dos atletas, a corrida ao cofre foi realizada sem platéia.

Disputa no reino de Deus

A recente notícia de que uma igreja evangélica comprou 22 horas diárias do Canal 21, da Rede Bandeirantes de Televisão, passou quase despercebida. O fato é visto como rotineiro, dado o espantoso crescimento no País do movimento neopentecostal, representado por denominações que enfatizam os dons do Espírito Santo por meio de curas milagrosas em rituais espetaculosos. Os evangélicos hoje já somam 30 milhões de fiéis e representam 17% da população. No Censo de 1991, eram 13,7 milhões.

Mas quem se incomodou nas últimas duas décadas com o crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus, chefiada pelo bispo Edir Macedo, prepare-se: a dona da nova programação do Canal 21, a Igreja Mundial do Poder de Deus, é uma espécie de dissidência da Universal e cresce vertiginosamente como a sua principal concorrente. Tem sonhos de grandeza semelhantes.

Fundada há dez anos, a igreja desbancou a PlayTV, da Gamecorp, empresa de jogos para celular e tevê que tem como sócio Fábio Luís Lula da Silva, o filho do presidente Lula. A PlayTV era a responsável pela grade do Canal 21 e rivalizava com a MTV. Os valores do contrato por cinco anos com a Bandeirantes não foram revelados, mas giram em torno de 3 milhões de reais mensais. A Mundial já paga cerca de 1 milhão de reais à RedeTV! para veicular programas diários das 5 às 8h30 da manhã. No momento, mantém negociações com uma terceira emissora

PCdoB e PT disputam a imagem de LULA em Porto Alegre

Lula é do PT. Maria do Rosário é do PT. Não há dúvida de que a candidata do Lula é a Maria do Rosário’, disse Cícero Balestro, coordenador da campanha de Rosário, à Reuters.

A disputa para demonstrar quem seria a legítima destinatária da simpatia presencial foi intensificada pela veiculação da imagem de Lula nos programas do horário eleitoral gratuito. Enquanto Manuela exibiu uma fotografia em que aparece ao lado do presidente, Maria do Rosário aproveitou a visita presidencial ao Estado, na última terça-feira, para gravar e inserir na propaganda gratuita imagens de um encontro com Lula.

Segundo Balestro, a intenção é utilizar bastante o ‘vínculo com o presidente’ como peça de campanha para capitalizar os resultados positivos dos investimentos federais feitos na capital gaúcha.

Já os partidário de Manuela D’Ávila reivindicam o reconhecimento da colaboração dos comunistas com os acertos do governo federal e a legitimidade de mostrarem certa proximidade com o presidente.

‘Sempre tivemos uma relação próxima ao governo. Nós somos governo’, disse Adalberto Frasson, presidente estadual do PCdoB, à Reuters.

APOIO EXPLÍCITO

Mesmo que as imagens veiculadas na propaganda eleitoral das duas adversárias não tenham sido acompanhadas de áudio com qualquer declaração do presidente, são apontadas como indícios de apoio de Lula.

‘É um apoio implícito, quase explícito. Para mim é explícito. (Lula) veio aqui e gravou só com Rosário’, destacou o coordenador da campanha.

O apoio presidencial a Rosário estaria sendo concretizado com a presença de ministros, principalmente de Dilma Rousseff (Casa Civil), em atividades de campanha da petista. Para Balestro, o fato de Manuela integrar um partido da base aliada não significaria aprovação do presidente.

‘A coalizão é mais ampla, mas o presidente tem opinião. Às vezes, é bom lembrar que ele (Lula) é do PT’, disse Balestro.

A disputa gerou troca de acusações entre representantes das duas candidaturas em declarações à imprensa local. Na disputa de versões, os partidários de Manuela fazem questão de lembrar que, desde 1989, estiveram presentes nas alianças que sustentaram as candidaturas de Lula à presidência da República.

‘Não estamos disputando apoio de ninguém. Estamos demonstrando o que sempre fizemos, a luta do PCdoB na construção deste governo’, disse Frasson.

