Transformismo ideológico: desde quando o PSDB é de esquerda?

O PSDB anda se proclamando “de esquerda” e é preciso desmontar essa empulhação. Esquerda não pode ser privatizante e o PSDB é; esquerda não pode dizer que programas sociais são “esmola” e o PSDB diz; esquerda não pode defender “Estado mínimo” e o PSDB defende.
Por Eduardo Guimarães, no blog Cidadania.com

Claro que os tucanos negam tudo isso. No Brasil, sobretudo depois de Lula, ninguém quer ser de direita. Contudo, os milhares de textos que simpatizantes e militantes tucanos escreveram nos últimos sete anos provam o contrário. Está tudo escrito e será apresentado como prova do transformismo ideológico desse pessoal.
A eleição deste ano, pois, deveria ser uma barbada para Dilma Rousseff em razão dos resultados que o país vem colhendo de políticas diametralmente diferentes das pregadas pelo PSDB, mas não será. E uma boa indicação disso é o que está acontecendo no processo sucessório no Chile.

Michele Bachelet, presidente chilena, tem uma aprovação tão alta quanto a de Lula e, ainda assim, seu candidato, apesar de chegar à eleição deste domingo tecnicamente empatado com o candidato da assustadora direita chilena, corre o risco de perder uma eleição que deveria estar ganha.

Como escrevo antes de ser conhecido o resultado da eleição no Chile, é até possível que o ex-presidente Eduardo Frei, candidato de Bachelet, vença. Contudo, ao se dar crédito às pesquisas de intenção de voto, seria uma vitória por margem extremamente apertada.
Para entender o que acontece naquele país e que a direita brasileira acha que poderá acontecer por aqui, basta lançar um olhar sobre os erros cometidos pela Concertação (aliança de centro-esquerda que governa o Chile desde que Pinochet largou o osso) diante da tática da direita de negar ser o que é exatamente como os tucanos estão fazendo.

No primeiro turno chileno, a esquerda se dividiu graças a um candidato que se diz “de esquerda”, Marco Enríquez Ominami. Foi ele quem mais colaborou para o fortalecimento da candidatura de Sebastián Piñera, apoiado pela ultradireita pinochetista.
Ominami teve nada mais, nada menos do que 20% dos votos no primeiro turno da eleição chilena, no mês passado. Se tivesse apoiado Frei, a eleição teria sido liquidada em primeiro turno e teria sido eliminado o risco de volta dos seguidores póstumos de Pinochet.

Em vez disso, vejam a declaração que o tal candidato “de esquerda” acaba de dar lá no Chile depois de votar: “Continuo acreditando que os dois candidatos representam o passado. Não vou negociar nada, não participarei de nenhum governo, serei opositor de ambos”.

Os eleitores de Ominami, contudo, não pensam como ele. Frei passou de 36% no primeiro turno para 49% nas pesquisas para o segundo, ou seja, a maioria de seus eleitores não quer a volta dos pinochetistas ao poder.
Aqui no Brasil, acontece a mesma coisa. Políticos que se dizem de “esquerda” estão trabalhando pela candidatura Serra ao dizerem que Lula é “de direita”.
Ao agirem assim, esses que se dizem “de esquerda” apoiam, indiretamente, um político ligado a gente que quer entregar o Pré Sal a empresas petrolíferas estrangeiras, que prega “Estado mínimo”, que quer novas privatizações, que chama programas sociais de “esmola”, que queria que o governo cortasse gastos para combater a crise etc.
Tanto no Chile quanto no Brasil, portanto, esquerda e direita estão muito bem definidas. Ser de esquerda é acreditar que um país como este precisa de um Bolsa Família e de um Estado forte e é repudiar o apoio de gente que cultua a memória e os métodos de um dos maiores assassinos que o mundo já conheceu.

