Cuba libera 52 presos, já Espanha atira contra seus dissidentes

EUA desligam painel eletrônico que irritava governo cubano em Havana

O governo dos Estados Unidos confirmou, nesta segunda-feira, que desligou um painel eletrônico gigante que transmitia notícias e mensagens na sede da missão diplomática do país em Havana. O painel foi construído no 5º andar do prédio da missão americana durante o governo de George W.

Bush e era usado para transmitir notícias e mensagens políticas ao povo cubano.

Segundo o correspondente da BBC em Miami Charles Scanlon, o líder cubano Fidel Castro, ficou furioso quando o painel eletrônico foi instalado no centro de Havana, há três anos.

Painel dos EUA em solo cubano

Painel dos EUA em solo cubano

As mensagens eletrônicas eram transmitidas em letras de 1,5 metros de altura e algumas delas traziam declarações políticas que, segundo Scanlon, eram divulgadas para promover a insatisfação com o governo comunista.

Irritado, Castro ordenou a construção de barreiras para esconder as mensagens, entre elas uma fila de bandeiras gigantes do país.

Por conta dessas barreiras, quase ninguém parece ter percebido quando o painel foi discretamente desligado no último mês.

De acordo com Scanlon, o governo de Obama confirmou que o painel eletrônico não está mais sendo usado em meio aos sinais de que as tensões entre os dois países parecem estar ficando mais amenas depois da hostilidade que prevaleceu durante o governo de Bush.

Revolução Cubana: 50 anos de resistência e dignidade

Segue mais um artigo interessante que foi postado no Le MOnde edição brasileira.
Arrancados de séculos de opressão e atraso, os cubanos jamais se resignarão. Como um país pobre pode construir uma sociedade mais justa para todos. Depois de 50 anos da revolução, Cuba tem a mais baixa taxa de mortalidade infantil e um dos maiores pólos culturais da América Latina

Tiago Nery

(12/01/2009)

Equilibrando-se entre o realismo e a utopia, a Revolução Cubana está completando 50 anos. Nos primeiros dias de janeiro de 1959, após pouco mais de dois anos de luta guerrilheira, o Exército Rebelde, liderado por Fidel, Raul, Camilo e Guevara, entrava triunfalmente em Havana, iniciando um novo capítulo na história do país. O impacto da Revolução iria transcender em muito seus limites territoriais, repercutindo sobre sucessivas gerações de jovens, trabalhadores e intelectuais de várias partes do mundo, sobretudo da América Latina. Pela primeira vez, a própria idéia de revolução, que soava sempre tão distante para os latino-americanos (a exemplo das revoluções mexicana, russa e chinesa), passava a ser um tema da atualidade.

A polarização da época da Guerra Fria fez com que muitas análises sobre a Revolução Cubana estivessem impregnadas pelo clima daquele período e ignorassem as verdadeiras origens do movimento comandado por Fidel Castro. A revolução de 1959 tem profundas raízes na trajetória histórica nacional, cujos antecedentes remontam ao período da luta pela independência. Cuba foi a última colônia da América Latina a libertar-se da Espanha, em 1898, num processo que se estendeu por um período de 30 anos, em que se sucederam duas guerras de independência. A primeira, conhecida como a “Guerra dos dez anos” (1868-1878), foi liderada pelo advogado e proprietário de terras Carlos Manuel de Céspedes, considerado o “pai da pátria”. A segunda, iniciada em 1895, teve como principal ideólogo o advogado, jornalista e poeta José Martí, principal intelectual cubano e um dos mais importantes do continente, que desencadeou um movimento mobilizando amplos setores populares.

Antes de se tornar socialista, a Revolução Cubana foi um movimento de afirmação da soberania nacional. Já Fidel e Guevara representavam a sublimação do tradicional caudilho latino-americano em líder autenticamente popular

No momento em que a vitória das forças independentistas estava próxima a concretizar-se, o governo dos EUA resolveu entrar no conflito, provocando uma guerra contra a Espanha. Vitoriosos, os norte-americanos reconheceram a independência de Cuba, apesar de imporem, em 1902, uma emenda constitucional (emenda Platt), que permitia aos Estados Unidos exercerem o direito de intervenção no sentido de “preservar a independência cubana”. Com isso, Cuba tornava-se, na realidade, um protetorado dos EUA.

A atuação norte-americana frustrou as expectativas de liberdade e soberania que alimentaram o movimento desde o início. A desilusão com o desfecho serviria como elemento crucial para a formação de uma singular consciência nacionalista, que passaria a reivindicar uma terceira guerra emancipatória – contra o imperialismo estadunidense. Dessa forma, o processo revolucionário que derrubou a ditadura de Fulgencio Batista retomaria a trajetória dos movimentos independentistas do século 19, vinculando a libertação nacional e social aos desafios da Guerra Fria (Ayerbe, 2004).