Pela pesquisa do Datafolha, realizada entre 21 e 22 de agosto, Rosário e Manuela aparecem tecnicamente empatadas em segundo lugar com 20 e 19 por cento, respectivamente, das intenções de voto. O atual prefeito e candidato à reeleição, José Fogaça (PMDB), lidera com 31 por cento. A pesquisa tem margem de erro de 3 pontos.

Pelo Ibope de 22 de agosto, Manuela aparece com 21 por cento, enquanto Rosário tem 16 por cento das intenções de voto.

Na pesquisa Ibope do mês anterior, ambas estavam empatadas em 19 por cento. Fogaça lidera com 33 por cento. A pesquisa Ibope também tem margem de erro de 3 pontos percentuais.

McCain surpreende e escolhe governadora para vice

O virtual candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, John McCain, escolheu a governadora do Estado do Alasca, Sarah Palin, para ser candidata a vice na sua chapa.

A escolha de Palin – que tem 44 anos, sendo mais jovem do que o candidato democrata, Barack Obama – surpreendeu analistas, já que a governadora é um nome relativamente pouco conhecido em nível nacional nos Estados Unidos.

Uma ferrenha opositora do aborto, Palin é casada, tem cinco filhos e ficou conhecida por realizar reformas em seu Estado durante seu atual primeiro mandato.

Analistas dizem que McCain pode tê-la escolhido como uma tática para conquistar o voto de eleitoras democratas que ficaram decepcionadas com a derrota de Hillary Clinton, que disputou com Obama a indicação de Barack Obama.

Ela também teria o apelo de ser relativamente jovem.

Palin será apresentada por McCain como candidata a vice em um evento ainda nesta sexta-feira, em Dayton, no Estado de Ohio.

Com sua indicação, a governadora se tornará a segunda mulher a ser indicada para ser vice-presidente numa chapa de um dos dois principais partidos americanos. A primeira foi Geraldine Ferraro, do Partido Democrata, em 1984.

Repasses da União terão regras mais transparentes

A partir da próxima segunda-feira (1º) os convênios e contratos de repasse com recursos voluntários da União somente poderão ser celebrados e operacionalizados através do Portal de Convênios (www.convenios.gov.br). O novo Portal será mais um canal de comunicação do governo federal com a sociedade e um instrumento de transparência das contas públicas, pois permitirá o acompanhamento da execução e a prestação de contas de todos os recursos repassados pela União.

Segundo o secretário de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, Rogério Santanna, o Portal de Convênios vai automatizar e agilizar essas transferências.  “A iniciativa significa a eliminação do papel na maioria dos processos, a desburocratização e a melhoria da eficiência em uma área essencial para a sociedade brasileira”, destacou.

Simplificação – Santanna explicou que o Portal de Convênios vai eliminar uma série de rituais desnecessários que dificultam a vida dos estados, municípios e organizações não-governamentais (ONGs). Atualmente, essas entidades precisam apresentar a documentação exigida para cada ministério com os quais têm interesse em estabelecer convênios. Com o Portal, o órgão apresentará os documentos necessários ao governo apenas uma vez porque todas essas informações ficarão registradas no sistema.

Outra modificação que vai reduzir a burocracia e os custos de transação é que as contratações realizadas pelas entidades com esses recursos também terão de ser registradas no portal, bem como o pagamento às empresas contratadas. Com isso, fica suprimida a prestação de contas parcial e simplifica-se o rol de documentos necessários ao exame da prestação de contas. “Vamos evitar o acúmulo de processos com prestação de contas para serem analisados pelos ministérios”, destacou o secretário.

O governo poderá também padronizar os projetos básicos dos empreendimentos mais freqüentes realizados por meio desses convênios, como escolas, postos de saúde e hospitais, dispensando a apresentação de projetos básicos por parte dos estados e municípios. Além de simplificar os procedimentos, também agilizará o repasse dos recursos.

Transparência – Na opinião de Santanna, a iniciativa garante mais transparência às transferências voluntárias porque a sociedade poderá acompanhar a execução dos contratos pela Internet e verificar a aplicação dos recursos públicos.

