Cuba libera 52 presos, já Espanha atira contra seus dissidentes

Anúncios

Fidel: "Lula sabe que em nosso país nunca se torturou ninguém"

O líder da revolução cubana, Fidel Castro, reagiu, nesta terça, às críticas de parte da imprensa internacional por causa da morte do preso Orlando Zapata Tamayo, causada por uma greve de fome. Em novo artigo, ele defendeu o presidente Luiz Inácio da Lula da Silva, que também tem sido atacado por não condenar o governo da ilha. Fidel acusou os críticos de Lula de "invejosos" de seu "prestígio e glória" e disse que usam contra ele "as calúnias vis que há meio século são usadas contra Cuba".

Fidel_CastroLULA1

Na semana passada, após 85 dias de greve de fome – na qual reivindicava benefícios inalcançáveis, como telefone, cozinha e televisão em sua cela -, o preso Zapata Tamayo faleceu, provocando uma campanha de difamação contra o regime cubano. Parte da mídia e alguns governos têm responsabilizado o governo de Raúl Castro pelo ocorrido. 
Os meios de comunicação também cobraram – de forma absurda – que o presidente Lula, que visitava a ilha no dia da morte do dissidente, condenasse o regime da ilha. Adotando uma postura compatível com seu cargo, de não interferência nos assuntos intenos de outra nação, o brasileiro apenas lamentou a morte e disse discordar das greves de fome como instrumento de protesto. Está claro que os ataques à Cuba e a Lula são uma forma de utilizar politicamente o falecimento do preso.
No artigo, Fidel tece vários elogios a Lula e fala de sua antiga relação com o operário que virou presidente. Segundo ele, Lula sabe que em "nosso país nunca se torturou ninguém, nunca se ordenou o assassinato de um adversário, nunca se mentiu para o povo".
Leia abaixo o artigo de Fidel:

O último encontro com Lula

O conheci em Manágua, em julho de 1980, há 30 anos, durante a celebração do primeiro aniversário da Revolução Sandinista, graças a meus contatos com os partidários da Teologia da Libertação, que foram iniciados no Chile, quando, no ano de 1971, visitei o presidente Allende.
Por meio de Frei Betto sabia quem era Lula, um líder operário no qual os cristãos de esquerda punham desde cedo suas esperanças.
Tratava-se de um humilde operário da indústria metalúrgica que se destacava pela sua inteligência e prestígio entre os sindicatos, na grande nação que emergia das trevas da ditadura militar imposta pelo império ianque na década de 60.
As relações do Brasil com Cuba tinham sido excelentes até que o poder dominante no hemisfério as fez sucumbir. Passaram-se décadas até que voltassem lentamente a ser o que são hoje.

Cada país viveu sua história. Nossa pátria suportou inusitadas pressões nas incríveis etapas vividas desde 1959, em sua luta ante as agressões do mais poderoso império que existiu na história.
Por isso, tem para nós uma enorme transcendência a reunião que acaba de acontecer em Cancun e a decisão de criar uma Comunidade de Estados de América Latina e o Caribe. Nenhum outro fato institucional de nosso hemisfério, durante o último século, reflete semelhante transcendência.
O acordo é atingido em meio à mais grave crise econômica que tem tido lugar no mundo globalizado, coincidindo com o maior perigo de catástrofe ecológica de nossa espécie e ao mesmo tempo com o terremoto que destruiu Porto Príncipe, capital de Haiti – o mais doloroso desastre humano da história de nosso continente, no país mais pobre do continente e o primeiro onde foi erradicada a escravidão.
Quando escrevia esta reflexão, a apenas seis semanas da morte de mais de duzentas mil pessoas, conforme cifras oficiais naquele país, chegaram notícias dramáticas dos prejuízos causados por outro sismo no Chile, que provocou a morte de pessoas cujo número está por volta de mil, segundo estimativas das autoridades, e enormes danos materiais.

Comoviam especialmente as imagens do sofrimento de milhões de chilenos afetados material ou emocionalmente por aquele golpe cruel da natureza. O Chile, felizmente, é um país com mais experiência nesse tipo de fenômeno, é muito mais desenvolvido economicamente e com mais recursos. Se não existissem infra-estrutura e edificações mais sólidas, um incalculável número de pessoas, talvez dezenas ou inclusive centenas de milhares de chilenos teriam perecido.
Fala-se de dois milhões de danificados e possíveis perdas que oscilam entre 15 e 30 bilhões de dólares. Em sua tragédia, o Chile conta também com a solidariedade e a simpatia dos povos, entre eles o nosso, ainda que, conforme o tipo de cooperação que precisa, seja pouco o que pode fazer Cuba, cujo governo foi um dos primeiros em expressar ao Chile seus sentimentos de solidariedade quando as comunicações estavam ainda colapsadas.

O país que hoje coloca à prova a capacidade do mundo para encarar a mudança climática e garantir a sobrevivência da espécie humana é sem dúvidas o Haiti, por constituir um símbolo da pobreza da qual hoje padecem milhares de milhões de pessoas no mundo, incluída uma parte importante dos povos de nosso continente.
O acontecido no Chile, com o terremoto da incrível intensidade de 8,8 na escala de Richter, me obriga a enfatizar a importância e o dever de estimular os passos de unidade conseguidos em Cancun, ainda que não tenha ilusões sobre o quão difícil e complexa será nossa luta de idéias face ao esforço do império e seus aliados, dentro e fora de nossos países, para frustrar a tarefa unitária e independentista de nossos povos.
Desejo deixar testemunho escrito da importância e do simbolismo que para mim teve a visita e o último encontro com Lula, do ponto de vista pessoal e revolucionário. Ele disse que, perto já de finalizar seu mandato, desejava visitar seu amigo Fidel; qualificativo honroso que recebi da sua parte. Creio conhecê-lo bem. Não poucas vezes conversamos fraternalmente dentro e fora de Cuba.

Uma vez tive a honra de visitá-lo em sua casa, situada em um modesto bairro de São Paulo, onde residia com sua família. Foi para mim um emotivo encontro com ele, sua esposa e seus filhos. Não esquecerei nunca a atmosfera familiar e sadia daquele lar, e o sincero afeto com que o abordavam seus vizinhos, quando Lula era já um prestigioso líder operário e político.
Ninguém sabia então se chegaria ou não à Presidência do

Brasil, pois os interesses e forças que se  opunham eram muito grandes, mas gostavam de falar com ele. Lula também não se importava muito com o cargo; satisfazia-lhe, sobretudo, o prazer de lutar e o fazia com perfeita modéstia, que demonstrou mais ainda quando, tendo sido vencido três vezes por seus poderosos adversários, só aceitou a postulação do Partido dos Trabalhadores pela quarta ocasião por forte pressão de seus mais sinceros amigos.
Não tentarei repassar as vezes em que nos falamos antes de o elegerem presidente. Uma delas, entre as primeiras, foi em meados da década de 80, quando lutávamos em Havana contra a dívida externa da América Latina, que então ascendia a 300 bilhões de dólares e tinha sido mais de uma vez paga. É um verdadeiro lutador.
Três vezes, como disse, seus adversários, apoiados em enormes recursos econômicos e mediáticos, derrotaram-no nas urnas. Seus mais próximos colaboradores e amigos sabíamos, contudo que tinha chegado a hora de aquele humilde operário ser o candidato do Partido dos Trabalhadores e das forças de esquerda.

