Presidente do Conjuve, Danilo Moreira, fala ao EstudanteNet

Em tempos de eleições, o EstudanteNet vem procurando conversar com diversos segmentos da sociedade civil organizada para tentar entender como será o Brasil do futuro, o país da Copa e das Olímpiadas. O bate papo agora foi com o presidente do Conselho Nacional de Juventude. Confira a seguir a entrevista exclusiva

Muito se fala que o Brasil é o país do futuro. A explicação estaria no vigoroso crescimento econômico com distribuição de renda, na vastidão de possibilidades energéticas, como a descoberta do Pré-Sal, na sua capacidade de diálogo e interação com os diversos países da nova configuração mundial. Acompanhando todos esses indicativos, está um que projeta, literalmente, o Brasil como país em crescimento. Pela primeira vez, o país tem uma população de jovens superior aos 50 milhões de pessoas, um recorde histórico que redefine a estrutura social, econômica e cultural da nação.
Aproveitando essa irrecusável deixa, o portal EstudanteNet produziu uma entrevista especial com Danilo Moreira, que há dois anos preside o Conselho Nacional de Juventude (Conjuve). A função do conselho, ligado à Presidência da República, é debater, propor e acompanhar a implementação de políticas voltadas para os jovens.
Além de responder à pergunta “ O que é ser jovem? ” e comentar a importância do momento histórico, Danilo dá sua opinião sobre a criação do Ministério da Juventude e fala a respeito das principais conquistas e desafios dessa política nos próximos anos: “Temos dois grandes trunfos para avançarmos em 2011: a aprovação do Plano Nacional de Juventude, que é uma necessidade legal que consta no texto da PEC da Juventude e terá metas para os próximos 10 anos; e a realização da 2ª Conferência Nacional de Juventude que será um poderoso instrumento de convencimento e pressão para que continuidade e avanços caminhem juntos”, declara. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Como funciona o Conjuve? Qual o seu papel dentro do governo federal e junto à sociedade civil?
O Conjuve foi criado em 2005, é um organismo vinculado à Secretaria Geral da Presidência da República e tem 60 integrantes (20 de poder público e 40 de sociedade civil). Pelo poder público participam 17 Ministérios além de representantes de Governos Estaduais, Municipais e Câmara dos Deputados. Compõem a representação da sociedade civil os principais movimentos juvenis brasileiros, assim como organizações que atuam com a temática juvenil, chamadas de entidades de apoio. Além de reuniões ordinárias trabalhamos em comissões que cuidam de temas como relações internacionais, políticas e programas, comunicação e parlamento.
Atualmente, o papel do Conjuve tem sido principalmente fortalecer a implementação das políticas de juventude junto ao parlamento, governo federal e governos estaduais. Apoiamos aprovação de leis, analisamos programas do governo federal, fazemos recomendações e apoiamos a criação de conselhos estaduais e municipais de juventude. Do ponto de vista da sociedade civil, o Conjuve cumpre o papel de dar mais transparência às ações governamentais assim como é um grande ponto de encontro e articulação de organizações e movimentos que lutam pelos direitos da juventude.

O que é ser jovem? Como estabelecer um critério para essa definição?
Do ponto de vista etário a juventude é definida como uma faixa entre 15 e 29 anos, mas seria uma grande simplificação reduzir a juventude a uma questão de idade. Ser jovem é também uma condição social com características e demandas diferentes da infância, da idade adulta ou da terceira idade. Questões como acesso e produção de bens culturais, a combinação entre educação e trabalho, moradia, saúde, esporte, participação política, entre outros, têm que ser analisadas levando em consideração as particularidades da juventude, esta é a chave das políticas públicas de juventude. Só para citar um exemplo bastante conhecido: do ponto de vista do mercado de trabalho não podemos tratar de maneira igual uma pessoa que busca o primeiro emprego e um profissional que já tem experiência.