O Portal de Convênios fará ainda o registro da movimentação financeira dos recursos repassados pela União, uma vez que o Sistema de Gestão de Convênios, Contratos de Repasse e Termos de Parcerias (Siconv) estará integrado aos bancos oficiais. Dessa maneira, as entidades e órgãos públicos que apresentarem irregularidades terão dificuldade em receber dinheiro público da União.

Capacitação – Cerca de 1.300 servidores federais receberam cursos presenciais para utilização do novo sistema. Para capacitar os usuários, a Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação (SLTI) do Ministério do Planejamento disponibilizou módulos de Educação a Distância (tutorial interativo e manuais), que podem ser acessados através do endereço www.convenios.gov.br.

Esses materiais foram desenvolvidos em parceria com a Escola Nacional de Administração Pública (Enap) e o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro).

O público-alvo são servidores públicos federais que atuam nessa área, bem como servidores de órgãos estaduais e municipais e representantes de ONGs interessados em firmar convênios para o recebimento de recursos de repasses voluntários da União.

Legislação – O Decreto n° 6.170, de 25 de julho de 2007, é que determinou que o Portal de Convênios do Governo Federal deverá registrar todas as informações sobre a transferência de recursos da União mediante convênios e contratos de repasse. Essas novas regras foram detalhadas pela Portaria n° 127, publicada no dia 30 de maio de 2008. Ambas as normas estão disponíveis na íntegra no Portal. Conforme o Decreto n° 6.170, o Ministério do Planejamento é o órgão central do Sistema de Gestão de Convênios e Contratos de Repasse (Siconv). Sob a sua responsabilidade está o estabelecimento de diretrizes e normas a serem seguidas pelos órgãos públicos e demais usuários do sistema.

Lula concede reajuste a 350 mil servidores públicos

BRASÍLIA – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou no final da manhã desta sexta-feira as duas medidas provisórias que concedem o reajuste para cerca de 350 mil servidores de 54 careiras. O reajuste é retroativo a 1º de julho.

A Casa Civil ainda não informou os índices de reajuste, que serão diferentes para cada categoria. Na quarta-feira, o ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Paulo Bernardo, antecipou que os reajustes serão postos em prática de forma escalonada em 2008, 2009 e 2010. Bernardo disse também que as MPs seriam encaminhadas ao Congresso nesta sexta-feira.

Há estimativas de que o governo gastará com os reajustes, só em 2008, cerca de R$ 4 bilhões. Uma das medidas provisórias assinadas trata do reajuste para servidores das chamadas carreiras de Estado, como diplomatas, auditores da Receita Federal, auditores fiscais do Trabalho, funcionários do Banco Central (BC), técnicos de Planejamento e servidores que integravam a carreira de Polícia Civil dos extintos territórios federais do Acre, Amapá, Rondônia e Roraima. Essa MP prevê criação dos cargos de defensor público da União, analista de Planejamento e Orçamento e técnicos do sistema de desenvolvimento na carreira.

A outra medida provisória assinada por Lula concede reajustes para oficiais e assistentes de Chancelaria, servidores do Ministério da Fazenda, do Instituto Nacional do Seguro Social, do Setor de Tecnologia Militar e do Grupo de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo e do Hospital das Forças Armadas, supervisores médico-periciais, servidores do setor de Ciência e Tecnologia da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Essa MP concede reajustes também, entre outros, a funcionários do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit), de Seguridade Social e do Trabalho, da Superintendência da Zona Franca de Manaus, da Previdência Social, da antiga Polícia Militar e Corpo de Bombeiros dos ex-territórios federais e do antigo Distrito Federal (Rio de Janeiro), da Imprensa Nacional, da Administração do Patrimônio da União, do Ministério do Meio Ambiente, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e do Ministério do Desenvolvimento Agrário, entre outros.

Uma terceira medida provisória assinada pelo presidente concede crédito para o Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no valor de R$ 15 bilhões, e revoga a medida provisória que transforma a Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca em Ministério da Pesca.