Nesse aspecto, o discurso de Lula e de Dilma procura marcar diferença em relação a Serra ao martelar que o Estado precisa ser o promotor do desenvolvimento e o regulador das tensões sociais.
Mas é pouco, penso eu. É preciso desmascarar essa tentativa dos tucanos e de seu candidato de ludibriarem a sociedade dizendo-se “de esquerda”. A diferença entre as propostas do PSDB e do PT é flagrante.

Acho, inclusive, que, conforme a eleição for ficando mais dura para Serra, ele poderá adotar o discurso de Lula sobre o papel do Estado, sobre os programas sociais, etc. Por isso, a melhor vacina contra a empulhação tucana será resgatar seus discursos nestes anos todos.

Aliás, essas pessoas que vivem chamando o Bolsa Família de “esmola” precisam continuar escrevendo e falando. Eu mesmo darei a esse pessoal todo o espaço que quiser para recitar seus dogmas. Só pedirei que deixe bem claro em quem pretende votar.

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Revolução global juvenil – Gisley Azevêdo



Sempre que falamos de juventude e sua participação político-social recordamos da década de 60, onde, no mundo todo, a juventude expressou em protestos sua indignação com o sistema político e ideológico. Hoje, a juventude também protesta e se movimenta em oposição ao sistema neoliberal. Na década de 60, isso acontecia através de mobilizações nas ruas. E hoje, como você (jovem) expressa sua indignação juvenil? Aqui trataremos de suscitar uma nova indignação que ameaça não só a juventude, mas toda a humanidade. A juventude, em especial, pelo seu potencial e espírito movente tem algo a dizer dessa realidade.

Estimado(a) jovem, convido você para um diálogo aberto sobre a realidade global que nos envolve. Abre e fecha caminhos, determina nossas vidas, nos coloca em contato com o mundo e distancia das pessoas. O lugar que ocupo nesse diálogo é o de suscitar alguma reflexão sobre o papel do jovem no contexto pós-moderno e neoliberal. Digo de início que não é um lugar cômodo, confortável nem tranqüilo (como poderia eu estar tranqüila quando vejo tanta injustiça à vida e dignidade das pessoas?). É sim a tentativa de construir um processo no qual cada um e cada uma se desafiem a buscar elementos para pensar e viver com qualidade de vida.

Como sujeitos propensos ao novo e com potencial para transformar sua realidade, sugiro que, de seu lugar (sua realidade), possa permitir pensar o assunto e se posicionar naquilo que puder contribuir. O horizonte que se abre a nós aponta para a necessidade de uma nova razão (pensar numa outra forma de ver o mundo, com posturas diferentes das atuais) que dê sentido às relações humanas como relações entre pessoas que interagem e convivem solidariamente.

O que está acontecendo para que seja necessário fazer proposições tais que se chocam com o modo de pensar e viver na pós-modernidade? Acontece que a vida está fadada ao fracasso. A pessoa humana, substituída pela máquina. Nos faltam limites, critérios de vida; perdemos o alcance do mal que fazemos a nós mesmos: pelos alimentos envenenados que digerimos, pelas “marcas” (roupas e calçados, alimentos etc.) que vestimos e comemos; pela relação de poder (diferença de classes nas relações, onde existe o superior e o inferior, o chefe e o empregado, quem manda e quem obedece etc.) que permeia nosso dia-a-dia. Pela inversão de valores éticos e sociais, onde a pessoa humana é substituída pelo sistema “online”, entra em contato com o mundo, mas desconhece a si mesma. O que acontece de fato? Acontece que introjetamos a cultura do individualismo (cultura da solidão = eu + meu micro; eu + meu diskman; eu + meu pensamento…) e esquecemos que o importante é nossa individualidade (características pessoais somadas com às de outros para gerar um bem comum).