O Brasil tem hoje, pela primeira vez na sua história, mais de 50 milhões de habitantes com idade entre 15 e 29 anos. Quais os reflexos disso no nosso presente e no nosso futuro?
Vou me restringir somente ao argumento econômico. Estamos vivenciando uma oportunidade única na nossa história, nunca foi e nunca será tão grande o número de jovens no Brasil. Em termos quantitativos estamos no ápice da chamada "onda jovem", mas em função da queda das taxas de natalidade tal situação não se repetirá e o número de jovens reduzirá gradualmente nos próximos anos. Temos hoje a menor taxa de dependência econômica em relação à população economicamente ativa, com um reduzido número de crianças e idosos que dependem de quem está produzindo economicamente. Os especialistas chamam isso de bônus demográfico. À medida que aproveitarmos este bônus, preparando e incluindo produtivamente este jovem, ampliaremos em muito o ritmo de crescimento do país. Caso não aproveitemos esta oportunidade, perdemos duas vezes, pois o país cresce menos e, ao mesmo tempo, aumenta a demanda pelas chamadas políticas compensatórias. Um outro aspecto é que se pensarmos em um novo modelo de desenvolvimento baseado no conhecimento, nas tecnologias da informação e na sustentabilidade não podemos prescindir do potencial da juventude.

A Secretaria Nacional e o Conjuve são a expressão institucional da política de juventude hoje. Você acha necessário criar um Ministério da Juventude? Por que?
Costumo dizer que em fevereiro de 2005, quando o Presidente Lula criou a Secretaria Nacional de Juventude e o Conjuve, estes dois órgãos eram maiores que a política de juventude. De lá pra cá, avançamos muito com ampliação de programas em todos os níveis de governo, a multiplicação de conselhos por todo país, aprovamos a PEC da Juventude e fortalecemos nossa ação internacional nesta área. Para nossa felicidade hoje a política de juventude é muito maior que a Secretaria e o Conselho Nacional. Por outro lado, ainda temos muitos indicadores negativos a superar, precisamos aprovar e colocar em prática o Plano Nacional de Juventude, apoiar mais estudos e pesquisas, incluir a juventude com mais força no PAC, aproveitar todo potencial da Copa do Mundo e das Olimpíadas, ou seja, incluir definitivamente a juventude na estratégia de desenvolvimento nacional. Deste ponto de vista, defendo que, ao lado do fortalecimento do Conjuve, a Secretaria Nacional de Juventude passe a ter um status ministerial. Recentemente o Presidente Lula transformou a Secretaria de Mulheres e a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial em Ministérios por serem segmentos populacionais importantes para o país, não vejo motivos para não avançarmos também na juventude. Estou aberto ao debate, mas penso que o principal órgão da política nacional de juventude deve estar a altura dos nossos desafios e da importância que atribuímos à juventude brasileira.

Qual a sua trajetória de vida? Desde estudante secundarista até a presidência do Conjuve?
Iniciei minha militância na Escola Técnica de Feira de Santana, na Bahia. Estudava Eletrotécnica, ao mesmo tempo fazia um curso de eletricista no Senai. Neste período participei ativamente da diretoria do Grêmio Livre. Logo depois de formado fui trabalhar e voltei a militar quase quatro anos depois quando fui cursar história na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, em Vitória da Conquista. Daí em diante, fiz um caminho bastante conhecido no movimento estudantil: fui do Centro Acadêmico, do DCE e depois cumpri dois mandatos na executiva da UNE. Saí da UNE em 2003 quando o presidente Lula já indicava que desenvolveria uma política nacional de juventude. Por conta da minha filiação partidária – sou do PCdoB, um partido muito identificado com a juventude – e da minha trajetória no movimento juvenil, pois também fazia parte da Direção da União da Juventude Socialista – UJS, fui convidado para participar do "Projeto Juventude" coordenado pelo Instituto Cidadania. Este projeto foi à base da atual política nacional de juventude. Em 2005, com criação da Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), o convite foi quase natural. Na SNJ desde o primeiro momento me dediquei à construção do Conjuve. Penso que presidi-lo também foi um consequência deste trabalho no governo e da boa relação com a sociedade civil.

