A criação do inimigo: o caso Taleban

por
Francisco Villela

Bin Laden e Teleban. Invenções americanas

Bin Laden e Teleban. Invenções americanas

O texto II da série “EUA: Rumo ao Estado Fascista” leva o nome “A invenção do inimigo e o terror”, uma referência às políticas e projetos dos neocons de hegemonia mundial pelos EUA e a conseqüente necessidade de precisar contar com inimigos a combater que justificassem o acionamento das suas poderosas forças armadas. O regime Cheney-Bush inventou o conceito de “Guerra ao Terror”, que apresenta a vantagem de ser vago e indefinido, o que permite então muito mais ações contra um inimigo insidioso e oculto. A criação do aparato fascista do Departamento de Segurança Interna (Homeland Security) apóia-se nesse conceito para exercer controle e repressão sobre a população e seus ativistas e pacifistas.

O caso do Iraque é conhecido e comentado: apoiado em mentiras (armas de destruição em massa, aliança Saddam – Bin Laden etc.), o império invadiu e destruiu um país fraco que nunca representou ameaça à segurança dos EUA. Após (números atualizados) cerca de 2 milhões 300 mil mortes por violência ou em conseqüência da invasão, mais de 2 milhões de refugiados no exterior e mais de 4 milhões de deslocados internos, o resultado é aterrorizante: a indústria iraquiana desapareceu, o país não dispõe de suficientes energia e água potável e tem o ambiente contaminado por tóxicos e materiais radiativos, e sua única fonte sólida de riquezas, a extração e exportação de petróleo, caiu nas garras de grandes corporações euamericanas. Antes disso, o Iraque era o país mais progressista da região, e as mulheres, por exemplo, que compunham boa parte da população universitária, viviam em liberdade e sem bloqueios, como em qualquer país ocidental.

A par de torrar recursos dos quais não dispõe, e viver em razão disso à mercê de empréstimos e poupanças internacionais (essa situação desabou com a crise, e promete novos capítulos piores para o país), o regime Cheney-Bush conseguiu um feito memorável que merece registro na história das grandes estratégias que não deram certo: o Irã, principal inimigo dos EUA na região, sai fortalecido, com ligações profundas com o atual governo e as principais forças que se digladiam no país, empurradas por ações terroristas sob responsabilidade de organizações secretas euamericanas e britânicas como a Força Delta. Saddam, sunita, promoveu uma guerra contra o Irã, financiada e armada por EUA e Reino Unido, entre 1980 e 1988, com saldo de 1 milhão de mortos. O regime Cheney-Bush depôs e enforcou Saddam, após entregar o governo à maioria xiita. O supremo aiatolá iraniano xiita Ali Khamenei e o presidente iraniano xiita Mahmoud Ahmadinejad agradecem comovidos.

Mas a maior façanha do regime Cheney-Bush-neocons, que BHObama promete ampliar, esconde-se no Paquistão. A história também é conhecida, e parte vem sendo contada nesta NovaE. Após milhares de anos, instalou-se no Afeganistão um governo socialista, pró-russo, que passou a empreender reformas em áreas estagnadas há séculos, como a posse das terras, a educação, a participação política das mulheres etc. Muitas das tribos se rebelaram contra o governo central, que, acuado, pediu proteção e auxílio em tropas à Russia. Alguns meses antes do pedido, o presidente Bill Clinton havia autorizado a CIA a financiar grupos de combatentes islâmicos para lutar contra o governo afegão. Com a chegada das tropas russas, representantes de um país formalmente ateu, os recursos em dinheiro e armas aumentaram.

A movimentação era patrocinada pelo Inter-Services Intelligence – ISI, serviço de inteligência paquistanês de um governo aliado dos EUA, que organizava o treinamento dos combatentes e administrava os recursos à sua maneira. O saudita Osama Bin Laden foi, consta que sem o saber, financiado dessa forma pela CIA e o MI6 britânico. O maior grupo de combatentes, o Taleban, foi organizado com tropas da etnia pashtun, cujos 30 milhões de membros distribuem-se entre o Afeganistão e o Paquistão. O ISI sempre foi simpático aos grupos islâmicos de combatentes, e até hoje encontra-se envolvido no treinamento, armamento e operação de vários desses grupos, dois dos quais enfrentam há anos as forças indianas na região conflagrada da Caxemira. Entre os grupos apoiados pelo ISI desponta o Taleban.

Aliado da China, inimigo da Índia e adversário da Rússia, o Paquistão recebeu bilhões de dólares durante décadas de governos euamericanos. O resultado da estratégia dos sábios conselheiros militares do finado regime Cheney-Bush pode ser visto na situação atual, verdadeira sinuca de bico para o governo BHObama. Os EUA injetam sistematicamente recursos financeiros num governo cujo serviço de inteligência organiza, arma e treina combatentes islâmicos que lutam contra as tropas dos EUA e da Otan, e freqüentemente abriga suas lideranças. A opção de BHObama é a extensão dos ataques ao território do nuclear Paquistão para além da região de fronteira, numa ampliação da frente da guerra ao norte e sua expansão para a região oeste do país.

Bin-Laden

Bin-Laden

Para tratar com o assunto, o Pentágono cunhou a expressão AfPak, numa demonstração de que a questão assumiu ares de severa gravidade; a partir de agora não há Afeganistão ou Paquistão, mas o problema Afeganistão-Paquistão, um só imbroglio. Nixon fez algo semelhante quando envolveu o Cambodja em bombardeios e estendeu as fronteiras da guerra do Vietnã. A aprovação da população paquistanesa aos EUA anda em seus menores patamares, e quase ninguém apóia os bombardeios ao seu território em nome da guerra ao terror. É provável que haja resistência feroz, e a corrida se dará em torno dos arsenais e instalações nucleares. O governo BHObama teme que algum grupo de combatentes islâmicos se aposse de armas nucleares. Afirma-se que o perigo é real. Mas o único país que já atirou bombas nucleares contra pessoas chama-se Estados Unidos da América. Temer a quem?