O movimento revolucionário de 1959, iniciado em 1953, com a criação do Movimento 26 de Julho, guarda profundas conexões com aquele liderado por Martí algumas décadas antes. Em A história me absolverá, histórica autodefesa de Fidel Castro por ocasião de sua prisão, após a frustrada tentativa de tomar o quartel de Moncada, o futuro líder da revolução afirmou: “Impediram que chegassem às minhas mãos os livros de Martí. Parece que a censura da prisão os considerou demasiado subversivos. Ou será porque considerei Martí o autor intelectual do 26 de Julho?” (Castro, 1979, p. 22). Percebe-se, dessa forma, que antes de se tornar socialista, a Revolução Cubana foi um movimento de afirmação da soberania nacional. A guerra revolucionária não recebeu nenhuma ajuda da então URSS, assim como o Partido Socialista Popular (comunista), que inicialmente rejeitara as ações armadas e havia condenado o assalto ao Moncada, só apoiaria a guerrilha em sua fase final.

Comentando sobre a originalidade do processo cubano, o crítico literário Antonio Candido (1992) afirmou que líderes como Fidel e Guevara representavam uma formação política singular e aparentemente impossível: a sublimação do tradicional caudilho latino-americano em líder autenticamente popular. Dessa maneira, assim como em Cuba o caudilho potencial transformou-se em líder responsável, comprometido com o socialismo, a tradição radical, vinda de pensadores como José Martí, permitiria que o marxismo se ajustasse à realidade do país.

as experiências socialistas do século 20 foram obrigadas a dividir seus esforços entre a sobrevivência em relação aos inimigos externos e a construção de uma sociedade que se pretendia mais justa e avançada

A queda do Muro de Berlim e o fim da URSS só viriam confirmar que Cuba não era um satélite soviético. Por acreditar que, sem o apoio do bloco socialista, a queda do regime cubano seria apenas uma questão de tempo, o governo dos EUA endureceu o bloqueio econômico nos anos 1990, por meio de medidas extraterritoriais como a emenda Torricelli e a lei Helms-Burton. De acordo com o direito internacional, o embargo unilateral é considerado uma medida ilegal. Recentemente, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou, pela 17ª vez consecutiva, uma resolução que condena os EUA pelo bloqueio imposto a Cuba há 47 anos. Dos 192 países que pertencem à ONU, 185 condenaram o embargo estadunidense.

Mesmo com o recrudescimento das sanções, o governo cubano conseguiu não apenas manter mas também melhorar algumas das principais conquistas sociais da revolução. No âmbito da saúde, Cuba atingiu recentemente a mais baixa taxa de mortalidade infantil da sua história: 5,3 em cada mil nascidos vivos. Trata-se da segunda menor taxa das Américas, ao lado do Canadá. Na área cultural, a Casa das Américas, fundada por Haydée Santamaría, continua sendo um importante centro de difusão da literatura latino-americana. Igual importância tem o festival internacional de cinema de Havana, que acaba de realizar sua 30ª edição.

Além dos avanços, a Revolução Cubana também apresenta contradições e problemas. Por exemplo, muitos questionam o regime de partido único, o monopólio da imprensa estatal e as restrições a algumas liberdades individuais. Ademais, nos últimos anos, em virtude das reformas econômicas introduzidas com o colapso do campo socialista, a sociedade cubana passou a experimentar um nível de desigualdade ao qual não estava acostumada.

No entanto, entre as principais fragilidades das críticas endereçadas a Cuba, ressalta-se a ausência de perspectiva histórica, que ignora os contextos e os desafios que influenciaram as escolhas dos dirigentes cubanos, sempre condicionadas pela ação dos sucessivos governos norte-americanos. Além disso, deve-se observar que as experiências socialistas do século 20 foram obrigadas a dividir seus esforços entre a sobrevivência em relação aos inimigos externos e a construção de uma sociedade que se pretendia mais justa e avançada. No caso de Cuba, a pressão do exterior tem sido incessante ao longo dos últimos 50 anos. Segundo o historiador Luis Fernando Ayerbe, “nenhum sistema pode desenvolver suas potencialidades vivendo em clima de permanente conflito, que é justamente o mais favorável ao fortalecimento das tendências autoritárias existentes” (Ayerbe, 2004, p.119).

Com seus erros e acertos, a Revolução Cubana mostrou a muitos povos que um país pobre pode construir uma sociedade mais justa para todos. Trata-se de uma ilha, arrancada de séculos de opressão e atraso, que se ergueu para construir uma nova história, a que lhe foi negada. Darcy Ribeiro afirmou certa vez que, na América Latina, só havia dois destinos: ser resignado ou ser indignado. Os cubanos jamais se resignarão.