De que modo a sua atuação no movimento estudantil te influenciou para o trabalho que desempenha?
Além de um contato cotidiano com a juventude a passagem pelo movimento estudantil me deu duas coisas que considero indispensáveis para a atuação na área de políticas públicas de juventude: a primeira coisa foi a noção de que a juventude é diversa e ao mesmo tempo comprometida com as questões nacionais. No movimento estudantil sempre valorizamos e respeitamos as "diversas tribos juvenis" sem perder de vista que melhores dias para juventude sempre estarão ligados com melhores dias para o Brasil. A segunda lição foi perceber que por maior que seja sua convicção quanto à justeza das suas idéias, sempre vão existir pessoas que pensam diferente de você. Valorizar e respeitar a diversidade de pensamentos e buscar unidade para alcançar objetivos estratégicos é o segredo da força do Conjuve.

Quais as principais conquistas do Conjuve nos últimos anos?
Completamos, no último dia 02 de agosto, 5 anos desde a posse do primeiro mandato do Conjuve. Participo intensamente desde o primeiro momento e valorizo cada passo adiante, por menor que pareça. De qualquer forma, arrisco enumerar as seguintes vitórias: ter conquistado respeito e reconhecimento no governo e na sociedade: qualquer iniciativa do Conjuve tem hoje grande credibilidade; ter promovido o maior processo participativo do governo Lula, a 1ª Conferência Nacional de Juventude que teve 400 mil participantes; ter aprovado por unanimidade, na Câmara e no Senado, a PEC da Juventude; ter convencido o presidente Lula a convocar para 2011 a 2ª Conferência Nacional de Juventude, deixando para a próxima pessoa que irá ocupar a Presidência da República a possibilidade de fazer política com democracia e participação desde o primeiro momento do seu governo. Por último e mais importante, ter demonstrado que a atual geração política não deixa nada a desejar a gerações anteriores provando que é possível sonhar, lutar e conquistar.

Neste ano de eleições, qual a plataforma de propostas defendida pelo Conjuve para os candidatos?
Em 2008 o Conjuve liderou um movimento denominado Pacto pela Juventude e apresentou uma carta compromisso aos candidatos às eleições municipais. Tentamos reeditar esta iniciativa nas eleições presidenciais, mas por força da legislação eleitoral fomos impedidos de realizar a atividade em 2010. Felizmente as organizações da Sociedade Civil que integram o Conjuve chamaram pra si esta responsabilidade e estão apresentando o Pacto pela Juventude de maneira autônoma. Tive acesso ao documento que considero muito bom. Fico muito feliz em ver que as entidades mantém suas iniciativas de maneira independente e comprometida com os avanços das políticas públicas e dos direitos da juventude.

Qual a importância de termos candidatos jovens, políticos jovens ou mais jovens participando da política?
A juventude brasileira tem um histórico forte de organização e participação política. A UNE talvez seja o seu melhor exemplo. E não falo da UNE do passado, mas da UNE de hoje que luta, por exemplo, por 50% do fundo social do Pré-Sal para educação. Poderia falar também das inúmeras formas de organização e participação juvenil que se somam ao movimento estudantil. Basta olhar a composição do Conselho Nacional de Juventude e perceber sobre o que estou falando. Ocorre que quando falamos da juventude em espaços políticos eleitorais percebemos que existe uma enorme exclusão política. Do universo de 136 milhões de eleitores registrados pelo TSE, 30% é composto por jovens até 29 anos. No entanto, desde a redemocratização do Brasil nunca passou de 3% o número de jovens deputados federais. Este é um dos problemas que precisamos enfrentar para ampliar a representação efetiva dos jovens em todas as instâncias de poder.

Quais são os principais objetivos e desafios do Conjuve para os próximos anos?
As perspectivas do Conjuve estão diretamente relacionadas com a atitude que a próxima pessoa que assumir a presidência terá diante das políticas públicas de juventude e, especialmente, dos mecanismos de democracia participativa como o Conselho e a Conferência. Todo nosso esforço nos últimos anos foi voltado para transformar nossa pauta em algo irreversível. Digo isto não por uma visão corporativa do Conjuve, mas pela convicção quanto à necessidade de apostarmos na juventude para asseguramos o pleno desenvolvimento do Brasil, no presente e no futuro. Temos dois grandes trunfos para avançarmos em 2011: a aprovação do Plano Nacional de Juventude, que é uma necessidade legal que consta no texto da PEC da Juventude e terá metas para os próximos 10 anos; e a realização da 2ª Conferência Nacional de Juventude que será um poderoso instrumento de convencimento e pressão para que continuidade e avanços caminhem juntos.