A realidade nos mostra um mundo cruel, dividido e alimentador de classes sociais desiguais. Há uma pequena porcentagem de pessoas que dominam o capital e determina o que e como a grande maioria irá fazer, vestir, comer, pensar. É um jogo de futebol onde só existem dois times e um único vencedor: o dono da bola. Os outros, são outros, são os que correm atrás da bola, mas jamais conseguirão alcançá-la, a não ser que haja uma nova razão de pensar e viver, uma humanização que consiga se pautar por critérios éticos, girando em torno do fundamental: a vida humana.

E você jovem, em que lugar (situação) se encontra? Desse lugar, como se sente? Sem dúvida, basta olhar para o lado que perceberemos o grande número de jovens “sem lugar” e com a função social bem definida: reproduzir o que o sistema (conjunto de fatores que determinam o comportamento humano) manda. A ciência, a tecnologia, a informação, tudo girando em torno do lucro, do capital, do domínio sobre os humanos. Onde iremos assim? De que valem todas as revoluções tecnológicas, especialmente a revolução da informática, que você assume e procura mergulhar cada vez mais dentro dela se ela não lhe possibilita relações de igualdade e sequer lhe deixa apresentar seus anseios, questionamentos, divergências… questões mais profundas e verdadeiras de seu ser? Não seria esse um mundo ilusório? Representativo de uma realidade utópica e inexistente? Enfim, qual o espírito que move as pessoas e também você nesse mundo?

Algum espírito nos move e delineia nossas relações, ora humanas, ora contra a humanidade. Sugiro a construção de um espírito solidário, oposto ao que nos move no sistema neoliberal. Há um espírito diabólico, que nos divide, nos ocupa com questões secundárias enquanto a essência vai sendo destruída. Que tal pensar na dimensão do simbólico, do espírito que nos move para a união das forças, dos ideais, constrói relações solidárias. Falo de um espírito simbólico que leve as pessoas a somar, querer estar próximas, conversar, buscar saídas em comum, espírito de identificação. Espírito esse contrário ao das marcas que também unem, mas unem para a uniformidade. Creio eu que uma característica jovem é a singularidade, o fato de ser único, autêntico… Algum espírito nos move e proponho a busca daquele que nos orienta na perspectiva do cuidado com o outro, com a outra; espírito da alteridade, ou seja, do viver junto “com” o outro, num elo comunitário, onde não há acúmulo de bens materiais, mas sensibilidade para o cuidado. Como expressa Peninha: “quando a gente gosta é claro que a gente cuida…”.

Espero que estas questões possam mover você, caro jovem, na construção de um espírito solidário em busca de um novo modo de organizar as relações interpessoais. Para realizar tal tarefa, é bom pensar no modo como você sente sua realidade. Se pudesse escolher ou mudar algo, o que faria? Fica o convite fundamental para abertura ao novo que surge, assim como o compromisso com a reorganização da comunidade. Uma comunidade que se pauta em critérios éticos e sobretudo, em sua essência: a ética da vida e solidariedade humanas.

O mundo espera uma postura de você e talvez, uma postura de sustentação do que já existe. Mas você é chamado a dizer ao mundo quais são suas opções. Basicamente são duas: continuar agindo pelo mesmo espírito, espírito de uniformidade, colocando a vida em segundo plano, ou, sair de seu lugar, desafiar a sua própria existência e o mundo para conscientizá-lo de que a vida é inegociável, não há capital algum que possa comprá-la. Como nos motiva a música “Cada um carrega em si o dom de ser capaz, de ser feliz” fico com o desejo de ter estabelecido uma conversa amiga de quem acredita que as coisas possam ser diferentes e devem ser diferentes com sua capacidade interior especial de transformar sua realidade para uma ética que não aceita negociar o valor da vida e do cuidado humano.

[Artigo escrito por Gisley Azevêdo Gomes, css, para a conclusão das aulas de “Juventude e neoliberalismo” sob orientação do Prof. Laurício Neumann – Especialização em Juventude Contemporânea – Unisinos]

Juventude, é preciso acreditar

Por. Luciano Menezes

  toque de reoclher

O desenvolvimento de nossa personalidade se dá no conflito e no confronto diário de nossas relações intrapessoais e interpessoais tais como: comigo mesmo; com os outros; com o mundo e com o Transcendente.