Referências Bibliográficas:

AYERBE, Luis Fernando. A Revolução Cubana. São Paulo: Editora UNESP, 2004. (Coleção Revoluções do século XX)

CANDIDO, Antonio. “Cuba e o socialismo” In: SADER, Emir (Org.) Por que Cuba?. Rio de Janeiro: Revan, 1992.

CASTRO, Fidel. A história me absolverá. 3ª ed. São Paulo: Alfa – Omega, 1979.

O socialismo X Capitalismo

Em epocas de crise do capitalismo (e que crise) volta o velho dilemar e avoz que não quer calar.

 

Segue uma entrevista interessante publicada no Brasil de Fato

Contrariando muitos prognósticos, especialmente os elaborados pela mídia ocidental e seus analistas, a Revolução Cubana completa meio século de existência. Mesmo depois de tanto tempo, o desgaste do regime da ilha caribenha, tão esperado e previsto, não é uma realidade: o apoio popular ao sistema socialista permanece em níveis bastante elevados.

 

 

Richard Gott, jornalista britânico, dá algumas explicações para isso: “Cuba é uma sociedade que tem desfrutado de meio século de paz interna, incólume a ditaduras militares (como na maioria da América Latina) ou assassinatos políticos (como nos Estados Unidos)”.

 

Em entrevista por correio eletrônico ao Brasil de Fato, Gott ainda cita, entre outros, os padrões de saúde e educação oferecidos ao povo e a igualdade racial, conquistada após séculos de escravidão e colonialismo.

 

No entanto, existem problemas e desafios a serem enfrentados. E muitos. O jornalista britânico elenca alguns exemplos, como a falta de liberdade de expressão, a manutenção da pena de morte e a relativa ausência de diversificação da economia cubana, causada, principalmente, pelo acordo de exportação de quase toda sua produção de açúcar à ex-União Soviética.

 

Na entrevista a seguir, Gott ainda fala sobre Fidel Castro, Che Guevara, Barack Obama, as mudanças promovidas por Raúl Castro, e critica a grande mídia: “A imprensa internacional (de viés ocidental) foi educada para acreditar que somente as sociedades liberais do ocidente têm o direito de descrever a si mesmos como ‘democráticos’. Todas as outras sociedades são consideradas ‘autoritárias’ ou ‘ditatoriais’”.

 

Brasil de Fato – Após 50 anos de vigência da Revolução Cubana, quais são seus principais legados?

Richard Gott– O legado permanente da Revolução Cubana é a criação de uma sociedade onde negros e brancos vivem juntos como iguais, superando a herança racista da escravidão e do colonialismo. Isso é uma conquista única nas Américas, seja do Norte, seja do Sul. Cuba é uma sociedade que tem desfrutado de meio século de paz interna, incólume a ditaduras militares (como na maioria da América Latina) ou assassinatos políticos (como nos Estados Unidos). Além disso, Cuba é uma sociedade intacta em relação ao consumismo: os cubanos não são persuadidos pela publicidade a querer o que eles não precisam. E, por último, a população do país desfruta de padrões de serviços de saúde e educação que ainda são um sonho distante para os demais povos da América Latina.

 

Em sua opinião, quais foram os principais erros ou decisões equivocadas durante estes 50 anos?

Tem sido um erro Cuba manter a pena de morte, pôr o país no mesmo nível dos Estados Unidos, que também mantém essa prática bárbara. Também é um equívoco se recusar a permitir uma certa liberdade de opinião na discussão política. Cuba tem uma população educada e com capacidade de argumentação, portanto, ao povo cubano deveria ser permitido debater seu futuro de um modo mais interessante e aberto, através da criação de jornais e revistas.

 

Muito se discute a real importância da figura de Fidel Castro e de sua liderança para a sobrevivência da Revolução Cubana nestas cinco décadas. Qual sua opinião sobre isso?

A liderança de Castro e sua personalidade carismática têm sido, sem dúvida, de grande importância na sustentação da Revolução durante tantos anos. Castro talvez possa ser visto, agora, como a figura latino-americana do século 20 de maior destaque, no mesmo nível dos líderes das lutas de independência do século 19. Sua habilidade militar, exemplificada durante a guerra revolucionária, assim como nas lutas tardias na África, é legendária, do mesmo modo que sua habilidade política, diplomática e estratégica. (Leia mais na edição 305 do Brasil de Fato)

 

<QUEM É>

O britânico Richard Gott é escritor, jornalista e historiador. Trabalhou, por muitos anos, no jornal inglês The Guardian, como redator, correspondente e editor. Esteve por diversas vezes em Cuba, país sobre o qual escreveu o livro Cuba: Uma Nova Historia. É autor, ainda de diversos livros sobre os movimentos revolucionários na América Latina, como Guerrilla Movements in Latin America (Movimentos guerrilheiros na América Latina) e Hugo Chavez and the Transformation of Venezuela (Hugo Chávez e a transformação da Venezuela). Atualmente, é pesquisador do Instituto para o Estudo das Américas da Universidade de Londres.