Com certeza seus oponentes o subestimaram, pensaram que não poderia contar com maioria alguma no órgão legislativo. Não existia já a URSS. O que poderia significar Lula na frente do Brasil, uma nação de grandes riquezas, mas de escasso desenvolvimento, nas mãos de uma burguesia rica e influente?

Contudo, o neoliberalismo entrava em crise, a Revolução Bolivariana tinha triunfado na Venezuela, Menem estava em queda vertical, Pinochet havia desaparecido da cena e Cuba resistia. Porém Lula é eleito quando Bush triunfa fraudulentamente nos Estados Unidos da América, despojando seu rival Al Gore da vitória.

Iniciava-se uma etapa difícil. Impulsionar a corrida aos armamentos e com ela o papel do Complexo Militar Industrial e reduzir os impostos aos setores ricos foram os primeiros passos do novo Presidente dos Estados Unidos da América.
Com o pretexto da luta contra o terrorismo, reiniciou as guerras de conquista e institucionalizou o assassinato e as torturas como instrumento de domínio imperialista. Não são publicáveis os fatos relacionados com os cárceres secretos, que delatavam a cumplicidade dos aliados dos Estados Unidos da América com essa política. Deste modo, foi acelerada a pior crise econômica das que em forma cíclica e crescente acompanham o capitalismo desenvolvido, mas desta vez com os privilégios de Bretton Woods e sem nenhum de seus compromissos.

O Brasil, por sua vez, nos últimos oito anos, sob a direção de Lula vencia obstáculos, incrementava seu desenvolvimento tecnológico e potenciava o peso da economia brasileira. A parte mais difícil foi seu primeiro período, mas teve sucesso e ganhou experiência.

Com sua incansável luta, serenidade, sangue frio e crescente consagração à tarefa, em condições internacionais tão difíceis, o Brasil atingiu um PIB que se aproxima aos dois bilhões de dólares. Os dados variam segundo as fontes, mas todas o colocam entre as 10 maiores economia do mundo.
Apesar disso, com uma superfície de 8 milhões 524 mil quilômetros quadrados, em comparação com os Estados Unidos da América, que apenas possui um pouco mais de território, o Brasil só atinge aproximadamente 12% do Produto Interno Bruto desse país imperialista que saqueia o mundo e expande suas forças armadas em mais de mil bases militares de todo o planeta.

Tive o privilégio de estar presente em sua tomada de posse nos fins de 2002. Também esteve lá Hugo Chávez, que acabava de encarar o golpe de Estado traidor de 11 abril desse ano, e posteriormente o golpe petroleiro organizado por Washington. Bush já era Presidente. As relações entre o Brasil, a República Bolivariana e Cuba sempre foram boas e de mútuo respeito.
Eu tive um acidente sério em outubro de 2004, que limitou seriamente minhas atividades durante meses, e fiquei gravemente doente nos fins de julho de 2006, em virtude do qual não hesitei em delegar minhas funções na frente do Partido e do Estado no dia 31 de julho desse ano, com caráter provisório, ao que logo lhe designei caráter definitivo quando compreendi que não estaria em condições de assumi-las novamente.
Sendo assim, a gravidade de minha saúde me permitiu estudar e meditar, consagrei-me a isso e a revisar materiais de nossa Revolução, e de vez em quando a publicar algumas

Reflexões.
Após a minha doença, tenho tido o privilégio de ser visitado por Lula quantas vezes ele tem viajado a nossa Pátria e de conversar amplamente com ele. Não direi que sempre coincidi com toda sua política. Sou, por princípio, oposto à produção de bio-combustível a partir de produtos que possam ser utilizados como alimentos, ciente de que a fome é e poderá ser cada vez mais uma grande tragédia para a humanidade.
Este, porém ­­― o expresso com toda franqueza­ ― não é um problema criado pelo Brasil e ainda menos por Lula. Faz parte inseparável da economia mundial imposta pelo imperialismo e seus aliados ricos que, subsidiando suas produções agrícolas, protegem seus mercados internos e concorrem no mercado mundial com as exportações alimentícias dos países do Terceiro Mundo, obrigados a importar em câmbio os artigos industriais produzidos com as matérias-primas e os recursos energéticos deles próprios, que herdaram a pobreza de séculos de colonialismo.
Compreendo perfeitamente que o Brasil não tinha outra alternativa, face à concorrência desleal e os subsídios dos Estados Unidos da América e da Europa, que incrementar a produção de etanol.

A taxa de mortalidade infantil ainda no Brasil é de 23,3 por cada mil nascidos vivos e a materna de 110 por cada 100 mil partos, entretanto nos países industrializados e ricos é menos de 5 e 15 respectivamente. Outros muitos dados similares poderiam ser citados.
O açúcar de beterraba, subsidiada pela Europa, arrebatou do nosso país o mercado de açúcar derivado da cana-de-açúcar, trabalho agrícola e industrial precário e eventual que mantinha no desemprego grande parte do tempo aos trabalhadores canavieiros. Os Estados Unidos da América por sua vez, se apoderaram também das nossas melhores terras e suas empresas eram proprietárias da indústria. Um dia, abruptamente, despojaram-nos da quota açucareira e bloquearam o nosso país para esmagar a

Revolução e a independência de Cuba.
Hoje o Brasil tem desenvolvido a cultura da cana-de-açúcar, a soja e o milho com máquinas de alto rendimento que podem ser empregadas nessas culturas com altíssima produtividade. Quando um dia observei a filmagem de uma extensão de 40 mil hectares de terra em Ciego de Ávila, dedicada a cultura da soja em rotação com o milho, onde se tentará trabalhar durante todo o ano, exclamei: é o ideal de uma empresa agrícola socialista, altamente mecanizada com elevada produtividade por homem e por hectare.

Os problemas da agricultura e suas instalações no Caribe são os furacoẽs que, em número crescente, arrasam seu território.
Também nosso país tem elaborado e assinado com o Brasil o financiamento e construção de um moderníssimo porto no Mariel, que será de enorme importância para nossa economia.

Na Venezuela estão utilizando a tecnologia agrícola e industrial brasileira para produzir açúcar e utilizar o bagaço como fonte de energia termoelétrica. São equipamentos de ponta que trabalham na empresa também socialista. Na República Bolivariana utilizam o etanol para melhorar o efeito ambientalmente nocivo da gasolina.
O capitalismo desenvolveu as sociedades de consumo e também o esbanjamento de combustível que originou o risco de ma dramática mudança climática. A natureza demorou 400 milhões de anos para criar o que nossa espécie está consumindo em apenas dois séculos. A ciência não tem resolvido ainda o problema da energia que substituirá à que hoje gera o petróleo; ninguém sabe quanto tempo precisará e quanto custaria resolvê-lo a tempo. Vai dispor dele? Isso foi o que se discutiu em Copenhague e a Cúpula resultou em um fracasso total.

Lula me contou que quando o etanol custa 70% do valor da gasolina, já não é negócio produzi-lo. Exprimiu que dispondo o Brasil da maior floresta do planeta, reduzirá progressivamente o corte de árvores atual em 80%.
Hoje possui a maior tecnologia do mundo para perfurar no mar, e pode extrair combustível situado a uma profundidade de sete mil metros de água e fundo marinho. Há 30 anos teria parecido história de ficção científica.
Explicou os programas educacionais de alto nível que o Brasil se propõe a realizar. Valoriza altamente o papel da China no âmbito mundial. Declarou com orgulho que o intercâmbio comercial com esse país se eleva a 40 bilhões de dólares.
Uma questão indiscutível: o operário metalúrgico se tornou atualmente num estadista destacado e prestigiado, cuja voz se escuta com respeito em todas as reuniões internacionais.

Está orgulhoso por ter recebido a honra dos Jogos Olímpicos para o Brasil no ano 2016, em virtude do excelente programa apresentado ena Dinamarca. Será sede também do Mundial de Futebol no ano 2014. Tudo foi resultado dos projetos apresentados pelo Brasil, que superaram os de seus concorrentes.
Uma grande prova de seu desinteresse foi a renúncia à procura da reeleição. E ele confia que o Partido dos Trabalhadores continuará governado no Brasil.
Alguns invejosos de seu prestígio e de sua glória e, pior ainda, os que estão a serviço do império, o criticaram por visitar Cuba. Utilizaram para isso as calunias vis que há meio século são usadas contra Cuba.

Lula sabe há muitos anos que, em nosso país, jamais se torturou ninguém, jamais se ordenou o assassinato de um adversário, jamais se mentiu ao povo. Tem a certeza de que a verdade é companheira inseparável de seus amigos cubanos.
De Cuba partiu rumo a nosso vizinho o Haiti. Informamos para ele nossas idéias sobre o que propomos com relação a um programa sustentável, eficiente, especialmente importante e muito econômico para o Haiti. Sabe que mais de cem mil haitianos foram atendidos por nossos médicos e por formados na Escola Latino-Americana de medicina depois do terremoto. Falamos de questões sérias, conheço seus ardentes desejos de ajudar a esse nobre e sofrido povo.

Guardarei uma inesquecível lembrança de meu último encontro com o Presidente do Brasil e não hesito em proclamá-lo.

Fidel Castro Ruz

Chávez convoca a 5ª Internacional Socialista na Venezuela

 

O presidente venezuelano, Hugo Chávez, convocou neste sábado (21) a 5ª Internacional Socialista em um encontro com representantes de mais de 50 partidos de esquerda reunidos em um evento realizado em Caracas desde quinta-feira (19). "Atrevo-me a convocar a 5ª Internacional para retomar a 1ª, a 2ª, a 3ª, a 4ª", disse Chávez, entre aplausos dos participantes.

Chávez

Chávez e Evo Morales com representantes de partidos de esquerda reunidos em Caracas

Chávez recordou que passaram 145 anos da convocação de Karl Marx da 1ª Internacional; 120 anos da 2ª Internacional convocada por Friedrich Engels; 90 anos da convocação de Lenin da 3ª Internacional e 71 anos da convocação de Trotsky da 4ª Internacional.
Na opinião do mandatário, o mundo novo, necessário e possível, nasceu só que o império estadunidense e seus aliados o querem liquidar antes de que cresça.

Manifestou que esse império velho, essa classe dominante de idéias retrógadas, racistas e fascistas anda cheio de ódio com a espada levantada tratando de cercear a esperança que nasceu.
"Acho que a 5ª Internacional é uma responsabilidade porque a crise a nível mundial se acelera", proclamou.
"Se fosse possível ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e outro partido deste mundo conformar o primeiro núcleo da 5ª Internacional, o faríamos", disse Chávez.

E acrescentou: "estou certo de que se poderia contar com mais levando em conta que estão aqui reunidos 52 organizações partidárias de esquerda".
O presidente venezuelano disse que as organizações partidárias presentes ao encontro devem refletir sobre a convocatória da 5ª Internacional e depois responder se é oportuna esta convocação.

Neste sábado, os representantes dos diversos partidos da izquierda internacional que assistem ao encontro que se realiza em Caracas discutem o documento final onde esperam condenar a instalação de bases militares norte-americanas em território colombiano, assim como o apoio a diversos movimentos revolucionários em várias partes do mundo.

Entre as principais propostas a serem incluídas no texto está a condenação enfática ao golpe de Estado en Honduras e à continuidade do bloqueio econômico imposto pelos EUA contra o povo cubano.
Com informações da Prensa Latina

Fonte: Imprensa Latina

1968: entre a política e a cultura, jovens mudaram o mundo.

Por Jaqueline Deister*, da equipe do Observatório Jovem

 

A moda como forma de expressar os ideais de jovens.

Minissaia, calça Lee e sandálias franciscanas. De  indumentária despojada os jovens rebeldes de 68, se inspiravam nas idéias de Guy Debord, Jean Paul Sartre, no cinema da Nouvelle Vague, na música dolorosa de Janis Joplin e nos ideais revolucionários marxistas. De Norte a Sul do mundo, jovens clamavam por liberdade, independência em relação aos valores dominantes e igualdade. A efervescência política, cultural e comportamental marcou o ano de 1968

Os jovens mostraram de maneira inédita que podiam também ser protagonistas da História e mudar os valores da sociedade conservadora. Pílula anticoncepcional, luta estudantil, experimentação de drogas, rock e sexo sem culpa, são apenas algumas palavras-chave que definem o ano do “êxtase da História”, segundo o sociólogo francês Edgar Morin


Os jovens e a política no mundo


Num cenário tumultuado, o ano de 68 apresentou mudanças bem definidas no panorama político. Nos Estados Unidos a morte de um líder foi o estopim de mudanças. O pastor Martin Luther King liderou através da resistência pacífica a luta dos negros pela conquista dos direitos civis e o fim da segregação racial. Um outro movimento conhecido como Panteras Negras, também reivindicava pela igualdade de direitos, porém, lançava mão de ações agressivas contra o sistema de dominação branca. Os panteras tornaram-se mundialmente conhecidos nos Jogos Olímpicos do México, quando dois corredores americanos subiram ao pódio usando luvas pretas, e ergueram os punhos cerrados num gesto característico do movimento. Mas foi o trágico assassinato de Martin Luther King, que provocou o fim dos mecanismos de segregação racial inscritos na Constituição norte-americana.

Uma série de protestos eclodiu com a crescente participação dos Estados Unido Execução de um guerrilheiro vietcongs na Guerra do Vietnã. Cerca 40 mil soldados americanos morreram num ataque ao exército norte-vietnamita, em 1968. O episódio ficou conhecido como Ofensiva do Tet. A resposta da população as mortes de seus conterrâneos e as bombas de napalm lançadas pelas forças americanas na Indochina, vieram sob a forma de rejeição dos jovens à sociedade vigente na época. Nasce o movimento hippie, a contracultura que repudia a cultura de massa e instituições vistas como repressivas como, por exemplo, a família. “Se a sociedade americana era capaz de cometer um crime daquele vulto, atacando uma pobre sociedade camponesa no sudeste asiático, ela deveria ser rejeitada”, diziam os hippies.   

                                                            
Na Europa a atmosfera de insatisfação com a política implementada por alguns países, também incitou uma onda de protestos. Na antiga Tchecoslováquia um movimento composto por intelectuais reformistas do Partido Comunista Tcheco, interessados em “desestanilizar” o país, e remover vestígios de autoritarismo e despotismo que eram incompatíveis com a proposta do socialismo, ficou conhecido como Primavera de Praga. A breve experiência de uma “democracia”, comandado por Alexandre Dubcek na Tchecoslováquia, foi esmagada pelos tanques soviéticos sete meses após a sua implantação. Apesar de derrotado o movimento contribuiu para enfraquecer o bloco comunista liderado pela União Soviética, e as idéias defendidas pelos intelectuais de Praga foram resgatadas 20 anos depois com a criação da glasnost (transparência política) de Michail Gorbachov.
Na antiga Tchecoslováquia as manifestações eram contrárias ao comunismo ortodoxo, e se aproximavam cada vez mais de ideais sociais-democráticos aos moldes ocidentais. Em entrevista ao jornal O Globo, o historiador da UFRJ Carlos Fico fez uma análise sobre “o ano que não acabou. Fico salientou que na França há uma certa utopia socialista com a união estudante-trabalhador que acreditava ser capaz de derrubar o governo de Gaulle. Foi em Paris onde a expressão maio de 68 se consagrou.
Estudantes protestam nas ruas parisienses. PARIS, março de 1968. Estudantes parisienses descontentes com a disciplina rígida, os currículos escolares e a estrutura acadêmica conservadora organizam protestos que levam a ocupação da Universidade de Nanterre. A atitude agressiva da polícia para conter os estudantes gera revolta que contamina a Universidade de Sorbone e a população. Os motivos de protesto ganham dimensão nacional. Os manifestantes contestam o governo de Charles de Gaulle. Uma greve geral mobilizou 10 milhões de franceses. O país parou: não havia mais trens, metrô, combustível e as fábricas fecharam as portas.
Foi nessa conjuntura que surgiu a figura de Daniel Cohn-Bendit, ex-líder estudantil e atual deputado do Parlamento europeu pelo Partido Verde da Alemanha. Em 68, Cohn-Bendit liderou cerca de 10 mil estudantes da Universidade de Nantarre e Sorbone nas chamadas “barricadas” em que estudantes e polícia se enfrentavam diretamente. Os protestos logo se alastraram por toda a França e conquistaram adeptos que não tinham vínculo com a Universidade. Uma greve geral de 24 horas parou Paris no mês de maio. Os manifestantes criticavam nas ruas a política trabalhista e educacional do governo de Gaulle. Para se ter uma dimensão da greve, cerca de seis milhões de trabalhadores ocuparam 300 fábricas na França.

O espírito revolucionário do movimento estudantil, amparado nas ideologias de grupos maoístas, trokistas e libertários iniciou uma batalha em que as maiores “armas” foram as palavras. Com slogans expressivos como “É proibido proibir”, “Sejam realistas, peçam o impossível” e “E abaixo a sociedade de consumo” os jovens franceses romperam barreiras territoriais e influenciaram jovens de todo o mundo a se rebelarem contra os “padrões” conservadores da época.

    Daniel Cohn Bendit nos tempos de líder estudantil em Paris.                                                                                                                                                                                          

No livro recém lançado na França É proibido liquidar o espírito de maio? O ex-líder estudantil Cohn-Bendit   salienta a importância de 68 no terreno político, para ele a sociedade evolui no conceito de liberdade e de autonomia do individuo e um dos principais frutos, segundo Bendit, foi o movimento ecologista. O atual deputado ainda reforça a idéia de que os problemas da sociedade não podem ser solucionados por receitas prontas da esquerda, ou fórmulas mágicas da direita, mas sim, através de uma convergência entre os vários campos políticos.
No Brasil


No Brasil, o ano de 68 foi marcado pelo recrudescimento da ditadura militar devido ao Ato Institucional n0 5 (AI-5), durante o governo de Arthur da Costa e Silva. O assassinato do estudante Edson Luís no restaurante universitário Calabouço no Rio de Janeiro, marcou o período de intensas mobilizações contra o governo militar. Cerca de 50 mil pessoas acompanharam o enterro do estudante, que passaria para a História como sendo um dos principais símbolos das atrocidades cometidas nos Anos de Chumbo.
RIO DE JANEIRO, 26 de junho. Era uma tarde de quarta feira fria e com o sol fraco, quando o movimento estudantil, intelectuais, artistas, padres e mães se reuniram na Candelária, centro do Rio, em resposta à morte de Edson Luís. Os manifestantes davam o “tom” do maior protesto contra o regime militar no país, era a Passeata dos Cem Mil. “A marcha” foi tão forte que o próprio general Costa e Silva precisou abrir espaço para o diálogo.
Em julho, o en

tão general e presidente liberou fundos para o desenvolvimento do Projeto RonVelório do  corpo do estudante Edson Luís.don e recebeu uma delegação que reivindicava pela liberação de estudantes presos, a reabertura do restaurante Calabouço e o fim da repressão policial e de toda espécie de censura. “Saímos daquela passeata com a certeza da vitória, achando que a ditadura iria recuar”, lembra Ernandes Fernandes que assina o projeto gráfico do livro 68 Destinos do fotógrafo Evandro Teixeira e participou da Marcha dos Cem mil. O livro buscou reencontrar 40 anos depois, 68 rostos que foram contemplados pelas lentes do fotojornalista.
A abertura de um diálogo por parte do presidente foi apenas uma ilusão de que a ditadura “afrouxaria” as suas amarras. As exigências dos integrantes da passeata foram recusadas e o Ministro da Justiça Luis Antonio da Gama e Silva foi encarregado de tomar as medidas para reprimir a oposição e proibir qualquer manifestação contra o regime dos generais. 

Os jovens não deixaram de se organizar mesmo com a legitimação da repressão militar após a Passeata dos Cem Mil. Em outubro, dois meses antes da instauração do AI-5, os estudantes se reuniram em Ibiúna, interior de São Paulo, para o 30º Congresso da União dos Estudantes. Com forte marcação no movimento estudantil, a polícia descobriu a sede do encontro e prendeu cerca de 800 estudantes. Entre os presos estavam José Dirceu, Franklin Martins, Vladimir Palmeira e Luiz Travassos.
O Ato Institucional Número 5 foi promulgado em dezembro de 1968 como forma de conter a forte agitação Passeata dos cem mil no centro do Rio de Janeiro.política da população. Foram tomadas medidas polêmicas como o fechamento do Congresso Nacional por tempo indeterminado, a suspensão da possibilidade de qualquer reunião de cunho político e a censura prévia que se estendeu aos meios de comunicação, a música, ao teatro e ao cinema. O AI-5 vigorou até 1978 e produziu uma série de ações arbitrarias que davam ao governo o "direito" de punir os que fossem considerados “inimigos” do regime. O enfrentamento entre a esquerda armada e os militares tornou-se mais constante e violento nesse período. A expressão Anos de Chumbo foi usada pela Imprensa da época para designar o período da “linha dura” que foi inaugurado com o AI-5. A designação é uma paráfrase do título de um filme em português da cineasta alemã, Margareth Von Trota, sobre a repressão de um grupo revolucionário nos anos 70, conhecido como Facção do Exército Vermelho.

Com o endurecimento do regime a luta armada foi vista como a opção para setores mais radicalizados da esquerda da época. O historiador Carlos Fico, já citado, disse que a esquerda era muito idealista e por isso optou pela guerrilha urbana e rural. “Havia uma perspectiva muito ingênua, que era a de se contrapor ao Exército supondo que o povo acorreria para suas idéias”, disse Fico. Ele ainda afirma que essa perspectiva prevaleceu devido a um ideal romântico da juventude que se inspirava na recente vitória da Revolução Cubana para mudar o cenário político vigente na época.

A energia revolucionária que desabrochou há quatro décadas no Brasil e no mundo divide opiniões. Ex-guerrilheiro de esquerda durante a ditadura militar e atual deputado federal pelo Partido Verde, Fernando Gabeira, tem uma visão nada vanguardista em relação ao ano de 68 no Brasil. Gabeira disse a Revista Época que se arrepende de muita coisa, principalmente do seqüestro do embaixador americano pelo MR8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro). “A busca pela implantação do socialismo, a luta armada o seqüestro do embaixador americano foram grandes equívocos”, salienta o deputado. “Eu gostaria de sepultar esse período”, completa. Hoje com 66 anos Gabeira tem uma visão pragmática da política. Segundo ele a luta armada não só fortaleceu a ditadura, como deu de bandeja um pretexto para que o Presidente Arthur Costa e Silva promulgasse o Ato Institucional número cinco em dezembro de 1968.

Por outro lado há aqueles como o ex-líder do movimento estudantil José Dirceu que acreditam que o mundo seria muito pior hoje se o 68 não tivesse acontecido. Dirceu diz que os principais protestos civis da História recente do país só ocorreram porque o caminho foi traçado pelos rebeldes da sua geração. “Seriam exemplos dessa herança contestatória a campanha das Diretas Já e os Caras-pintadas que foram às ruas pedir o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello”, afirma Dirceu.
O ano em que a ditadura mostrou sua face mais sombria não foi contestado apenas com a luta armada por parte da esquerda. Os primeiros passos de muitos dos atuais representantes da política nac A repulsa à ditadura.ional foram dados nos palanques de sindicatos, nas salas de aula das Universidades e em sítios clandestinos no interior de São Paulo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um exemplo. Em 1968 ele se filia ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Com o passar dos anos, a sua atuação como sindicalista o tornaria uma figura nacionalmente conhecida. Outro exemplo foi em Ibiúna, interior de São Paulo, onde ocorreu o 30° Congresso da União Nacional dos Estudantes. Na época José Dirceu foi preso e incluído na lista dos que foram trocados pelo embaixador americano Charles Burke Ellbrick. Sociólogo de influência marxista e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, acabou impedido de lecionar no curso de Ciência Política na USP,  foi aposentado e exilado pelo AI-5.

Uma análise mais atual da conjuntura política do Brasil de 1968, feita pelo historiador Carlos Fico mostra que os dois setores, tanto esquerda quanto os militares tinham projetos autônomos de constituição das suas ideologias. Segundo Fico, o AI-5 é a vitória da linha dura que acreditava que uma operação radical de limpeza, eliminando os subversivos e o que entendiam por corrupção, transformaria o Brasil em uma grande potência. Já a esquerda, de acordo com Fico, queria optar pela luta armada e pela tomada do poder para a instalação de um regime socialista, mesmo antes do golpe. “Esses dois projetos não tinham perspectivas democráticas”, conclui o historiador.


Cultura e Comportamento


Mundo
Os protestos e manifestações marcaram o cenário político de 1968 em muitos países. A juventude tornou-se mais integrada e começou a intervir na forma de pensar e agir de toda uma geração. O “espírito libertário” traduzido por numa cultura underground não só criticou os governantes e a política adotada por eles, mas também o tradicionalismo dos valores familiares que ditavam as regras e normas.
Contagiado pela onda de contestação, o movimento feminista nos anos 60 foi às ruas não só para queimar sutiãs como forma de protesto contra a condição subalterna em relação aos homens. Mas principalmente para defender que a hierarquia de sexo não era uma fatalidade biológica, e sim uma construção social. O feminismo foi um dos primeiros movimentos a tocar na raiz cultural da desigualdade.

A atitude da mulher do final dos anos 60 refletiu diretamente no seu guarda-roupa. A mudança mais emblemática desse período foi a criação do smoking para mulheres do estilista francês Yves Saint Laurent (1936-2008). O “le smoking” foi uma provocação sexual dirigida à mulher que queria independência.
A expansão deA liberdade comportamental dos jovens hippies consciência pelas drogas, a luta pela paz, a liberdade sexual, o amor livre e a valorização da natureza. Esses foram apenas alguns dos itens defendidos pelo movimento mais expressivo da contracultura, que revolucionou a maneira de pensar e agir dos jovens de todo o mundo. Com trajes que chocavam os americanos médios da época, barbas e cabelos compridos, diversos jovens de diferentes níveis sociais rejeitavam a sociedade de consumo norte-americana e passavam a viver em comunidades rurais ou em bairros separados onde todos os “ditames” capitalistas eram deixados de lado. Os hippies não se caracterizaram por uma postura política engajada, eram contra "o sistema" e o "poder", pregavam o pacifismo e criticavam a intervenção militar, principalmente a Guerra do Vietnã, porém não mostravam grande interesse em alterar os rumos políticos dos EUA.
A explosão do movimento hippie abriu portas para a entrada de novos conceitos que redefiniram estéticas e padrões. A globalização começou a mostrar que a passos largos deixaria as “comunidades igualitárias” dos hippies para ganhar o mundo, e por “ilusão do destino”, se tornar um dos maiores símbolos do capitalismo contemporâneo. Um exemplo da ruptura de padrões foi a filosofia oriental que passou a ser mais valorizada pelo Ocidente. Religiões consideradas esotéricas como o budismo e o hinduismo foram fundamentais para a “desconstrução” da moral do americano médio. 

Os hippies exaltavam o uso de determinadas drogas como o LSD, a maconha e o haxixe. Eles acreditavam que a maconha possuía um caráter espiritual, principalmente por ser proveniente da natureza. Já o LSD, era mais conhecido por ser uma droga recreativa, usada para expandir a consciência. Segundo Timothy Leary (1920-1996), pioneiro e defensor do uso do ácido psicodélico e muito admirado pelos hippies, a experiência psicodélica era uma viagem ao novo domínio da consciência. Para Leary, o alcance e conteúdo da experiência são ilimitados, mas as suas características são a transcendência de dimensões do espaço-tempo, e do ego ou de identidade. Celebridades como John Lennon foram influenciadas pelas obras literárias de Timothy. Lennon escreveu “Amanhã nunca se sabe” que foi lançado no álbum dos Beatles Revolver baseado em O psicodélico: A experiência, de Leary.

Curioso também foi o que Abbie Hoffman, conhecido como o maior símbolo da contracultura nos EUA, fez junto com outros hippies no Dia dos Namorados de 67. Hoffman enviou pelo correio três mil baseados de maconha para moradores de New York, escolhidos aleatoriamente pela lista telefônica. Junto à marijuana havia uma carta que dizia: “Você já leu muito sobre isso, agora se quiser experimentar, aqui está. Mas, ps: apenas por segurar isso você pode pegar cinco anos de prisão”.
Toda essa inquietação e ousadia se transformaram em epidemia que varreu o universo aJimi Hendrix e seus memoráveis showsrtístico sem limites. Cinema, música e teatro tornaram-se os primeiros meios a compreender a nova forma de expressão dos calorosos jovens de 68. Na música, Jimi Hendrix levou os seus ouvintes a um passeio pelo mundo das percepções expandidas, suas performances agressivas com sexualidade explícita aliada a sua maneira única de tocar guitarra, chocou até quem já estava familiarizado com as “loucuras” da juventude.

Em entrevista ao jornal O Globo, Ezequiel Neves, crítico de música em 68 e mais tarde produtor do Barão Vermelho e Cazuza falou da sua “experiência” com Hendrix. “A sensação era a mesma de que ficar em frente a um animal selvagem. Eu achava que estava preparado, sabia de todas as histórias, que botava fogo na guitarra, mas, ali, solto no palco, era amedrontador. Foi como um estupro, provocava um curto-circuito na gente, com sua carga explosiva de musicalidade e sexualidade”, disse Neves. Hendrix causou polêmica até na sua morte. O cantor foi encontrado morto asfixiado em seu próprio vômito.

A predileção dos jovens de 68 pela irreverência não está só na “animalidade” de Hendrix, na voz melancólica de Janes Joplin ou na mistura de gêneros do Led Zeppilin. O escandaloso musical Hair estreou no teatro da Broadway em 1968. Com cenas de nudez, apologia às drogas e estética hippie, o musical tornou-se símbolo e influência para toda uma geração, que não se restringia somente aos Estados Unidos. As montagens da peça foram feitas também no Brasil, na Alemanha, Israel, França e Japão.
O palco e as telas foram os primeiros a entender e refletir o anseio dos jovens que estavam por trás de  O cineasta francês Jean Luc Godard.slogans como: “Sejam realistas. Peçam o impossível”. Se de um lado Jimi Hendrix fazia o inimaginável nos palcos, do outro Godard desconstruia o cinema clássico narrativo com montagens descontínuas e dilemas do século XX. Os jovens franceses se identificavam muito com o cinema chamado de Nouvelle Vague, os principais representantes desse movimento eram Jean-Luc Godard, François Truffaut, (1932-1984) e Claude Chabrol. Esta nova forma de fazer cinema surge na França e se caracteriza por uma rejeição ao cinema comercial e a toda sua estrutura. Os cineastas, assim como Hendrix, provocavam o público através do experimentalismo que questionava o limite existente entre a tela e o espectador.
Não só de experimentalismo foi a Nouvelle Vague. A política foi o alvo de cineastas como Godard que após o movimento estudantil de maio de 68 criou o grupo Dziga Vertov (nome do cineasta russo criador do cine-olho e precursor do chamado cinema verdade). No grupo de Gordad participou o ex-líder estudantil francês Cohn-Bendit que chegou a colaborar com um roteiro. Filmes como Pravda (1969) abordavam a invasão soviética na Tchecoslováquia, outros como Week-end à Francesa (1967) acabou com a moral da sociedade consumista. Godard é considerado um dos principais personagens do cinema em 68, segundo o jornalista Zuenir Ventura, o filme A Chinesa (1967) foi uma revolução na linguagem cinematográfica que prenunciou o maio de 68.
Brasil


Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e Chico Buarque na música, Hélio Oiticica e Lygia Clark nas artes plásticas, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla no cinema, Ferreira Gullar na poesia, Augusto Boal e José Celso Martinez Corrêa no teatro. Esses foram apenas alguns dos nomes presentes até hoje na cultura brasileira que deram “o rosto” ao movimento da contracultura no país. Repletos de criatividade, esses vanguardistas driblaram e enfrentaram a censura para cantar, representar e escrever. O ano de 68 foi “emblemático”, passou para o Brasil como o período de maior e melhor produção de conteúdo artístico, ao mesmo tempo que é lembrado pelo lado mais obscuro da política nacional.

Considerado o gesto inaugural da contracultura no Brasil, a Tropicália teve o seu lançÁlbum Tropicália ou  panis et circenseamento com o disco-manifesto “Tropicália ou panis et circense” em 1968, participaram do movimento Gil, Nara Leão, Caetano, Os Mutantes e Tom Zé. A mistura do clássico com o baião, do progresso com o atraso e a polêmica causada pelo movimento começou em 1967 durante o III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. As apresentações de Domingo no parque (Gilberto Gil) e Alegria, Alegria (Caetano Veloso), não agradaram nem um pouco a “linha dura” do movimento estudantil que considerou a guitarra elétrica e o rock símbolos do imperialismo norte-americano.
O confronto entre tropicalistas e estudantes foi pior durante uma apresentação no III Festival Internacional da Canção, no teatro da Universidade Católica de São Paulo. No palco com os Mutantes, Caetano cantava a canção É Proibido Proibir, quando foi agredido com ovos e tomates por estudantes radicalistas que estavam na platéia. O compositor reagiu, e desafiou os jovens: “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?”.

A influência do movimento também ficou evidente em dezenas de canções concorrentes no IV Festival de Música Popular Brasileira , que a TV Record começou a exibir em novembro. As canções de Tom Zé como São São Paulo, O Parque Industrial e 2001 além de terem ótimas colocações nos festivais, compunham o retrato alegórico de um país ao mesmo tempo moderno e retrógrado
O movimento antropofágico de Oswald de Andrade, o concretismo e o pop art influenciaram a criação da Topicália. A idéia do Antropofagismo de “digerir” a cultura exportada dos Estados Unidos e Europa e reinventá-la aos moldes nacional foi o fundamento do movimento. Os tropicalistas acreditavam que a experiência estética por si só já era um instrumento social revolucionário. Membro do movimento, Torquato Neto resumiu a importância da estética para os vanguardistas, “ou você mexe com a forma ou não mexe com nada”, disse o músico.

O jornalista Luiz Carlos Maciel, um dos fundadores do jornal O Pasquim, tem dúvidas quanto à relação direta entre tropicalismo e contracultura. “Embora não se possa fazer a relação tropicalismo contracultura, a Tropicália usou uma liberdade que era sugerida, nas roupas, nas atitudes, no palco e no próprio espírito que animou muitas músicas”, afirmou Maciel. É inquestionável a revolução de padrões que o tropicalismo causou na sociedade brasileira. Em entrevista a Marcelo Tas no site UOL, o jornalista e autor do livro Tropicália – A História de uma Revolução Musical , Carlos Calado disse que o movimento foi uma idéia de se captar um pouco de tudo o que acontecia no mundo em 68. “Na verdade foi um espírito de uma determinada época”, ponderou Calado.
A música não foi o único universo por onde a Tropicália “fincou” raízes. O tropicalismo influenciou e foi influenciado também pelo cinema, pelas artes plásticas e pelo teatro. O filme Terra em Transe, por exemplo, de Glauber Rocha e a peça O Rei da Vela de José Celso Martinez Corrêa, tocou Caetano Veloso que acreditou existir nessas montagens algo de “vivo” que merecia ser explorado na música.

Ao poucos Glauber, Oiticica e Martinez Corrêa aderiram a corrente tropicalista, e peças como Roda Viva de Chico Buarque viraram escândalo de montagem e bilheteria. A atriz Marilia Pêra era uma das estrelas da peça e em depoimento a Revista Época contou sobre a sua participação e a repressão pelo Comando de Caça aos Comunistas que os atores sofreram por encenar o espetáculo. “Eu não era nem de esquerda e nem de direita e mesmo assim entraram 50 homens na minha casa para me prender”, contou Marilia, que foi presa duas vezes e chegou a ser obrigada a passar nua por um corredor polonês durante uma das incursões dos militares ao Teatro Ruth Escobar.

O filme marco do cinema marginal.Em 68 Glauber Rocha já era o maior cineasta brasileiro, no entanto o longa-metragem mais emblemático da contracultura pertence a Rogério Sganzerla. O filme O bandido da luz vermelha (1968), ousou ir além da estética proposta pelo Cinema Novo e lançou um novo estilo, o Cinema Marginal. Sganzerla, na época com apenas 22 anos, queria fazer um filme que fosse ao mesmo tempo revolucionário e de grande êxito comercial. “Existe um humor cáustico e oswaldiano forte em sua obra”, disse Helena Ignez que participou do elenco e mais tarde tornou-se mulher de Rogério. Apesar de diferenças estéticas Glauber e Sganzerla tinham aproximações.
A grande mídia ao fazer uma retrospectiva do cinema brasileiro de 68 enfatizou apenas o Cinema Novo e Marginal e se esqueceu de realizações simbólicas como: Como vai, vai bem? (1968), do grupo Câmara. Por ir na contra-mão do cinema novo ao não exaltar o lado trágico da pobreza, mas sim mostrar o lado cômico dos típicos personagens populares como o calouro do Chacrinha, o travesti e o fanático torcedor do Flamengo, tais realizações não foram lembradas pelos Segundo Caderno, Caderno B e Ilustrada, mas a importância desses filmes, não deixa de ser celebrada em circuitos alternativos como o cine clube sala escura da Universidade Federal Fluminense, que exibiu o filme em comemoração aos 40 anos de maio de 68.

O Grupo Câmara era formado por jovens da esquerda de diferentes tendências que queriam mostrar o universo dos pobres. O diretor de Como vai, vai bem? E um dos fundadores do grupo, Alberto Salvá, disse que o filme foi boicotado pelo cinema novo. Por ter um “tom” de comédia, muitos consideraram o filme sem um conteúdo crítico. Membro do antigo Grupo Câmara, Daniel Chutorlanscy salienta: “No meio de uma ditadura fazer um filme com este nome e a censura não barrar, por si só já foi uma critica”. O Professor do curso de Cinema da Universidade Federal Fluminense, José Carlos Monteiro, ressaltou a importância de Como vai, vai bem? Para revelar o cinema carioca e consolidar o universo alternativo em relação o cinema novo.
A genialidade de Chico Buarque de Hollanda que se destacou de inicio como autor de

Chico Buarque de Holanda e o  MPB4. Roda Viva em 68, começa a dar os primeiros passos rumo à música. Durante os Anos de Chumbo, Chico destaca-se pelo tom político que empresta a sua obra. Músicas como Apesar de você e Cálice (parceria com Gilberto Gil) afrontaram a Ditadura militar e o presidente Médici. Para driblar a censura que endureceu a tal ponto de vetar qualquer publicação que tivesse o nome Chico Buarque, o compositor passou a assinar as músicas com o pseudônimo de Julinho da Adelaide, composições como Jorge maravilha e Acorda Amor nos anos 70 passaram pelos censores sem restrições, só anos depois foi descoberto o verdadeiro autor.
O ano de 1968 é paradigmático por acontecimentos inéditos que mudaram o curso da História Contemporânea, por demonstrar a conexão dos fenômenos sociais de um mundo que já se encontrava globalizado. Mas principalmente por confirmar que os campos da política e da cultura, ainda que relativamente autônomos, são interdependentes entre si.

A releitura do passado mostra também que as mobilizações não eram “da juventude” como um todo, mas sim de grupos de jovens e vanguardas artísticas, culturais e políticas. É por isso que deve-se desconfiar das análises anacrônicas que mitificam a “juventude de 68” – uma minoria significativa e mobilizada – comparando-a com  a "juventude de hoje" (todos os jovens?) que seria mais apática, consumista e alienada.
Um artigo sobre um ano tão contraditório e efervescente que legitimou todo o ideal dos chamados jovens rebeldes, não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo; jovens  que foram às ruas contra os governos, pegaram em armas contra a ditadura, defenderam os direitos de minorias e o meio ambiente; praticaram sexo livre, usaram drogas; abusaram da irreverência e desmascaram a hipocrisia da sociedade conservadora, merece ser concluído com duas provocações que podem ajudar a traduzir o espírito libertário daquela época. Assim, pergunta-se: o quê fere mais o autoritarismo: a pedra que arrebenta as vidraças? Ou a poesia que arrebata multidões?

O legado de Che. A burguesia queria matar o Che. Levou seu corpo, mas imortalizou seu exemplo. Che vive! Viva o Che!

João Pedro Stedile
Integrante da coordenação nacional do MST e da Via Campesina.

“Outra vez sob meus calcanhares o lombo de Rocinante,
retomo o caminho com meu escudo no braço (…)
Muitos dirão que sou aventureiro, eu sou de fato, só que
de um tipo diferente, daqueles que entregam a pele
para demonstrar suas verdades”.

El-Che

Che Guevara [Trecho da carta endereçada aos seus pais,
antes de partir para sua última trincheira na Bolívia]

Em 8 de outubro cumpre-se o aniversário do assassinato de Che Guevara pelo exército boliviano. Após sua prisão, em 8 de outubro de 1967, foi executado friamente, por ordens da CIA. Seria ”muito perigoso” mantê-lo vivo, pois poderia gerar ainda mais revoltas populares em todo o continente.

Decididamente, a contribuição de Che, por suas idéias e exemplo, não se resume a teses de estratégias militares ou de tomada de poder político. Nem devemos vê-lo como um super-homem que defendia todos os injustiçados e tampouco exorcizá-lo, reduzindo-o a um mito.

Analisando sua obra falada, escrita e vivida, podemos identificar em toda a trajetória um profundo humanismo. O ser humano era o centro de todas as suas preocupações. Isso pode-se ver no jovem Che, retratado de forma brilhante por Walter Salles no filme Diários de Motocicleta, até seus últimos dias nas montanhas da Bolívia, com o cuidado que tinha com seus companheiros de guerrilha.

A indignação contra qualquer injustiça social, em qualquer parte do mundo, escreveu ele a uma parente distante, seria o que mais o motivava a lutar. O espírito de sacrifício, não medindo esforços em quaisquer circunstâncias, não se resumiu às ações militares, mas também e sobretudo no exemplo prático. Mesmo como ministro de Estado, dirigente da Revolução Cubana, fazia trabalho solidário na construção de moradias populares, no corte da cana, como um cidadão comum.

Che praticou como ninguém a máxima de ser o primeiro no trabalho e o último no lazer. Defendia com suas teses e prática o princípio de que os problemas do povo somente se resolveriam se todo o povo se envolvesse, com trabalho e dedicação. Ou seja, uma revolução social se caracterizava fundamentalmente pelo fato de o povo assumir seu próprio destino, participar de todas as decisões políticas da sociedade.

Sempre defendeu a integração completa dos dirigentes com a população. Evitando populismos demagógicos. E assim mesclava a força das massas organizadas com o papel dos dirigentes, dos militantes, praticando aquilo que Gramsci já havia discorrido como a função do intelectual orgânico coletivo.

Teve uma vida simples e despojada. Nunca se apegou a bens materiais. Denunciava o fetiche do consumismo, defendia com ardor a necessidade de elevar permanentemente o nível de conhecimento e de cultura de todo o povo. Por isso, Cuba foi o primeiro país a eliminar o analfabetismo e, na América Latina, a alcançar o maior índice de ensino superior. O conhecimento e a cultura eram para ele os principais valores e bens a serem cultivados. Daí também, dentro do processo revolucionário cubano, era quem mais ajudava a organizar a formação de militantes e quadros. Uma formação não apenas baseada em cursinhos de teoria clássica, mas mesclando sempre a teoria com a necessária prática cotidiana.

Acreditar no Che, reverenciar o Che hoje é acima de tudo cultivar esses valores da prática revolucionária que ele nos deixou como legado.

A burguesia queria matar o Che. Levou seu corpo, mas imortalizou seu exemplo. Che vive! Viva o Che!

EUA desligam painel eletrônico que irritava governo cubano em Havana

O governo dos Estados Unidos confirmou, nesta segunda-feira, que desligou um painel eletrônico gigante que transmitia notícias e mensagens na sede da missão diplomática do país em Havana. O painel foi construído no 5º andar do prédio da missão americana durante o governo de George W.

Bush e era usado para transmitir notícias e mensagens políticas ao povo cubano.

Segundo o correspondente da BBC em Miami Charles Scanlon, o líder cubano Fidel Castro, ficou furioso quando o painel eletrônico foi instalado no centro de Havana, há três anos.

Painel dos EUA em solo cubano

Painel dos EUA em solo cubano

As mensagens eletrônicas eram transmitidas em letras de 1,5 metros de altura e algumas delas traziam declarações políticas que, segundo Scanlon, eram divulgadas para promover a insatisfação com o governo comunista.

Irritado, Castro ordenou a construção de barreiras para esconder as mensagens, entre elas uma fila de bandeiras gigantes do país.

Por conta dessas barreiras, quase ninguém parece ter percebido quando o painel foi discretamente desligado no último mês.

De acordo com Scanlon, o governo de Obama confirmou que o painel eletrônico não está mais sendo usado em meio aos sinais de que as tensões entre os dois países parecem estar ficando mais amenas depois da hostilidade que prevaleceu durante o governo de Bush.

Fortalecer a UNE, a juventude e o povo. Manivesto da JPT ao 51º Congresso da UNE

A HORA É AGORA!

logo jpt

O 51º Congresso da UNE tem a tarefa de preparar a UNE e o movimento estudantil (ME) para a luta por uma universidade popular e democrática, o enfretamento à crise mundial do capitalismo e a disputa política e ideológica das eleições 2010.

Vivemos um momento decisivo para impedir qualquer possibilidade de retorno desastroso dos Demo-Tucanos, representantes dos setores conservadores e monopolistas responsáveis pelo sucateamento da universidade pública brasileira e por abrir as portas para exploração da educação no mercado. É preciso lutar por um terceiro mandato para o PT e o campo democrático popular buscando aprofundar as transformações em curso rumo à superação do neoliberalismo e do capitalismo para construir uma sociedade socialista.
Se há dez anos atrás, durante o Governo FHC, fazíamos um movimento de resistência, hoje o Governo Lula proporciona um cenário de possibilidades à Universidade Brasileira. Nos quatro primeiros anos do Governo Lula, a população universitária brasileira saltou de 3,5 para 4,5 milhões, um aumento de 28%. O ProUni, o Reuni, as cotas raciais e para estudantes oriundos de escolas públicas, o PDE, o plano nacional de assistência estudantil e a Conferencia Nacional de Educação, mostram uma nova perspectiva de acesso a educação.
Portanto, além da expansão, interiorização e aumento dos recursos para as universidades federais, é preciso reforçar a contenção do avanço do setor privado, que precisa ser fortemente regulado pelo Estado, fortalecendo as iniciativas que, no Congresso Nacional e no Conselho Nacional de Educação, seguem neste sentido.
Apesar de importantes avanços no ensino superior podemos dizer que muito ainda precisa ser transformado. Precisamos entender a educação de forma sistêmica. Por isso a Conferência Nacional de Educação será um espaço importante para pautarmos a necessidade de um sistema nacional de educação articulado e voltado aos interesses populares.
Neste sentido, ainda que existam mudanças que podem alterar o perfil e as oportunidades de formação de jovens, precisamos enfrentar a hegemonia do setor privado e da concepção mercantil de educação, voltada à formação de mão de obra e à produção de conhecimento orientada às demandas de mercado.
Em um cenário em que o neoliberalismo é duramente questionado e encontra-se enfraquecido, é fundamental concentrar esforços para desfazer o movimento que protagonizou ao longo da década de 1990 no Brasil. Ou seja, o atual período exige transferir os setores que passaram a ser alvo da exploração visando a acumulação de capital para espaços públicos que não obedeçam à lógica do mercado, sob a orientação e gestão do Estado.
Para isso precisaremos de uma UNE e um movimento estudantil fortes e mobilizados. Porém, embora ainda seja o movimento juvenil mais organizado do país o ME está longe de ser a única expressão organizada da diversidade da juventude brasileira. Os anseios e aspirações dos próprios estudantes extrapolam cada vez mais o meio universitário e a pauta educacional.
Temas como emprego e trabalho ganham mais centralidade em um ambiente de altos índices de precarização e difícil entrada no mundo de trabalho. A parcela da população jovem que trabalha ao mesmo tempo em que estuda seria muito superior aos atuais 17,7% dos jovens com 15 a 24, não fosse o alto índice de evasão escolar devido à necessidade dos jovens de trabalhar para contribuir com a renda familiar.
Ademais, a tese equivocada de que o alto índice de desemprego entre os jovens é decorrente da falta de qualificação e não da baixa oferta de postos de trabalho formal tem como conseqüência o aumento da corrida por diplomas e a procura dos bancos acadêmicos em busca de profissionalização – expectativa que geralmente é frustrada, uma vez que a graduação não é sinônimo lugar cativo no mercado de trabalho, muito menos de estabilidade financeira, realização profissional ou ascensão social.
Somado à centralidade do trabalho no imaginário e na realidade dos jovens estudantes, é preciso notar que a composição da base social do movimento estudantil tem sofrido alterações. Fatores como (a) a reserva de vagas para estudantes negros, oriundos das escolas públicas e de baixa renda, (b) o Programa Universidade para Todos (ProUni), (c) a expansão dos setores público e privado em municípios e regiões distantes dos centros urbanos, (d) o surgimento de nichos de mercado educacional voltados à população de baixa renda e (f) o aumento da oferta de cursos noturnos transformaram a cara do estudante universitário, tornando-o mais popular e menos elitista e, portanto, mais impactado por fatores objetivos do lado de fora dos muros universitários.
Contribuindo para que UNE cumpra seu papel histórico de acordo com a realidade atual da juventude brasileira e para o aprofundamento das mudanças que acontecem em nosso país, o Partido dos Trabalhadores acredita ser necessário um salto organizativo e mudanças profundas no conjunto movimento estudantil e na UNE, em especial, tornando-a uma entidade cada vez mais democrática, transparente, combativa e de lutas.
O PT no movimento estudantil se orienta pela construção de uma universidade popular e democrática, pela defesa da UNE como entidade máxima de representação dos estudantes, motivo pelo qual reprovamos o divisionismo e defendemos sua revitalização, pela democratização e aproximação da UNE das salas de aulas, pelo fortalecimento das entidades e da rede do movimento estudantil, pela articulação dos movimentos sociais com as entidades e organizações estudantis, pelo aprofundamento das transformações em curso e pelo combate à crise internacional apresentando uma alternativa de esquerda visando superar o neoliberalismo e o capitalismo.
Sabemos que se aproxima um momento decisivo para os rumos do país que exige forte pressão pelas reivindicações históricas e atuais da classe trabalhadora e do povo brasileiro. Cumprir com esta tarefa exige atuação coesa do campo democrático e popular, o fortalecimento e a combatividade dos movimentos sociais e o enraizamento do petismo em amplas parcelas da população, sobretudo entre os jovens.
Portanto, o PT e sua juventude irão incidir com intensidade na pauta política que orientará a ação dos estudantes no próximo período, visando sair deste fórum mais fortalecidos e coesos do que nunca. Convocamos os estudantes petistas, delegados e observadores ao 51º CONUNE, a construírem uma intervenção qualificada e com unidade programática, fortalecendo a UNE, o movimento estudantil e o Partido dos Trabalhadores!