Revolução global juvenil – Gisley Azevêdo



Sempre que falamos de juventude e sua participação político-social recordamos da década de 60, onde, no mundo todo, a juventude expressou em protestos sua indignação com o sistema político e ideológico. Hoje, a juventude também protesta e se movimenta em oposição ao sistema neoliberal. Na década de 60, isso acontecia através de mobilizações nas ruas. E hoje, como você (jovem) expressa sua indignação juvenil? Aqui trataremos de suscitar uma nova indignação que ameaça não só a juventude, mas toda a humanidade. A juventude, em especial, pelo seu potencial e espírito movente tem algo a dizer dessa realidade.

Estimado(a) jovem, convido você para um diálogo aberto sobre a realidade global que nos envolve. Abre e fecha caminhos, determina nossas vidas, nos coloca em contato com o mundo e distancia das pessoas. O lugar que ocupo nesse diálogo é o de suscitar alguma reflexão sobre o papel do jovem no contexto pós-moderno e neoliberal. Digo de início que não é um lugar cômodo, confortável nem tranqüilo (como poderia eu estar tranqüila quando vejo tanta injustiça à vida e dignidade das pessoas?). É sim a tentativa de construir um processo no qual cada um e cada uma se desafiem a buscar elementos para pensar e viver com qualidade de vida.

Como sujeitos propensos ao novo e com potencial para transformar sua realidade, sugiro que, de seu lugar (sua realidade), possa permitir pensar o assunto e se posicionar naquilo que puder contribuir. O horizonte que se abre a nós aponta para a necessidade de uma nova razão (pensar numa outra forma de ver o mundo, com posturas diferentes das atuais) que dê sentido às relações humanas como relações entre pessoas que interagem e convivem solidariamente.

O que está acontecendo para que seja necessário fazer proposições tais que se chocam com o modo de pensar e viver na pós-modernidade? Acontece que a vida está fadada ao fracasso. A pessoa humana, substituída pela máquina. Nos faltam limites, critérios de vida; perdemos o alcance do mal que fazemos a nós mesmos: pelos alimentos envenenados que digerimos, pelas “marcas” (roupas e calçados, alimentos etc.) que vestimos e comemos; pela relação de poder (diferença de classes nas relações, onde existe o superior e o inferior, o chefe e o empregado, quem manda e quem obedece etc.) que permeia nosso dia-a-dia. Pela inversão de valores éticos e sociais, onde a pessoa humana é substituída pelo sistema “online”, entra em contato com o mundo, mas desconhece a si mesma. O que acontece de fato? Acontece que introjetamos a cultura do individualismo (cultura da solidão = eu + meu micro; eu + meu diskman; eu + meu pensamento…) e esquecemos que o importante é nossa individualidade (características pessoais somadas com às de outros para gerar um bem comum).

A realidade nos mostra um mundo cruel, dividido e alimentador de classes sociais desiguais. Há uma pequena porcentagem de pessoas que dominam o capital e determina o que e como a grande maioria irá fazer, vestir, comer, pensar. É um jogo de futebol onde só existem dois times e um único vencedor: o dono da bola. Os outros, são outros, são os que correm atrás da bola, mas jamais conseguirão alcançá-la, a não ser que haja uma nova razão de pensar e viver, uma humanização que consiga se pautar por critérios éticos, girando em torno do fundamental: a vida humana.

E você jovem, em que lugar (situação) se encontra? Desse lugar, como se sente? Sem dúvida, basta olhar para o lado que perceberemos o grande número de jovens “sem lugar” e com a função social bem definida: reproduzir o que o sistema (conjunto de fatores que determinam o comportamento humano) manda. A ciência, a tecnologia, a informação, tudo girando em torno do lucro, do capital, do domínio sobre os humanos. Onde iremos assim? De que valem todas as revoluções tecnológicas, especialmente a revolução da informática, que você assume e procura mergulhar cada vez mais dentro dela se ela não lhe possibilita relações de igualdade e sequer lhe deixa apresentar seus anseios, questionamentos, divergências… questões mais profundas e verdadeiras de seu ser? Não seria esse um mundo ilusório? Representativo de uma realidade utópica e inexistente? Enfim, qual o espírito que move as pessoas e também você nesse mundo?

Algum espírito nos move e delineia nossas relações, ora humanas, ora contra a humanidade. Sugiro a construção de um espírito solidário, oposto ao que nos move no sistema neoliberal. Há um espírito diabólico, que nos divide, nos ocupa com questões secundárias enquanto a essência vai sendo destruída. Que tal pensar na dimensão do simbólico, do espírito que nos move para a união das forças, dos ideais, constrói relações solidárias. Falo de um espírito simbólico que leve as pessoas a somar, querer estar próximas, conversar, buscar saídas em comum, espírito de identificação. Espírito esse contrário ao das marcas que também unem, mas unem para a uniformidade. Creio eu que uma característica jovem é a singularidade, o fato de ser único, autêntico… Algum espírito nos move e proponho a busca daquele que nos orienta na perspectiva do cuidado com o outro, com a outra; espírito da alteridade, ou seja, do viver junto “com” o outro, num elo comunitário, onde não há acúmulo de bens materiais, mas sensibilidade para o cuidado. Como expressa Peninha: “quando a gente gosta é claro que a gente cuida…”.