Na quinta-feira, o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, afirmou que o governo irá enviar ao Congresso Nacional um projeto de lei com pedido de urgência para criar o Ministério da Pesca.

As medidas serão publicadas em edição extra do Diário Oficial da União ainda nesta sexta-feira. A Lei Diretrizes Orçamentárias (LDO) prevê que reajustes salariais devem ser propostos até o dia 31 de agosto.

(com informações da Agência Brasil e da Agência Estado)

Construir uma nova hegemonia é desafio para América Latina

Em entrevista ao jornal argentino Página 12, Emir Sader analisa o atual momento político da América Latina. Para o sociólogo brasileiro, o que está faltando para a integração da região avaçar é um projeto estratégico de futuro, uma compreensão mais clara do que é a América Latina hoje. As propostas do Banco do Sul, de uma moeda única e de um Banco Central Único apontam para essa direção, defende Sader.


BUENOS AIRES – O processo político da última década na América Latina deu como resultado governos de um sinal distinto do neoliberalismo. Alguns decididamente opostos, outros com “traços contraditórios”, segundo a expressão empregada por Emir Sader, analista político brasileiro e diretor executivo do Conselho Latinoamericano de Ciências Sociais (Clacso). Apesar das coincidências que se observam em muitos sentidos, no plano econômico os países da região parecem não terminar de romper o molde que a enquadra nem de afastar de cima de si as sombras de seu passado. Sobre estes e outros temas, Emir Sader conversou com o Página 12.

O que está faltando aos países da região para integrar-se e avançar de forma mais acelerada rumo a um processo de transformação?

Emir Sader: Um projeto estratégico de futuro, uma compreensão mais clara do que é a América Latina hoje, da natureza de seus regimes econômicos e sociais em função do papel do Estado. E pensar que futuro pode haver para além do neoliberalismo.

Na sua avaliação, em que aspectos se avançou?

Emir Sader: Alguns ladrilhos dessa construção já existem, seja como realidades ou como menções no discurso. O Banco do Sul, a idéia de uma moeda única, o Banco Central único, tudo o que significaria uma política econômica única, são elementos importantes. Mas, ao mesmo tempo, é preciso discutir que modelo de sociedade queremos e isso significa pronunciar-se a favor de uma sociedade desmercantilizada. Discutir que tipo de Estado queremos, propondo um Estado que não esteja dominado pela financeirização. Definir que tipo de cultura, que identidade e diversidade cultural devemos ter. Dizer que tipo de espaço alternativo criamos, por fora da hegemonia unipolar norte-americana.

O que implica tudo isso?

Emir Sader: Esse processo implica não somente integração econômica e social, mas também tecnológica, cultural, educacional, midiática e de estruturas políticas. Existe um esboço de parlamento latinoamericano, mas ainda estamos muito longe de ter estruturas supra-nacionais de caráter latinoamericano ou sul-americano. O tema, poderíamos dizer, agora é político, é discutir futuras relações de poder. Que tipo de sociedade, que nova hegemonia queremos construir.

Aparentemente, alcançar esses objetivos exigiria um salto de consciência importante das sociedades e de sua classe política, uma mudança em relação ao paradigma neoliberal da década anterior. Neste sentido, que papel estão desempenhando os intelectuais da América Latina, sejam eles economistas ou cientistas sociais?

Temos uma trajetória extraordinária do pensamento crítico latinoamericano. A grande virada foi a crítica que a Cepal fez à teoria do comércio internacional, que deu a volta ao mundo, e pensou o intercâmbio a partir da periferia e as formas de desenvolvimento desigual, de intercâmbio desigual. Foi pensar na acumulação a partir da periferia, com todas as debilidades deste processo. A grande novidade histórica da segunda metade do século passado, em termos econômicos, foi a industrialização da periferia. Até aí, esse era um tema monopolizado pelo centro. A periferia era agricultura, mineração, pecuária e nada mais.

Quais foram os efeitos dessa virada?