Devemos descobrir e apontar quais são os nossos sonhos, ideais e utopias que carregamos. Questionarmos em que mundo estamos? Darmos conta quais são as razões concretas de nossas esperanças? Digamos que esse é o primeiro passo para identificar e enfocar os nossos princípios básicos. O que realmente acreditamos para fazermos a diferença na sociedade.

Não é fácil desenvolver o caminho da construção do eu, ou seja, de nossa identidade juvenil. A pergunta que fazemos qual é o sentido do autoconhecimento? Às vezes confundimos como: uma pessoa, um indivíduo, um cidadão, um sujeito, não sabemos qual é o melhor conceito? Ou tudo é mesma coisa? Será que todos estão comprometidos com a vida do ser humano?

A auto-realização se dá na interação do sujeito e com o objeto. Quanto mais intensificarmos os significados de nossa existência, a experiência do sentido terá mais lucidez e eficácia.

Ser jovem hoje exige busca de informação de tudo o que acontece no mundo pós-moderno e globalizado. O grande desafio hoje está nos valores e estes, estão em crise. A alternativa da crise é tirar o “s” da crise e crie uma possibilidade fiel e criativa de fazer a mesma coisa de modo diferente de ser mais ousado e empreendedor.

A pós-modernidade nos faz pensar e nos organizar para que tenhamos cada vez mais direcionamento vocacional e exige capacitação e competência profissional na formação de valores tanto morais, éticos, estéticos, culturais, sociais, econômicos, políticos e religiosos com argumentos comprometidos coerentes e fiéis às potencialidades que possuímos e queremos desenvolver, com filosofia própria de vida e no serviço do resgate da cidadania.

O sistema capitalista está aí com sistema de ideologia própria, total e única com seus próprios interesse de apropriação, exploração e dominação de tudo e de todos, um só “céu” e uma só “terra” tanto dos recursos materiais e humanos, uma dimensão sem fronteiras, sem divisões e sem limites, liberdade individual (liberalismmo) e sem oposição ideológica. Seu maior objetivo é formar no mundo um único bloco econômico capitalista, que todos sejam “iguais” e que na verdade alguns são mais “iguais” do que outros. Isso é injustiça e o poder fica na mão apenas de alguns. Onde mais ou menos 20% da população mundial retêm 80% da riqueza do mundo e sendo que 80% da população têm 20% da riqueza.

O sistema NEOLIBERAL está aí. Um novo para ratificar o “novo” que vem e pronto. O que vamos fazer, juventude!?Nossa atitude muda o mundo; o modo como vemos o mundo é muito mais importante do modo do que o mundo é. O mundo vai ser melhor quando eu for melhor

Juventude, a concepção de mundo que eu tenho é muito importante. Qual é a sua? O que fazer? Quais as razões e ações para fazer a diferença? Mudar o sistema não resolve, fazer revolução não soluciona, derrubamos o capitalismo e oferecer o que em troca? Começarmos de pequeno no exercício participativo, cooperativo e solidário, que seja um processo democrático que comece na família entre pais e filhos, depois para comunidade e sociedade.

Os jovens sentem-se mais apoiados e seguros quando os adultos se dispõem a conversar e a dar conselhos; ficam mais autônomos quando são chamados a dar opinião sobre questões importantes; aprendem noções de ética se são incentivados a discutir valores pessoais; e constroem melhor a própria identidade quando aprendem sobre tradições com os mais velhos. Eis uma solução.

Outro desafio e ter uma visão integradora e solidária. Saber organizar e cooperar com responsabilidade e com comprometimento, pensar naquilo que acreditamos e sonhamos para a melhor qualidade de vida. Sem drogas, sem doenças sexualmente transmissíveis – aids… ter saúde física, mental e espiritual.

