Quem é o dono de uma entrevista?

Em outubro do ano passado dei uma entrevista por email para um aluno de faculdade de jornalismo e, ao finalizar, perguntei se poderia reproduzir o texto aqui no Código. A resposta foi negativa, fiquei meio confuso mas só dois meses depois é que dei conta de todas as implicações da questão.
Por Carlos Castilho*

Agora em dezembro, o jornalista inglês Paul Bradshaw reproduziu uma experiência pessoal quase idêntica e que tem a ver com uma nova situação criada pela internet na controvertida questão do direito de autoria. Trata-se de uma polêmica que ainda vai dar muito pano para manga.

Tudo porque estão em jogo duas visões diferentes sobre um mesmo fato, ou situação. O entrevistado acha que é o dono de tudo porque afinal de conta as idéias, reflexões, experiências, percepções e opiniões são fruto de sua realidade pessoal. Já o jornalista está convencido de que a partir do momento em que ele colocou no papel ou transmitiu pela rádio e TV, ele passa a ser o proprietário dos direitos autorais do produto final, mesmo citando as fontes.

As duas partes esgrimem argumentos lógicos. O entrevistado por razões óbvias, já que ele só foi consultado porque acumulou um conhecimento fruto de seu trabalho pessoal. Se ele publicar tudo num livro, ele tem os direitos absolutos sobre a obra.
Já o repórter justifica sua negativa de reprodução alegando que ele o dono das perguntas, da idéia da entrevista e principalmente de sua edição, o que configuraria uma obra com características próprias e também pessoais.

Esta questão do direito de publicação pelo autor de entrevistas ou declarações dadas a terceiros está se tornando cada dia mais importante porque, além da autoria, também está em jogo o problema do contexto. O jornalista faz entrevistas que depois podem ser usadas em contextos informativos bem diferentes dos imaginados pelos entrevistados.
Assim, por exemplo, cresce a cada dia o número de órgãos governamentais que publicam em seus sites corporativos entrevistas e comunicados distribuídos à imprensa em geral. O caso do blog da Petrobras ainda está na memória de todos nós, em especial a reação dos grandes jornais brasileiros.
Grande parte da dimensão adquirida pela ques

tão é uma conseqüência do desejo de ter o controle sobre conteúdos informativos, seja pelo entrevistado ou pelo entrevistador. Desejo este que pode ter motivações econômicas ou políticas.

No meu caso era o de disponibilizar para os leitores do Código uma reflexão que produzi para um estudante de jornalismo preparando o seu trabalho de conclusão de curso e que provavelmente seria lida apenas pela banca examinadora.

Enquanto a questão for vista pelo lado do controle e de seus interesses implícitos vai ser quase impossível chegar a um denominador comum. Há até a possibilidade de situações esdrúxulas como o repórter ter o direito sobre as perguntas e o entrevistado sobre as respostas. É algo kafkiano porque numa entrevista – seja ela escrita, em áudio ou em vídeo – é impossível separar as partes.

É por isto que cresce a cada dia a percepção de que, pelo menos no caso de uma entrevista, ninguém teria direito a nada. O entrevistado porque esta dando um esclarecimento ao público e não ao repórter. Este, por seu lado, assume na função jornalística, o papel de representante do leitor, ouvinte ou espectador.

Se tomarmos o público como referência, a polêmica deixa de existir porque tanto o entrevistado como o entrevistador estão prestando um serviço a terceiros. Mas como a maioria dos jornalistas assume que é dono daquilo que publica, as fontes de informação começam a reivindicar o mesmo direito na medida em que descobrem que também podem publicar o que querem na internet. Daí o impasse.

* Carlos Albano Volkmer de Castilho é jornalista com mais de 30 anos de experiência em rádio, jornais, revistas, televisão e agências de notícias, no Brasil e no exterior. Escreve para o Observatório da Imprensa.

Fonte: Observatório da Imprensa

Mídia brasileira se incomoda com destaques europeus para Lula

 

lula Em uma linha que supervaloriza o papel da internet e relativiza o poderio dos grandes meios de comunicação de massa tupiniquins, o professor da USP Paulo Nassar faz, entretanto, uma observação interessante: "O ‘filho do Brasil’ transforma-se em ‘filho do mundo’.(…) O fato parece ter incomodado os jornais mais relevantes por aqui".

O filho do mundo
Por Paulo Nassar*


Le Monde, El País, Financial Times são alguns dos jornais deste mundo cujas opiniões contam. Suas palavras assentadas na reputação intelectual e profissional legitimam ou não fatos ocorridos no âmbito político, econômico e social. Esses três jornais europeus, neste final de ano, colocaram o presidente Luís Inácio Lula da Silva no topo de suas listas de personalidades do ano. O "filho do Brasil" transforma-se em "filho do mundo".
O fato parece ter incomodado os jornais mais relevantes por aqui. Talvez digiram mal outras visões de mundo, que nos chegam com velocidade e sem controle.

Em outro tempo, as notícias sobre essa distinção internacional do presidente Lula demorariam semanas para atravessar os mares e chegarem para poucos. Agora, em um clique, milhões, ficam sabendo que, para muitos, lá fora "Lula é o cara".
Para a mídia tradicional brasileira só resta publicar, no outro dia, as boas e más notícias. Mas o atraso tecnológico midiático poderia se transformar em oportunidade: interpretações e opiniões competentes, embasadas em boa informação, a favor e contra, sobre os fatos do dia anterior.

A mediação que a imprensa nacional fazia entre o mundo e o Brasil enfraqueceu e perdeu a razão de ser. Hoje o brasileiro alfabetizado vai direto aos grandes veículos de comunicação internacionais e interage pela internet com a constelação formada pela rede social. E, a partir daí, cria sua opinião.

Ainda sobre Lula, "o cara", a notícia nacional é quase sempre uma opinião, que beira o esboço. Um estado jornalístico insustentável, frente a um tipo de leitor, cada dia mais bilíngüe, que já não casa com um determinado veículo de comunicação "até que a morte os separe".

As novas extensões do homem, articuladas a partir das inovações tecnológicas e do novo social, transformaram a criação, a produção e as formas de comunicação e de relacionamento. No novo ambiente sócio-tecnológico é irrelevante pensar nas questões relacionais e comunicacionais, entre elas as notícias, a partir de um instrumental superado e adequado às guerras delineadas em territórios definidos, defendidos por tropas identificadas e dependentes quase exclusivamente de máquinas e orientadas por um comando e controle centralizados.

A notícia circula cada vez mais em um universo sem centro e sem periferia. Quem discorda, por exemplo, dos rankings dos jornalões europeus, têm liberdade e tecnologia para criar suas próprias listas. Você se anima?

*Paulo Nassar é professor da Escola de Comunicações e Artes, da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Diretor-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE). Autor de inúmeros livros, entre eles O que é Comunicação Empresarial, A Comunicação da Pequena Empresa, e Tudo é Comunicação.


Fonte: Terra

PSDB já deu inicio as EleiÇões de 2010

 