Espero que estas questões possam mover você, caro jovem, na construção de um espírito solidário em busca de um novo modo de organizar as relações interpessoais. Para realizar tal tarefa, é bom pensar no modo como você sente sua realidade. Se pudesse escolher ou mudar algo, o que faria? Fica o convite fundamental para abertura ao novo que surge, assim como o compromisso com a reorganização da comunidade. Uma comunidade que se pauta em critérios éticos e sobretudo, em sua essência: a ética da vida e solidariedade humanas.

O mundo espera uma postura de você e talvez, uma postura de sustentação do que já existe. Mas você é chamado a dizer ao mundo quais são suas opções. Basicamente são duas: continuar agindo pelo mesmo espírito, espírito de uniformidade, colocando a vida em segundo plano, ou, sair de seu lugar, desafiar a sua própria existência e o mundo para conscientizá-lo de que a vida é inegociável, não há capital algum que possa comprá-la. Como nos motiva a música “Cada um carrega em si o dom de ser capaz, de ser feliz” fico com o desejo de ter estabelecido uma conversa amiga de quem acredita que as coisas possam ser diferentes e devem ser diferentes com sua capacidade interior especial de transformar sua realidade para uma ética que não aceita negociar o valor da vida e do cuidado humano.

[Artigo escrito por Gisley Azevêdo Gomes, css, para a conclusão das aulas de “Juventude e neoliberalismo” sob orientação do Prof. Laurício Neumann – Especialização em Juventude Contemporânea – Unisinos]

Revolução Cubana: 50 anos de resistência e dignidade

Segue mais um artigo interessante que foi postado no Le MOnde edição brasileira.
Arrancados de séculos de opressão e atraso, os cubanos jamais se resignarão. Como um país pobre pode construir uma sociedade mais justa para todos. Depois de 50 anos da revolução, Cuba tem a mais baixa taxa de mortalidade infantil e um dos maiores pólos culturais da América Latina

Tiago Nery

(12/01/2009)

Equilibrando-se entre o realismo e a utopia, a Revolução Cubana está completando 50 anos. Nos primeiros dias de janeiro de 1959, após pouco mais de dois anos de luta guerrilheira, o Exército Rebelde, liderado por Fidel, Raul, Camilo e Guevara, entrava triunfalmente em Havana, iniciando um novo capítulo na história do país. O impacto da Revolução iria transcender em muito seus limites territoriais, repercutindo sobre sucessivas gerações de jovens, trabalhadores e intelectuais de várias partes do mundo, sobretudo da América Latina. Pela primeira vez, a própria idéia de revolução, que soava sempre tão distante para os latino-americanos (a exemplo das revoluções mexicana, russa e chinesa), passava a ser um tema da atualidade.

A polarização da época da Guerra Fria fez com que muitas análises sobre a Revolução Cubana estivessem impregnadas pelo clima daquele período e ignorassem as verdadeiras origens do movimento comandado por Fidel Castro. A revolução de 1959 tem profundas raízes na trajetória histórica nacional, cujos antecedentes remontam ao período da luta pela independência. Cuba foi a última colônia da América Latina a libertar-se da Espanha, em 1898, num processo que se estendeu por um período de 30 anos, em que se sucederam duas guerras de independência. A primeira, conhecida como a “Guerra dos dez anos” (1868-1878), foi liderada pelo advogado e proprietário de terras Carlos Manuel de Céspedes, considerado o “pai da pátria”. A segunda, iniciada em 1895, teve como principal ideólogo o advogado, jornalista e poeta José Martí, principal intelectual cubano e um dos mais importantes do continente, que desencadeou um movimento mobilizando amplos setores populares.

Antes de se tornar socialista, a Revolução Cubana foi um movimento de afirmação da soberania nacional. Já Fidel e Guevara representavam a sublimação do tradicional caudilho latino-americano em líder autenticamente popular

No momento em que a vitória das forças independentistas estava próxima a concretizar-se, o governo dos EUA resolveu entrar no conflito, provocando uma guerra contra a Espanha. Vitoriosos, os norte-americanos reconheceram a independência de Cuba, apesar de imporem, em 1902, uma emenda constitucional (emenda Platt), que permitia aos Estados Unidos exercerem o direito de intervenção no sentido de “preservar a independência cubana”. Com isso, Cuba tornava-se, na realidade, um protetorado dos EUA.

A atuação norte-americana frustrou as expectativas de liberdade e soberania que alimentaram o movimento desde o início. A desilusão com o desfecho serviria como elemento crucial para a formação de uma singular consciência nacionalista, que passaria a reivindicar uma terceira guerra emancipatória – contra o imperialismo estadunidense. Dessa forma, o processo revolucionário que derrubou a ditadura de Fulgencio Batista retomaria a trajetória dos movimentos independentistas do século 19, vinculando a libertação nacional e social aos desafios da Guerra Fria (Ayerbe, 2004).