O nosso olhar crítico dever ser alargado e dizer não para os canais abertos de TV ou outros meios de comunicação social, que incitam os jovens a se tornarem consumidores compulsivos e afetivos – sexuais dependentes.

Que a juventude seja unida nas diversas diferenças culturais e sociais. Pensarmos globalmente e agir localmente. Ter a permanente humildade de nossas convicções e está assessorando-se no intuito de unir forças, necessidades, desejos, sonhos e esperanças. Ninguém é melhor do que todos nós juntos. Cativando-se e deixando-se cativar por aqueles que nos querem bem e por aqueles que nos desafiam na oportunidade de crescer. A nossa missão é estimular outros jovens que por vezes perderam os seus referenciais e o seu sentido de vida. Que todos tenham mais vida e vida em plenitude.

Pensemos que hoje nós podemos fazer o melhor de nós, para que amanhã ao olharmos o passado, chegarmos à conclusão de que a nossa vida realmente valeu a pena ter sido vivida. Mas o que fazer para mudar? Tomemos hoje a decisão de mudar a nossa vida. Definir quais são os nossos objetivos, sonhos mais ardentes, ambições e lutemos por eles. Usemos as ferramentas que temos à mão. Aproveitemos as oportunidades.

[Por Luciano Osmar Menezes. Texto produzido durante o curso de Especialização em Juventude Contemporânea – Unisinos]

Políticas sociais em tempos de crise, por Patrus Ananias*

 

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Aos que me perguntam sobre até quanto tempo serão necessárias as políticas sociais respondo que elas vieram para ficar.

Mesmo em sociedades mais evoluídas dos pontos de vista econômico, social, cultural e humano, há sempre uma parcela da população mais fragilizada. São pessoas, famílias e comunidades inteiras que, por circunstâncias, perderam condições de sobrevivência e precisam da ajuda do Estado.

No Brasil, só muito recentemente começamos a estruturar nossa rede de proteção e promoção social. Temos ainda um longo caminho pela frente. A ausência de política voltada para amparar os mais pobres e combater desigualdades ao longo de nossa história nos legou grande dívida social e estamos empenhando esforços para resgatá-la. Foi para isso que o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome foi criado em fevereiro de 2004, com uma estrutura voltada exclusivamente para atender os mais pobres do país. Os resultados positivos são visíveis e confirmados em estudos e pesquisas.

Para que possa responder ao resgate dessa dívida, o ministério tem de ter caráter permanente. Nossos programas podem mudar e as ações podem ser aperfeiçoadas e adequadas às demandas regionais ou a novas demandas. Porém, as políticas sociais, que agora assumem status de política pública, têm de ter continuidade. Na assistência social, precisam manter coerência com a determinação constitucional que as coloca junto com a saúde e a Previdência Social como tripé constitutivo da seguridade social.

Na segurança alimentar e nutricional, devem estar em sintonia com o princípio que define o direito à alimentação como pressuposto do direito à vida e, por isso, um direito elementar que deve ser garantido pelo Estado.

Se as políticas sociais são indispensáveis em períodos normais, tornam-se mais ainda em períodos como o que estamos vivenciando agora, com uma crise internacional gerada no cerne do sistema capitalista e que ameaça economias de países em desenvolvimento, como a do Brasil.

As políticas sociais funcionam como proteção para amenizar os efeitos da crise, protegendo os mais desvalidos ao estimular seu poder de compra, aquecendo a economia interna.

Mas, para assegurar a construção de um ministério duradouro, na perspectiva de consolidar uma rede institucionalizada de proteção e promoção social, carecemos ainda de ajustar e adequar a sua estrutura. Com atuação em todos os 5.563 municípios e no Distrito Federal, atendendo aproximadamente 68 milhões de pessoas (cerca de 37% da população brasileira), o MDS precisa de recursos que aprimorem mecanismos de gestão social para garantir eficiência e eficácia de nossas políticas. Precisamos ter nosso público-alvo bem definido, e os efeitos das políticas, monitorados por eficientes canais de avaliação e controle que gerem indicadores confiáveis que retratem nossa realidade.

