PARTE 3. JUVENTUDE E A NOÇÃO DE PROTAGONISMO NAS POLÍTICAS PÚBLICAS BRASILEIRAS

Considerações finais

Observando a realidade de jovens habitantes das periferias urbanas, envolvidos em situações de exclusão, constata – se a dificuldade destes sentirem-se ou reconhecerem-se como protagonistas, como sujeitos capazes de intervir em seu mundo. Cidadania – e seus termos correlatos – no mais das vezes, é entendida como algo abstrato, inalcançável.

Esta é uma questão que remete às condições de vida da juventude inserida em classes populares especialmente quando pensamos em termos de auto-estima. No entanto, parece que segmentos desta juventude conseguem a exercer o propagado protagonismo quando passam a participar de grupos de diferentes naturezas: organizações de caráter cultural, artístico, partidário, religioso, esportivo, etc. Têm – se assim, que, esta noção de protagonismo pode implicar níveis diferenciados de participação, dando-se a partir de um grupo local, por exemplo, até a participação efetiva na esfera das políticas públicas, via Conselhos representativos.

Nesse sentido, cabe destacar que na cena política brasileira recente, observa-se a implantação de políticas que seguem modelos mais próximos do que se entende por democracia, isto é, aquelas nas quais está “prevista e facilitada à participação mais ampla possível dos interessados”, Bobbio (1986). Cito como exemplo a criação dos Conselhos de Juventude em nível nacional, estadual e municipal, datados a partir de 2000, que constitui um campo interessante de análise quando se propõe compreender estas novas formas de negociação entre Estado e sociedade civil.

Estas são, portanto, algumas questões que permitem pensar o universo social da juventude no Brasil. Um segmento que vivencia, cotidianamente, desafios de escolarização, de inserção no mercado de trabalho, do agravamento de violências. Neste sentido, políticas públicas são formuladas, propugnando novas representações sociais e possibilidades de inserção deste segmento. As observações colocadas neste trabalho, representam esboços de análise sobre consensos acerca de determinadas expressões, como é o caso do mencionado protagonismo juvenil.

Referências bibliográficas:

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Entrevista com Rosana Souza, secretária nacional de Juventude da CUT

“Nosso objetivo é envolver a juventude trabalhadora no projeto sindical da CUT”, afirma

A primeira secretária da recém criada Secretaria Nacional da Juventude, Rosana Souza, do ramo químico de São Paulo, de 32 anos, falou em entrevista ao Portal Mundo do Trabalho sobre o desafio de representar a juventude da CUT e de sua atuação ao longo

do mandato.

 

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Como é ser a primeira secretária nacional de Juventude da CUT?

Eu tenho orgulho de estar à frente desta Secretaria e reconheço o tamanho da responsabilidade para que possamos colocar a juventude como um dos agentes principais na construção da sociedade. Esta luta vem de longa data, desde a fundação do Coletivo Nacional da Juventude Trabalhadora da CUT, em 1997. Portanto, já existe um trabalho voltado à juventude, que hoje conta com 18 coletivos estaduais. E agora conseguimos institucionalizar a discussão no interior da CUT.

O que você detectaria, em um primeiro momento, como a principal demanda?

Acho que a questão do trabalho decente é a principal. A cada dia os jovens estão ingressando mais cedo no mercado,  abandonando o processo educacional e sem acesso a qualificação profissional. A maioria, que vem de famílias mais pobres, é obrigada a aceitar postos de trabalho precários, ao contrário dos filhos das classes mais altas, que podem disputar os melhores empregos ou entrar mais tarde no mercado de trabalho. Além disso, essa realidade traz consigo o adoecimento provocado pelo trabalho. Visualizando este cenário, precisamos ter bastante atenção sobre a inserção do jovem no mundo do trabalho com o propósito de reduzir os impactos sobre a sua saúde e seu acesso à educação.

Já existe a definição da estratégia política?

Ainda não. Ela será construída coletivamente, após a posse da direção, que ocorrerá no dia 28 de agosto. A idéia é fazer um seminário com a participação de todos os secretários e secretárias estaduais eleitos nos CECUTs  e com os representantes dos ramos que têm algum trabalho de juventude já organizado.  A partir deste momento é que vamos traçar um planejamento e começar a construir a política nacionalmente, com bastante participação.

Como será atuação da Secretaria?

Ela atuará com os coletivos estaduais da mesma forma que ocorre com os demais coletivos da CUT, que já têm suas secretarias. O Coletivo Nacional da Juventude precisa contemplar todos os ramos e estaduais da CUT. Então nenhum segmento ficará de fora da elaboração da estratégia da CUT sobre as políticas que desenvolveremos sobre a juventude trabalhadora.

O que você, enquanto secretária, espera da estrutura CUT?

Espero o apoio da Executiva da Nacional e dos sindicatos que representam os mais diversos setores. Assim como, diálogo com as demais secretarias porque o tema juventude não pode ser uma discussão isolada. A aproximação com as secretarias de Formação, Mulheres, Saúde do Trabalhador e de Combate ao Racismo é fundamental para a construção de políticas que atendam as demandas da juventude. Sem isso, não conseguiremos colocar em prática as propostas elaboradas pelo Coletivo.

Na sua avaliação qual o principal problema dos jovens no mercado de trabalho?

A ocupação de postos precários e a informalidade, ao lado da falta de representação nos sindicatos, o que torna difícil a interlocução. Por isso, iremos trabalhar em conjunto com os movimentos sociais. A UNE (União Nacional dos Estudantes), por exemplo, será uma grande aliada neste processo, assim como a juventude rural. Chegar aos trabalhadores informais é um grande desafio. Dialogamos com a juventude sindicalista, com juventude trabalhadora que são representadas pelos sindicatos da CUT, mas temos dificuldade com a juventude estudantil, rural e do mercado informal.

E a questão das políticas públicas?

Na nossa avaliação, o Estado precisa ter um papel maior na execução de políticas públicas voltadas para a juventude. Precisamos ter mecanismos de participação popular para que a juventude tenha espaços para opinar e decidir sobre as políticas públicas que queremos, como aquelas voltadas para educação, cultura, esporte e lazer.