Luiz Nassif

Luiz Nassif

Depois de ser comunicado sobre sua saída da TV Cultura, anunciada nesta terça-feira (13), Luís Nassif falou ao Vermelho sobre as razões que poderiam ter levado o canal a tal decisão já que, no final do ano passado, a direção cogitava renovar seu contrato. “O ano de 2010 já começou, este é o ponto”, declarou. Para ele, “a maluquice das eleições de 2006 voltou antecipadamente”.
Nassif disse não saber quais razões reais teriam levado o canal público a romper o contrato, mas lançou algumas luzes que podem clarear o entendimento sobre a decisão.
A aproximação do ano eleitoral e a subordinação do canal ao presidenciável José Serra – governador que tem fama de perseguir veículos e jornalistas críticos à sua gestão – poderiam ter pesado na decisão. “Fiz uma matéria sobre o balanço da Sabesp, tratando da publicidade que a empresa fez em termos nacionais. Como pode uma empresa que tem atuação estadual patrocinar eventos de televisão no Brasil inteiro?”, questionou. A intenção é clara: trata-se de divulgar a gestão Serra, contribuindo para torná-lo uma figura mais conhecida nacionalmente com vistas à disputa de 2010.
Outro episódio que demonstra as divergências entre a visão crítica de Nassif e a orientação da TV Cultura foi a publicação no blog do jornalista de release sobre o programa “Roda Viva” com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes. No texto, constava a formação da bancada de entrevistadores: Reinaldo Azevedo, da Veja; Macio Chaer, do site Consultor Jurídico e Eliane Cantanhêde, da Folha de S. Paulo, entre outros.
Na época, Nassif postou o seguinte comentário: “um belo feito jornalístico do Paulo Markun (presidente da Fundação Anchieta, mantenedora da TV Cultura). Garanto que a bancada colocará à prova todo o saber jurídico do presidente do STF e fará todos os questionamentos que precisarem ser feitos a ele, tudo aquilo que os telespectadores gostariam de perguntar”.
A repercussão bateu no canal. Os internautas “entupiram a Cultura de protestos”, lembra o jornalista.

 

Distanciamento


Ao falar da demissão de Nassif ao portal Imprensa, a Fundação Padre Anchieta disse que eram freqüentes “ao longo do período de vigência do contrato, as situações em que a direção do ‘Jornal da Cultura’ solicita a presença do jornalista e ele não está disponível, em razão de viagens ou outros compromissos profissionais. Isso obriga o jornal a adequar-se às conveniências de seu colaborador e não o contrário, como seria de esperar”.
Nassif desmente tal versão: “a alegação de que eu não estava disponível quando a TV Cultura me chamava não é verdade. A negociação que fizemos ano passado – até em função da crise financeira da Cultura – era que eu teria participação esporádica lá”. Ele contou ainda que em dois dos episódios mais importantes da área econômica no ano passado – a explosão da crise e a fusão entre Unibanco e Itaú – “liguei para eles dizendo que eram fatos relevantes e eles disseram para não ir porque tinham outras prioridades”.
De acordo com o jornalista, “eu ligava sempre e dizia: ‘pessoal, vocês não vão me chamar?’”. Mas, a orientação do canal, disse, tem sido a de abordar temas leves. “Querem montar um jornal para competir com os das grandes redes, mas sem ter estrutura. E o diferencial da Cultura – que era aprofundar o tema, avançar nas informações – deixou de existir. A Cultura tinha várias caras e a partir do momento em que o Markun assumiu, ele esvaziou o canal de todas elas”.
Apesar dos sinais de distanciamento, Nassif foi convidado por Paulo Markun para uma reunião em dezembro, que não chegou a acontecer, na qual seria tratado o retorno do programa de Luis Nassif à grade do canal. “E de repente, nesta semana, disse que o contrato não seria mais renovado. Então, o que quer que tenha ocorrido, ocorreu entre o momento em que a reunião ia acontecer e agora”.
Para Nassif, a decisão veio de cima. “O Markun não tomaria sozinho essa decisão. E se em dezembro ele estava acertando ampliar minha participação, é evidente que a mudança de orientação se deveu a outros fatos”. Nassif declarou ainda que não vai “entrar em guerra com o Markun”, mas “ele é um cara fraco e não toma nenhuma decisão se não passar por instâncias superiores”.
Afastado da televisão e tido com um dos mais importantes blogueiros e jornalistas do país, Nassif não tem planos para continuar na televisão. E renova sua aposta: “praticar jornalismo está cada vez mais difícil. O caminho é a internet”.

 

De São Paulo,
Priscila Lobregatte