Essa é a importância de dois projetos que se encontram em tramitação no Congresso: o projeto de lei nº 3.428/2008, que prevê a reestruturação administrativa do MDS com criação de 164 cargos em comissão na estrutura do ministério; e o projeto de lei da Câmara, que prevê a criação da carreira de desenvolvimento de políticas sociais, entre outras reformulações de carreira no serviço público.

O primeiro projeto encontra-se na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania para elaboração da redação final; a segunda proposta aguarda inclusão na ordem do dia do plenário do Senado Federal. A criação da carreira de desenvolvimento de políticas sociais atende à área social como um todo, mas tem um impacto direto no MDS por causa de sua especificidade e também por ser uma pasta relativamente nova e que está se organizando dentro de um processo de evolução orçamentária e consequente ampliação das atividades.

Em conjunto, esses projetos têm o objetivo de criar as condições adequadas para garantir o bom direcionamento dos recursos públicos na área social, aprimorando mecanismos de fiscalização, controle, monitoramento e avaliação. E, se definimos que é importante trabalhar com os pobres com vistas à promoção social de nossa gente, temos de ter pessoas qualificadas para esse trabalho, até mesmo para que estejam preparadas para qualificar os beneficiários de nossas políticas.

Investir na gestão dessas políticas é uma questão de coerência e, certamente, trará mais eficácia nos investimentos da área. E é justamente investimento no desenvolvimento social do nosso povo. O resultado, sabemos, retorna para a sociedade como um todo, em forma de justiça social, conduzindo a um desenvolvimento mais sustentável e seguro.

 

*Patrus Ananias é ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Foi prefeito de Belo Horizonte (1993-1996)

20 anos de democracia

Segue mais um artigo interessante que recebi por email e que compartilho com vcs.

Boa leitura

 

Vivemos 20 anos de governos militares impostos (nem precisava dizer),
seguidos de 15 anos de governos neo-liberais cuja única e exclusiva
preocupação parecia ser ‘ficar bem na fita’ com os grandes capitais –
internos e externos – e potências internacionais. Após disputar três
eleições, Lula foi eleito, sendo reeleito com expressiva votação
popular, não obstante as insistentes e permanentes denúncias e
desaprovação expressa dos grandes meios de comunicação. Eleito e
reeleito, trabalhou uma plataforma de tentar redistribuir renda e
manter a economia estável, além de livrar-nos da muleta incômoda e
dispendiosa, em vários sentidos, do FMI. Conseguiu realizar boa parte
dessas promessas, ficando a dever em alguns campos, mas mesmo assim
não se pode dizer que seja um período no qual o país e sua população
tenham andado para trás: pelo contrário, houve aumento de renda mínima
e média e o PIB cresceu, mesmo que os detratores criticassem como
modesto um desempenho de 4,5%. Obteve realizações, a despeito de
oposições em muitos casos desleais e ferrenhas: no Congresso nacional,
nos grandes meios de comunicação de massa (precisa citar?) e de parte
até de alguns de seus antigos colaboradores e partidos aliados, ou
ainda dos partidos emergentes. Conseguiu estes êxitos malgrado as
sucessivas e constantes ‘crises’ criadas, em grande parte, por seus
opositores: crise do ‘mensalão’, crise do ‘apagão aéreo’, crise do
mercado imobiliário americano (a única não fomentada dentro do país)
… sem que nada disto pudesse abalar sua popularidade de modo
definitivo.