Deixe um recado para a juventude brasileira
"O melhor amigo do povo é o povo organizado"
Rafael Minoro

Fonte: Estudantenet

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Brasil sediará etapa preparatória da Conferência Mundial de Juventude

O Brasil sediará a Pré-Conferência das Américas e Caribe no período de 24 a 26 de maio, no Hotel Pestana, em Salvador (BA). O evento, que precede a Conferência Mundial de Juventude, agendada para o mês de agosto, no México, está sendo organizado pela Secretaria Nacional de Juventude, vinculada à Secretaria-Geral da Presidência da República, com o apoio do governo da Bahia e das Agências do Sistema ONU. Cerca de 230 pessoas devem participar do encontro, entre delegados, observadores, palestrantes e convidados.

As etapas preparatórias são realizadas em nível continental, a exemplo do encontro de Salvador, que deve reunir representantes de 36 países da América e do Caribe. A exemplo do encontro mundial, que será realizado na cidade mexicana de Monterrey, a Pré-Conferência é composta por três Foros: o Foro de Governos, da Sociedade Civil e de Parlamentares, que irão discutir e aprovar uma declaração conjunta que será levada à Conferência do México. A Pré-Conferência será também uma oportunidade para a troca de informações e experiências sobre o tema entre os governos e sociedade civil dos respectivos países.

Segundo os organizadores, participarão até cinco delegados por país, sendo que os representantes de governo serão indicados pelos organismos governamentais de cada país e os parlamentares serão convidados pelo Congresso Nacional mexicano. Já as organizações da sociedade civil interessadas no encontro deverão se inscrever por meio do site http://www.youth2010.org até o próximo dia 30 de abril. No caso do Brasil, a seleção será feita pelo Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) entre os inscritos. Nos demais países, o Comitê Internacional selecionará as organizações participantes da Pré-Conferência.

É importante ressaltar que a Pré-Conferência está sendo organizada pelo Brasil a pedido do governo mexicano, o que ratifica o esforço que o governo brasileiro tem feito para consolidar uma política juvenil que assegure efetivamente os direitos dos jovens e crie oportunidades para que estes exerçam um papel de destaque nos projetos prioritários do país.

Mais Informações

Assessoria de Comunicação

Secretaria-Geral da Presidência da República

3411.1407

Revolução global juvenil – Gisley Azevêdo



Sempre que falamos de juventude e sua participação político-social recordamos da década de 60, onde, no mundo todo, a juventude expressou em protestos sua indignação com o sistema político e ideológico. Hoje, a juventude também protesta e se movimenta em oposição ao sistema neoliberal. Na década de 60, isso acontecia através de mobilizações nas ruas. E hoje, como você (jovem) expressa sua indignação juvenil? Aqui trataremos de suscitar uma nova indignação que ameaça não só a juventude, mas toda a humanidade. A juventude, em especial, pelo seu potencial e espírito movente tem algo a dizer dessa realidade.

Estimado(a) jovem, convido você para um diálogo aberto sobre a realidade global que nos envolve. Abre e fecha caminhos, determina nossas vidas, nos coloca em contato com o mundo e distancia das pessoas. O lugar que ocupo nesse diálogo é o de suscitar alguma reflexão sobre o papel do jovem no contexto pós-moderno e neoliberal. Digo de início que não é um lugar cômodo, confortável nem tranqüilo (como poderia eu estar tranqüila quando vejo tanta injustiça à vida e dignidade das pessoas?). É sim a tentativa de construir um processo no qual cada um e cada uma se desafiem a buscar elementos para pensar e viver com qualidade de vida.

Como sujeitos propensos ao novo e com potencial para transformar sua realidade, sugiro que, de seu lugar (sua realidade), possa permitir pensar o assunto e se posicionar naquilo que puder contribuir. O horizonte que se abre a nós aponta para a necessidade de uma nova razão (pensar numa outra forma de ver o mundo, com posturas diferentes das atuais) que dê sentido às relações humanas como relações entre pessoas que interagem e convivem solidariamente.

O que está acontecendo para que seja necessário fazer proposições tais que se chocam com o modo de pensar e viver na pós-modernidade? Acontece que a vida está fadada ao fracasso. A pessoa humana, substituída pela máquina. Nos faltam limites, critérios de vida; perdemos o alcance do mal que fazemos a nós mesmos: pelos alimentos envenenados que digerimos, pelas “marcas” (roupas e calçados, alimentos etc.) que vestimos e comemos; pela relação de poder (diferença de classes nas relações, onde existe o superior e o inferior, o chefe e o empregado, quem manda e quem obedece etc.) que permeia nosso dia-a-dia. Pela inversão de valores éticos e sociais, onde a pessoa humana é substituída pelo sistema “online”, entra em contato com o mundo, mas desconhece a si mesma. O que acontece de fato? Acontece que introjetamos a cultura do individualismo (cultura da solidão = eu + meu micro; eu + meu diskman; eu + meu pensamento…) e esquecemos que o importante é nossa individualidade (características pessoais somadas com às de outros para gerar um bem comum).

A realidade nos mostra um mundo cruel, dividido e alimentador de classes sociais desiguais. Há uma pequena porcentagem de pessoas que dominam o capital e determina o que e como a grande maioria irá fazer, vestir, comer, pensar. É um jogo de futebol onde só existem dois times e um único vencedor: o dono da bola. Os outros, são outros, são os que correm atrás da bola, mas jamais conseguirão alcançá-la, a não ser que haja uma nova razão de pensar e viver, uma humanização que consiga se pautar por critérios éticos, girando em torno do fundamental: a vida humana.

E você jovem, em que lugar (situação) se encontra? Desse lugar, como se sente? Sem dúvida, basta olhar para o lado que perceberemos o grande número de jovens “sem lugar” e com a função social bem definida: reproduzir o que o sistema (conjunto de fatores que determinam o comportamento humano) manda. A ciência, a tecnologia, a informação, tudo girando em torno do lucro, do capital, do domínio sobre os humanos. Onde iremos assim? De que valem todas as revoluções tecnológicas, especialmente a revolução da informática, que você assume e procura mergulhar cada vez mais dentro dela se ela não lhe possibilita relações de igualdade e sequer lhe deixa apresentar seus anseios, questionamentos, divergências… questões mais profundas e verdadeiras de seu ser? Não seria esse um mundo ilusório? Representativo de uma realidade utópica e inexistente? Enfim, qual o espírito que move as pessoas e também você nesse mundo?

Algum espírito nos move e delineia nossas relações, ora humanas, ora contra a humanidade. Sugiro a construção de um espírito solidário, oposto ao que nos move no sistema neoliberal. Há um espírito diabólico, que nos divide, nos ocupa com questões secundárias enquanto a essência vai sendo destruída. Que tal pensar na dimensão do simbólico, do espírito que nos move para a união das forças, dos ideais, constrói relações solidárias. Falo de um espírito simbólico que leve as pessoas a somar, querer estar próximas, conversar, buscar saídas em comum, espírito de identificação. Espírito esse contrário ao das marcas que também unem, mas unem para a uniformidade. Creio eu que uma característica jovem é a singularidade, o fato de ser único, autêntico… Algum espírito nos move e proponho a busca daquele que nos orienta na perspectiva do cuidado com o outro, com a outra; espírito da alteridade, ou seja, do viver junto “com” o outro, num elo comunitário, onde não há acúmulo de bens materiais, mas sensibilidade para o cuidado. Como expressa Peninha: “quando a gente gosta é claro que a gente cuida…”.

Espero que estas questões possam mover você, caro jovem, na construção de um espírito solidário em busca de um novo modo de organizar as relações interpessoais. Para realizar tal tarefa, é bom pensar no modo como você sente sua realidade. Se pudesse escolher ou mudar algo, o que faria? Fica o convite fundamental para abertura ao novo que surge, assim como o compromisso com a reorganização da comunidade. Uma comunidade que se pauta em critérios éticos e sobretudo, em sua essência: a ética da vida e solidariedade humanas.

O mundo espera uma postura de você e talvez, uma postura de sustentação do que já existe. Mas você é chamado a dizer ao mundo quais são suas opções. Basicamente são duas: continuar agindo pelo mesmo espírito, espírito de uniformidade, colocando a vida em segundo plano, ou, sair de seu lugar, desafiar a sua própria existência e o mundo para conscientizá-lo de que a vida é inegociável, não há capital algum que possa comprá-la. Como nos motiva a música “Cada um carrega em si o dom de ser capaz, de ser feliz” fico com o desejo de ter estabelecido uma conversa amiga de quem acredita que as coisas possam ser diferentes e devem ser diferentes com sua capacidade interior especial de transformar sua realidade para uma ética que não aceita negociar o valor da vida e do cuidado humano.

[Artigo escrito por Gisley Azevêdo Gomes, css, para a conclusão das aulas de “Juventude e neoliberalismo” sob orientação do Prof. Laurício Neumann – Especialização em Juventude Contemporânea – Unisinos]

Investir em jovens é um bom negócio

 

Pesquisa de entidade de consultoria americana feita no DF mostra que, a cada R$ 1 aplicado em programas sociais voltados para pessoas entre 18 e 24 anos, a sociedade ganha quase o dobro em riqueza econômica

Luísa Medeiros

 

Jovens menos violentos serão adultos mais produtivos no futuro. A mudança comportamental de pessoas que têm contato com algum tipo de violência pode gerar uma maior renda familiar e até movimentar a economia da comunidade onde elas vivem. A importância de investir em programas sociais de atendimento a jovens carentes e de baixa escolaridade no Distrito Federal foi traduzida em números. Uma investigação estatística mostrou que quando uma empresa privada aplica dinheiro na juventude, a sociedade ganha quase o dobro do valor em riqueza econômica.

Pesquisa feita pela John Snow Brasil Consultoria, uma entidade internacional, sobre o impacto econômico do programa Jovem de Expressão, que oferece oficinas artísticas e culturais, além de terapia comunitária, a 300 jovens com idade entre 18 e 24 anos nas cidades de Sobradinho II e Ceilândia, revela que a cada R$ 1 investido no programa gerou-se R$1,87 de riqueza econômica. Descontando as probabilidades de perdas futuras – como desemprego, morte precoce dos jovens e desvalorização do dinheiro – o retorno do programa, num prazo de 45 anos (que equivale a idade produtiva entre 20 e 65 anos), será de R$ 318 mil à sociedade.

Segundo o coordenador-geral da pesquisa, Miguel Barbosa Fontes, há uma relação direta com a violência e a renda do jovem. "Quanto mais conhecimento ele tiver sobre violência, atitudes e práticas, ganhará mais na vida produtiva porque fará mais decisões positivas", afirma. O ponto inicial para elaboração da pesquisa foi a Escala de Comportamento de Paz, criada pela John Snow e as organizações não governamentais (ONGs) que participam do programa, com base em publicações de literatura científica. Um questionário com 35 questões sobre conhecimento, atitudes e práticas de violência foi aplicado aos jovens. Quem teve respostas mais positivas, subia na escala. "A juventude que teve mais pontos na escala, terá mais chance de projetar a renda individual e a familiar", conclui ele.

O reconhecimento ao esforço de mudar de mentalidade e comportamento veio em forma de ajuda de custo. O dançarino Luiz Fernando Barbosa, 18 anos, sempre foi ligado ao estilo street dance, mas o temperamento estourado não o deixava seguir em frente. "Não estudava direito, vivia na rua e quando me chamavam por Testa (apelido que ele sempre detestou) eu ficava doido", lembra um dos atuais monitores de dança do Programa Jovem de Expressão. Ele conta que frequentar as aulas dadas pelo programa o ajudou a ter mais fé e autoestima. "Faz mais de um ano que participo e hoje já dou aulas e recebo uma ajuda de custo para isso. Faço também apresentações fora daqui. O dinheiro, invisto em coisas para mim e minha família", comenta.