O movimento revolucionário de 1959, iniciado em 1953, com a criação do Movimento 26 de Julho, guarda profundas conexões com aquele liderado por Martí algumas décadas antes. Em A história me absolverá, histórica autodefesa de Fidel Castro por ocasião de sua prisão, após a frustrada tentativa de tomar o quartel de Moncada, o futuro líder da revolução afirmou: “Impediram que chegassem às minhas mãos os livros de Martí. Parece que a censura da prisão os considerou demasiado subversivos. Ou será porque considerei Martí o autor intelectual do 26 de Julho?” (Castro, 1979, p. 22). Percebe-se, dessa forma, que antes de se tornar socialista, a Revolução Cubana foi um movimento de afirmação da soberania nacional. A guerra revolucionária não recebeu nenhuma ajuda da então URSS, assim como o Partido Socialista Popular (comunista), que inicialmente rejeitara as ações armadas e havia condenado o assalto ao Moncada, só apoiaria a guerrilha em sua fase final.

Comentando sobre a originalidade do processo cubano, o crítico literário Antonio Candido (1992) afirmou que líderes como Fidel e Guevara representavam uma formação política singular e aparentemente impossível: a sublimação do tradicional caudilho latino-americano em líder autenticamente popular. Dessa maneira, assim como em Cuba o caudilho potencial transformou-se em líder responsável, comprometido com o socialismo, a tradição radical, vinda de pensadores como José Martí, permitiria que o marxismo se ajustasse à realidade do país.

as experiências socialistas do século 20 foram obrigadas a dividir seus esforços entre a sobrevivência em relação aos inimigos externos e a construção de uma sociedade que se pretendia mais justa e avançada

A queda do Muro de Berlim e o fim da URSS só viriam confirmar que Cuba não era um satélite soviético. Por acreditar que, sem o apoio do bloco socialista, a queda do regime cubano seria apenas uma questão de tempo, o governo dos EUA endureceu o bloqueio econômico nos anos 1990, por meio de medidas extraterritoriais como a emenda Torricelli e a lei Helms-Burton. De acordo com o direito internacional, o embargo unilateral é considerado uma medida ilegal. Recentemente, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou, pela 17ª vez consecutiva, uma resolução que condena os EUA pelo bloqueio imposto a Cuba há 47 anos. Dos 192 países que pertencem à ONU, 185 condenaram o embargo estadunidense.

Mesmo com o recrudescimento das sanções, o governo cubano conseguiu não apenas manter mas também melhorar algumas das principais conquistas sociais da revolução. No âmbito da saúde, Cuba atingiu recentemente a mais baixa taxa de mortalidade infantil da sua história: 5,3 em cada mil nascidos vivos. Trata-se da segunda menor taxa das Américas, ao lado do Canadá. Na área cultural, a Casa das Américas, fundada por Haydée Santamaría, continua sendo um importante centro de difusão da literatura latino-americana. Igual importância tem o festival internacional de cinema de Havana, que acaba de realizar sua 30ª edição.

Além dos avanços, a Revolução Cubana também apresenta contradições e problemas. Por exemplo, muitos questionam o regime de partido único, o monopólio da imprensa estatal e as restrições a algumas liberdades individuais. Ademais, nos últimos anos, em virtude das reformas econômicas introduzidas com o colapso do campo socialista, a sociedade cubana passou a experimentar um nível de desigualdade ao qual não estava acostumada.

No entanto, entre as principais fragilidades das críticas endereçadas a Cuba, ressalta-se a ausência de perspectiva histórica, que ignora os contextos e os desafios que influenciaram as escolhas dos dirigentes cubanos, sempre condicionadas pela ação dos sucessivos governos norte-americanos. Além disso, deve-se observar que as experiências socialistas do século 20 foram obrigadas a dividir seus esforços entre a sobrevivência em relação aos inimigos externos e a construção de uma sociedade que se pretendia mais justa e avançada. No caso de Cuba, a pressão do exterior tem sido incessante ao longo dos últimos 50 anos. Segundo o historiador Luis Fernando Ayerbe, “nenhum sistema pode desenvolver suas potencialidades vivendo em clima de permanente conflito, que é justamente o mais favorável ao fortalecimento das tendências autoritárias existentes” (Ayerbe, 2004, p.119).

Com seus erros e acertos, a Revolução Cubana mostrou a muitos povos que um país pobre pode construir uma sociedade mais justa para todos. Trata-se de uma ilha, arrancada de séculos de opressão e atraso, que se ergueu para construir uma nova história, a que lhe foi negada. Darcy Ribeiro afirmou certa vez que, na América Latina, só havia dois destinos: ser resignado ou ser indignado. Os cubanos jamais se resignarão.

Referências Bibliográficas:

AYERBE, Luis Fernando. A Revolução Cubana. São Paulo: Editora UNESP, 2004. (Coleção Revoluções do século XX)

CANDIDO, Antonio. “Cuba e o socialismo” In: SADER, Emir (Org.) Por que Cuba?. Rio de Janeiro: Revan, 1992.

CASTRO, Fidel. A história me absolverá. 3ª ed. São Paulo: Alfa – Omega, 1979.