Agora, após uma denúncia (mais uma) de um senador de que todos os
políticos e seus partidos seriam ‘ninhos de corrupção’, inclusive seu
próprio partido que se aliara a Lula meses antes, e depois de um
bate-boca no STF, fala-se em uma ‘crise institucional generalizada’.
Ora, esta palavra é uma das mais prostitutas da história: a cada golpe
de estado no Brasil, ou a cada tentativa, verão que ela era a mais
pronunciada nos meses antecedentes. Os que se erigiam em salvadores da
pátria tinham sempre que divulgar a imagem de que um suposto ‘caos’ se
instaurara e que a situação das instituições nacionais era ‘crítica’,
portanto, faziam-se necessárias ‘medidas de exceção’ (artifício
lingüístico usado para denominar governos impostos por quase três
décadas em grande parte da América do Sul). A ´ética’ e a
‘moralidade’, bem como a ‘ordem’ e a ‘normalidade’, usadas como
justificativas para instaurar o arbítrio. Sabemos o resultado: mortos,
desaparecidos, torturados, truculência, autoritarismo e inúmeras
outras mazelas, dentre as quais o endividamento nacional e a entrega
de recursos naturais estratégicos em mãos de multinacionais.
Não queremos repetir esse passado, nem mesmo como ‘reprise’. Já
vivemos e vimos o suficiente para saber que ele não nos serve e não
nos auxilia em nada. A desunião, desinformação, avaliação incorreta da
realidade, além da desarmonia e lutas internas nos levaram ao fracasso
na tentativa de opor-nos ao que nos era imposto por grupos cujos
interesses únicos eram privados e classistas. Eu era adolescente na
última ditadura, mas acompanhei e acompanho, na medida do possível, o
que ocorreu então. Minha avaliação talvez não seja a mais exata sobre
as razões do fracasso popular e de suas vanguardas naquela época
triste e sombria, mas guarda respeito e admiração pelos que lutaram e
tentaram fazer o melhor, mesmo com erros.

Vamos repetir hoje os erros do passado e permitir que grupos
articulados em torno de interesses escusos consigam implantar o caos e
fomentar crises – como fizeram com o transporte, no Chile, pouco antes
do golpe contra Allende? Quando vejo, em alguns momentos, os discursos
da extrema direita e esquerda convergirem para pontos comuns (crise
institucional, denúncias, etc.), fico alarmado. Os governos de
Getúlio, Juscelino e Jango foram acusados de ‘corrupção endêmica’, não
apenas pela direita, pouco antes de serem derrubados e nunca se falou
tanto em crise ou caos quanto na véspera desses golpes. Não sou
ingênuo a ponto de pensar que não haja problemas ou que não possa
haver desvios no governo atual, mas asseguro-lhes que os que o
denunciam não são movidos pelo amor à retidão, na maior parte dos
casos, e que se existem não são maiores do que já se viu em
administrações anteriores.

Sabemos que muitas das denúncias e fontes de inquietação, transmitidas
diariamente à população, são falsas ou inexatas: é o anunciado
‘terceiro turno’ em andamento. Enquanto isto, proliferam os blogs
radicais de direita fabricando piadas ofensivas e falsas acusações
(uma delas: a de que Bóris Casoy, Jabor e Mainardi tenham sido
mandados embora de suas respectivas redações a pedido de Lula! –
outra: a de que todos os direitos trabalhistas cairiam).
Não podemos ser co-veiculadores de coisas desse tipo, não por
atingirem o presidente eleito e o PT, mas por serem inverdades. Não
podemos fazer eco quando falam de ‘apagão aéreo’ sem que isto seja
verdadeiro, também. Não deveríamos acreditar mais em uma crise
internacional, ou em uma suposta crise interna, que em nossa
capacidade já comprovada de superá-las. Se há crises, vamos a elas; o
que não podemos é propor ‘dinamitar tudo’ ou ‘demolir o modelo’ a cada
década. Construir um país e uma democracia levam tempo e custam vidas,
sacrifícios e suor.

Abraços sociais
F.Prieto