Colcha de retalho
Para o professor do Departamento de Serviço Social da Universidade de Brasília (UnB) Vicente Faleiros, a violência só causa prejuízo e perda de vida. Ele lembra que a criminalidade é a principal causa externa de morte entre jovens de 20 a 29 anos. "Políticas públicas são fundamentais para o combate à violência, mas o setor privado pode se integrar a elas. O importante é que a ação seja conjunta, para não ficar uma atuação tipo colcha de retalho", cita o professor. Em relação ao custo/benefício revelado pela pesquisa, ele é cuidadoso. "É cálculo razoável, mas o principal investimento tem que vir do Estado. A verba vinda do setor privado e de ONGs são complementares, mas o governo tem que investir sobretudo na melhoria da educação nas escolas públicas. A escolaridade é a maior vacina contra a violência", defende.

O presidente do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve), Davi Barros, destaca que a política de responsabilidade social das empresas vem tendo um foco importante e positivo a respeito da condição juvenil no Brasil, nos últimos anos. "Isso estimula o próprio Estado a fazer investimentos nesse sentido. De fato, o Estado tem dificuldade de atender a demanda e experiências que dão certo podem servir de exemplo para novos programas", acredita. No entanto, Barros frisa que a participação da empresa privada pode ser emergencial e cumprir apenas políticas pontuais. "A atuação da sociedade civil tem um limite. Às vezes, não segue as transformações das ações sociais. Depois disso, quem irá mensurar o impacto da ação social? Quem continua dando um acompanhamento ao jovem?", indaga.

Toda a prevenção é mais barata do que o gasto com a correção. Segundo a secretária de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest), Eliana Pedrosa, o custo/benefício para o Estado e a sociedade é muito maior. Entretanto, ela admite que o poder público não tem condições de atender 100% a demanda de crianças e jovens carentes. "É necessária a participação complementar da sociedade civil, por isso temos vários convênios assinados. Um deles é o programa de auxílio ao primeiro emprego", conta.

1 – Gestão estratégica
A John Snow é uma consultoria americana especializada na gestão estratégica de investimentos sociais públicos e privados. Avalia por meio de pesquisas e aferição do impacto social o retorno dos recursos aplicados, o lucro social, prestando contas de todo o esforço empregado.

Mudança de rumos
Patrocinado pelo Grupo Caixa Seguros, o Jovem de Expressão é executado por duas organizações não governamentais (ONGs), o grupo Azulim e o Movimento Integrado de Saúde Comunitária do Distrito Federal (Mismec). A intenção do programa é evitar que os jovens sejam expostos a situações de risco e violência e há várias atividades para atraí-los. Aulas de dança hip-hop e street, webdesign, informática, grafite, fotografia e audiovisual são as armas usadas para mostrar aos jovens que há outros modos de pensar e agir numa sociedade organizada.

A coordenadora de Investimento Social Privado do Grupo Caixa Seguros, Alice Scartezini, diz que a faixa etária dos 18 aos 24 anos é descoberta na maior parte dos programas de políticas públicas. Ela cita que nessas idades a sociedade começa a cobrar atuação deles no mercado de trabalho. "Investimento social em jovens é um bom negócio e dá resultado. O retorno é muito rápido nessa faixa etária. É a fase na qual eles podem, se quiserem, correr atrás do prejuízo porque já tem capacidade produtiva", diz. Scaterzini destaca que o mercado de trabalho valoriza o jovem que busca conhecimento e formação, mas não é tolerante à falta de compromisso e comprometimento.

O coordenador do programa, Iranildo Gomes, afirma que o aprendizado dos jovens está atraindo a comunidade. "Muita gente procura os meninos que fazem grafite e pagam pelo trabalho deles. Sobradinho II está até mudando de cara", diz. A estudante Aline Dias, 24 anos, buscou o programa porque passava por conflitos em casa e precisa de ajuda para entendê-los e saber como agir. A sobrecarga emocional era tanta, que à época, ela pensava em largar o curso universitário de letras. Depois de muita conversa na terapia comunitária, Aline mudou o foco. Tomou gosto pela experiência e se viu inserida na comunidade. "Eu queria ir embora, mas vi que posso ser feliz aqui", conta. Hoje ela faz um curso de extensão universitária e sabe o que quer ser do futuro.

Fonte: Correio Braziliense