Emir Sader: Essa mudança no pensamento econômico elevou o nível de identidade nacional, colocou a relação com as potências imperiais em um nível superior. O nacionalismo foi o grande fenômeno do século passado na América Latina. Com tons anti-imperialistas maiores ou menores, segundo o caso. Mas foi concebido pela intelectualidade, E, em anos recentes, várias teorias elaboradas nessa época ajudaram a pensar a ação política dos novos governos na região. Mas não em todos os casos.

Poderia dar exemplos dos dois casos?

Emir Sader: Na Bolívia, deu-se por meio de um grupo pequeno de intelectuais, chamado “La Comuna” (do qual surge o atual vice-presidente, Álvaro García Linera). Um núcleo de acadêmicos articulou-se fora da Universidade e ajudou o movimento indígena a repensar sua identidade, sua trajetória. A fazer uma auto-crítica da esquerda boliviana, de seu passado. No Equador, também há setores intelectuais que estão articulados entre si e com o processo político. Na Venezuela, em troca, dá-se um processo de mudança com uma ausência enorme de uma intelectualidade que ajude a pensar esse processo. E isso é grave.

E como você classificaria os casos da Argentina e do Brasil?

Emir Sader: São dois países com uma trajetória intelectual muito maior do que a dos quecitei anteriormente, com muito mais raízes no pensamento crítico. No entanto, hoje mostram uma ausência relativa desta intelectualidade nos temas políticos, ideológicos, culturais e econômicos, uma ausência muito grave.

Venezuela, Brasil, Argentina. Está falando dos países economicamente mais fortes e relativamente mais desenvolvidos e são os que apresentariam maiores debilidades no plano intelectual para promover uma mudança.

Emir Sader: Minha conclusão é que o conjunto da intelectualidade, não apenas seu pensamento crítico, foi pega de surpresa pelo atual período histórico. Aparece como a voz de menor resistência aos sistemas de dominação, ficando muitas vezes atrás dos movimentos sociais. É preciso destacar que a América Latina foi território de várias teorias avançadas do pensamento crítico em décadas anteriores, mas hoje não encontramos a expressão de muitas dessas teorias no movimento político latinoamericano. Não estão ajudando a pensar o processo contemporâneo.

Qual foi o comportamento desses pensadores?

Emir Sader: Pode-se perceber que muitos intelectuais do pensamento crítico de outra época terminaram aderindo ao neoliberalismo, porque viam essa tendência como algo inevitável. E quando se vêem as coisas assim, isso marca o que será feito. Fernando Henrique Cardoso foi um brilhante intelectual de esquerda nos anos 60, mas seu governo nos 90 não foi distinto do de Menem. E eu não diria, tomando as coisas em seu conjunto, que é uma postura de direita, mas sim um conformismo histórico. Outra parte da intelectualidade ficou refugiada em posições que eu chamaria de ultra-esquerda, posições que estão descoladas do processo real. A ultra-esquerda tem uma capacidade crítica enorme, mas nunca conseguiu construir processos de transformação revolucionária.

Neste debate sobre os governos e as políticas na América Latina, muitos pensadores e dirigentes de esquerda seguem julgando como governos de direita a aqueles que não produziram uma ruptura com o neoliberalismo.

Emir Sader: Há uma postura que tende a tomar determinados aspectos da realidade e absolutizá-los, perdendo assim a objetividade. Hoje a divisão fundamental não é entre uma esquerda boa e uma esquerda má. Essa é uma postura de direita que divide a esquerda. A linha é entre os que estão a favor do projeto de integração regional e os que estão a favor de tratados bilaterais de comércio com os Estados Unidos. No marco daqueles que defendem a integração regional, há alguns que avançaram rumo à ruptura do modelo, como Equador, Bolívia e Venezuela. Outros, como Brasil e Argentina, conseguiram flexibilizar o modelo, e aí está seu mérito. Tudo o que é feito para a manutenção do modelo anterior no Brasil e na Argentina é negativo. Mas a política externa é positiva, a política social é positiva. E isso vale.

Não está justificando-os?