Em tempo: os EUA pagaram a combatentes sunitas, ex-insurgentes, reunidos na organização ‘Filhos do Iraque’, para se oporem à Al Qaeda. Agora, na perspectiva de retirada de algumas tropas, o governo xiita bancado pelos EUA, temeroso do poder adquirido pelos Filhos do Iraque, voltou-se contra o grupo paramilitar sunita. Alguns de seus líderes, ou foram para o exílio, ou acham-se escondidos, e há notícias de que um deles foi surrado até a morte na prisão. Os Filhos do Iraque sentem-se ‘traídos’ por seu governo e pelos EUA. E assim consolida-se mais um inimigo.

O analista político e militar e ex-analista da CIA Ray McGovern, em recente artigo em que comenta a decisão de BHObama de ampliar as ações no AfPak, “Bem-vindo ao Vietnã, Sr. Presidente!”, revela que BHObama em seu pronunciamento falou 11 vezes em treinamento das forças afegãs. Para McGovern, é uma questão de tempo saber para quais alvos as novas forças voltarão suas armas para pôr em prática seu treinamento: basta olhar para o Paquistão, Taleban, Al Qaeda…

Ray McGovern participou como analista de Estimativas de Inteligência Nacional (NIE) durante a Guerra do Vietnã, e lamenta que o governo BHObama prefira ouvir seus conselheiros ao invés de realizar NIEs, a exemplo das atuais decisões sobre AfPak em que nenhuma estimativa foi levada à frente e BHObama ouviu pessoas como o general David Petraeus, apologista da ampliação da guerra ao Paquistão e da invasão do Irã. O recente episódio de renúncia do ex-embaixador Charles ‘Chas’ Freeman à indicação à posição de chefe do Conselho de Inteligência Nacional, órgão que organiza as NIE, por pressão do lobby judeu, constituiu uma derrota para BHObama e seu assessor de Segurança Nacional, que o indicou . Freeman é conhecido pela sua coragem em externar suas opiniões a todos, sem exceção. A decisão da ampliação da guerra ao AfPak pode ser vista como uma derrota maior de BHObama frente aos seus conselheiros e homens de armas que desprezam análises contra suas decisões e agem conforme suas intuições e desejos.

A ampliação da guerra do Vietnã ao Cambodja, similar ao que pretende BHObama com relação ao Paquistão, é um exemplo de erro estratégico que terminou na derrota dos EUA. A alegação era a mesma que a dos atuais estrategistas: que o inimigo usava o território do Cambodja (Paquistão) como abrigo e para suprir suas forças no Vietnã (Afeganistão). Após iniciar os bombardeios em 1969, a administração Nixon depôs o governo do Cambodja em 1970 e instalou no cargo um general títere. O presidente deposto, príncipe Norodom Sihanouk, ordenou a seus seguidores que se unissem à guerrilha comunista do Khmer Rouge. Fortalecido, o Khmer Rouge cresceu e terminou por assumir o poder. Qualquer semelhança com as conseqüências da ampliação da guerra ao AfPack e a situação no Iraque não é nem será mera coincidência.

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Presidente Lula diz que seguirá na vida pública após 2010

lula

 

Quando terminar o segundo mandato como presidente da República, em 31 de dezembro de 2010, Luiz Inácio Lula da Silva quer continuar na vida pública. O desejo foi manifestado pelo presidente em entrevistas publicadas, no fim de semana, nos jornais La Nación (Argentina) e ABC (Espanha). Ao diário de Buenos Aires, Lula disse que "gostaria de trabalhar, e muito, no tema da integração latino-americana".

O outro foco de interesse para trabalho público futuro, acrescentou o presidente, seria a África, com seus problemas de atraso econômico e tecnológico. "Quero ver se posso ajudar de alguma maneira", disse. "Em 1º de janeiro de 2011, quero ir para casa e descansar. Depois, veremos. O que posso adiantar agora é que não tenho a intenção de me aposentar da vida pública", resumiu o presidente ao ABC.

Na longa entrevista ao La Nación, o presidente disse que "Dilma pode ser a futura presidente do Brasil". Mas emendou, em tom de recado aos petistas, que, para eleger a ministra-chefe da Casa Civil, é preciso "construir uma coalizão e saber se o PT quer que ela seja a candidata."

Lula chamou de "privilégio" ter uma disputa eleitoral à sucessão dele com dois candidatos como Serra e Dilma. E emendou: "Se os candidatos forem Dilma, Serra e Ciro Gomes também será um luxo. Igualmente, se Aécio Neves (concorrer)". O presidente festejou esse leque de candidatos e explicou o motivo: não são nomes de direita. "Vejo companheiros de esquerda, de centro esquerda, progressistas. Isso é um avanço extraordinário para o Brasil", afirmou.

Apesar dos inúmeros contenciosos comerciais com a Argentina, Lula minimizou o tempo todo a situação entre os dois países e disse que "a única divergência" é no futebol: "Se o Pelé é melhor ou não do que o Maradona".

O diário ABC quis saber se o Brasil, assim como a Espanha, aspira a integrar o G-8 (o grupo dos sete países mais ricos e a Rússia). O presidente respondeu apenas que a consolidação de fóruns "mostra que não é mais possível excluir os países em desenvolvimento das instâncias de decisões mundiais". E concluiu: "Os países ricos sabem que não se pode falar em governabilidade global sem a participação dos emergentes".