Emir Sader: Não, mas é preciso dar-se conta que ainda que tenham ocorrido avanços importantes na América Latina, vivemos em um mundo de hegemonia neoliberal: hegemonia econômica, de valores, na relação de força social. Não se pode esquecer que o neoliberalismo colocou todo o movimento popular na defensiva. A luta contra o modelo, por conseguir por em contradição seus paradigmas, deu-se contra a direita e desde posições anti-neoliberais que não eram de esquerda. Conseguimos ter governos com traços contraditórios e isso foi o resultado da luta, de uma luta exitosa. A alternativa era ter governos de direita, não de esquerda.

O predomínio e a crise do capitalismo: “Desmercantilizar a economia”

Emir Sader caracteriza o período histórico vivido na segunda metade do século XX como “a passagem de um mundo bipolar para outro unipolar”, como uma hegemonia absoluta do capitalismo e dos Estados Unidos como potência dominante. Além disso, destaca a passagem, dentro do capitalismo, do modelo keynesiano para o neoliberal. No entanto, apesar deste “triunfo espetacular” do capitalismo, Sader sustenta que este processo acaba não garantindo “nem um ciclo tranqüilo para a hegemonia dos Estados Unidos nem um crescimento sustentável”. Segundo o sociólogo e historiador brasileiro, a hegemonia capitalista deu-se através de “uma vitória extraordinária dos Estados Unidos nos planos político, militar e ideológico”. “A hegemonia econômica e cultural é tal que o modo de vida capitalista se impõe hoje sem disputa no mundo. Não há outro modelo comparável. Até na China, as cidades se transformam e desenvolvem como espelho das cidades estadunidenses. Os pobres têm expectativas de consumo de acordo com o estilo norte-americano”.

No entanto, o capitalismo mostra seus limites. A crise atual da economia norte-americana, sustenta Sader, poderia ser o início de “um período longo de instabilidade com turbulências”. Os obstáculos ou contradições do mundo unipolar têm seu reflexo na excessiva concentração de renda, na devastação ecológica e na guerra, adverte. “O capital se deslocou fortemente rumo à atividade especulativa financeira. Cerca de 90% dos movimentos de capital no mundo hoje são mudanças de papéis de uma mão para outra, não são o resultado de atividades comerciais, assinala Sader. Mas enquanto isso ocorre nos centros financeiros mundiais, no coração do sistema capitalista, na periferia ele descreve uma dinâmica diferente.

“Nas décadas de 80 e 90, a América Latina foi o laboratório mais avançado do neoliberalismo. O arco político da região aderiu em conjunto ao modelo e foi o primeiro a explicitá-lo. México, Brasil e Argentina foram as expressões mais claras disso”. Mas esse modelo entrou em crise, gerando fortes contradições.

Hoje, diz ainda Sader, a América Latina é “a única região com projetos de integração relativamente independentes dos Estados Unidos, condição necessária mas não suficiente para a ruptura com o modelo neoliberal”. Diante da crise de hegemonia, os países do subcontinente reagiram de diversas formas, de acordo com sua capacidade de reconstruir as forças para uma disputa de poder. Bolívia e Equador, segundo Sader, são exemplos de sublevação popular com saída eleitoral que permitiu refundar o Estado. Destacou que estes países “puderam recompor sua identidade porque tiveram menos penetração cultural do neoliberalismo, o modelo não deitou raízes”. Um fenômeno diferente do ocorrido no México, Chile e Argentina, onde se enraizou.

Sader destacou como modelo de integração independente a proposta da ALBA (Alternativa Bolivariana para os povos da América), impulsionada pela Venezuela. “Democratizar a economia é desmercantilizar”, defende o sociólogo brasileiro, como bandeira na luta anti-hegemônica. Ainda que não deixe de reconhecer a distância existente entre o sistema capitalista atual e um modelo que possa substituí-lo. “Existe um abismo entre o esgotamento do modelo atual e a aparição de outro ou outros. O panorama é contraditório. Mas o mundo novo é um modelo ainda não elaborado”, postulou.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer