Estação da Musica Jovem. Hoje tem vencedor na praça.

Com o apoio da Prefeitura Municipal, a Vale trouxe a Governador Valadares uma oportunidade para que os jovens talentos musicais mostrem o seu valor. Realizado pela primeira vez na região, o “Estação da Música Jovem” dará R$ 3,5 mil ao melhor músico ou banda de cada cidade que o projeto está sendo realizado. Além de Governador Valadares, aconteceram edições em Ipatinga, Aimorés e Baixo Guandu (ES).

Durante os últimos três meses, os jovens inscritos no projeto participaram de oficinas e palestras sobre música, juventude e cultura em geral. Hoje (02/12), é o dia da edição em Governador Valadares, com shows na Praça dos Pioneiros, a partir das 19h30.

Os finalistas da cidade que concorrem ao prêmio são: Dalmi, Dom Gaspar e Viola D´Minas. No encerramento do evento terá a atração especial “Tambolelê”, de Belo Horizonte

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1968: entre a política e a cultura, jovens mudaram o mundo.

Por Jaqueline Deister*, da equipe do Observatório Jovem

 

A moda como forma de expressar os ideais de jovens.

Minissaia, calça Lee e sandálias franciscanas. De  indumentária despojada os jovens rebeldes de 68, se inspiravam nas idéias de Guy Debord, Jean Paul Sartre, no cinema da Nouvelle Vague, na música dolorosa de Janis Joplin e nos ideais revolucionários marxistas. De Norte a Sul do mundo, jovens clamavam por liberdade, independência em relação aos valores dominantes e igualdade. A efervescência política, cultural e comportamental marcou o ano de 1968

Os jovens mostraram de maneira inédita que podiam também ser protagonistas da História e mudar os valores da sociedade conservadora. Pílula anticoncepcional, luta estudantil, experimentação de drogas, rock e sexo sem culpa, são apenas algumas palavras-chave que definem o ano do “êxtase da História”, segundo o sociólogo francês Edgar Morin


Os jovens e a política no mundo


Num cenário tumultuado, o ano de 68 apresentou mudanças bem definidas no panorama político. Nos Estados Unidos a morte de um líder foi o estopim de mudanças. O pastor Martin Luther King liderou através da resistência pacífica a luta dos negros pela conquista dos direitos civis e o fim da segregação racial. Um outro movimento conhecido como Panteras Negras, também reivindicava pela igualdade de direitos, porém, lançava mão de ações agressivas contra o sistema de dominação branca. Os panteras tornaram-se mundialmente conhecidos nos Jogos Olímpicos do México, quando dois corredores americanos subiram ao pódio usando luvas pretas, e ergueram os punhos cerrados num gesto característico do movimento. Mas foi o trágico assassinato de Martin Luther King, que provocou o fim dos mecanismos de segregação racial inscritos na Constituição norte-americana.

Uma série de protestos eclodiu com a crescente participação dos Estados Unido Execução de um guerrilheiro vietcongs na Guerra do Vietnã. Cerca 40 mil soldados americanos morreram num ataque ao exército norte-vietnamita, em 1968. O episódio ficou conhecido como Ofensiva do Tet. A resposta da população as mortes de seus conterrâneos e as bombas de napalm lançadas pelas forças americanas na Indochina, vieram sob a forma de rejeição dos jovens à sociedade vigente na época. Nasce o movimento hippie, a contracultura que repudia a cultura de massa e instituições vistas como repressivas como, por exemplo, a família. “Se a sociedade americana era capaz de cometer um crime daquele vulto, atacando uma pobre sociedade camponesa no sudeste asiático, ela deveria ser rejeitada”, diziam os hippies.   

                                                            
Na Europa a atmosfera de insatisfação com a política implementada por alguns países, também incitou uma onda de protestos. Na antiga Tchecoslováquia um movimento composto por intelectuais reformistas do Partido Comunista Tcheco, interessados em “desestanilizar” o país, e remover vestígios de autoritarismo e despotismo que eram incompatíveis com a proposta do socialismo, ficou conhecido como Primavera de Praga. A breve experiência de uma “democracia”, comandado por Alexandre Dubcek na Tchecoslováquia, foi esmagada pelos tanques soviéticos sete meses após a sua implantação. Apesar de derrotado o movimento contribuiu para enfraquecer o bloco comunista liderado pela União Soviética, e as idéias defendidas pelos intelectuais de Praga foram resgatadas 20 anos depois com a criação da glasnost (transparência política) de Michail Gorbachov.
Na antiga Tchecoslováquia as manifestações eram contrárias ao comunismo ortodoxo, e se aproximavam cada vez mais de ideais sociais-democráticos aos moldes ocidentais. Em entrevista ao jornal O Globo, o historiador da UFRJ Carlos Fico fez uma análise sobre “o ano que não acabou. Fico salientou que na França há uma certa utopia socialista com a união estudante-trabalhador que acreditava ser capaz de derrubar o governo de Gaulle. Foi em Paris onde a expressão maio de 68 se consagrou.
Estudantes protestam nas ruas parisienses. PARIS, março de 1968. Estudantes parisienses descontentes com a disciplina rígida, os currículos escolares e a estrutura acadêmica conservadora organizam protestos que levam a ocupação da Universidade de Nanterre. A atitude agressiva da polícia para conter os estudantes gera revolta que contamina a Universidade de Sorbone e a população. Os motivos de protesto ganham dimensão nacional. Os manifestantes contestam o governo de Charles de Gaulle. Uma greve geral mobilizou 10 milhões de franceses. O país parou: não havia mais trens, metrô, combustível e as fábricas fecharam as portas.
Foi nessa conjuntura que surgiu a figura de Daniel Cohn-Bendit, ex-líder estudantil e atual deputado do Parlamento europeu pelo Partido Verde da Alemanha. Em 68, Cohn-Bendit liderou cerca de 10 mil estudantes da Universidade de Nantarre e Sorbone nas chamadas “barricadas” em que estudantes e polícia se enfrentavam diretamente. Os protestos logo se alastraram por toda a França e conquistaram adeptos que não tinham vínculo com a Universidade. Uma greve geral de 24 horas parou Paris no mês de maio. Os manifestantes criticavam nas ruas a política trabalhista e educacional do governo de Gaulle. Para se ter uma dimensão da greve, cerca de seis milhões de trabalhadores ocuparam 300 fábricas na França.

O espírito revolucionário do movimento estudantil, amparado nas ideologias de grupos maoístas, trokistas e libertários iniciou uma batalha em que as maiores “armas” foram as palavras. Com slogans expressivos como “É proibido proibir”, “Sejam realistas, peçam o impossível” e “E abaixo a sociedade de consumo” os jovens franceses romperam barreiras territoriais e influenciaram jovens de todo o mundo a se rebelarem contra os “padrões” conservadores da época.

    Daniel Cohn Bendit nos tempos de líder estudantil em Paris.                                                                                                                                                                                          

No livro recém lançado na França É proibido liquidar o espírito de maio? O ex-líder estudantil Cohn-Bendit   salienta a importância de 68 no terreno político, para ele a sociedade evolui no conceito de liberdade e de autonomia do individuo e um dos principais frutos, segundo Bendit, foi o movimento ecologista. O atual deputado ainda reforça a idéia de que os problemas da sociedade não podem ser solucionados por receitas prontas da esquerda, ou fórmulas mágicas da direita, mas sim, através de uma convergência entre os vários campos políticos.
No Brasil


No Brasil, o ano de 68 foi marcado pelo recrudescimento da ditadura militar devido ao Ato Institucional n0 5 (AI-5), durante o governo de Arthur da Costa e Silva. O assassinato do estudante Edson Luís no restaurante universitário Calabouço no Rio de Janeiro, marcou o período de intensas mobilizações contra o governo militar. Cerca de 50 mil pessoas acompanharam o enterro do estudante, que passaria para a História como sendo um dos principais símbolos das atrocidades cometidas nos Anos de Chumbo.
RIO DE JANEIRO, 26 de junho. Era uma tarde de quarta feira fria e com o sol fraco, quando o movimento estudantil, intelectuais, artistas, padres e mães se reuniram na Candelária, centro do Rio, em resposta à morte de Edson Luís. Os manifestantes davam o “tom” do maior protesto contra o regime militar no país, era a Passeata dos Cem Mil. “A marcha” foi tão forte que o próprio general Costa e Silva precisou abrir espaço para o diálogo.
Em julho, o en

tão general e presidente liberou fundos para o desenvolvimento do Projeto RonVelório do  corpo do estudante Edson Luís.don e recebeu uma delegação que reivindicava pela liberação de estudantes presos, a reabertura do restaurante Calabouço e o fim da repressão policial e de toda espécie de censura. “Saímos daquela passeata com a certeza da vitória, achando que a ditadura iria recuar”, lembra Ernandes Fernandes que assina o projeto gráfico do livro 68 Destinos do fotógrafo Evandro Teixeira e participou da Marcha dos Cem mil. O livro buscou reencontrar 40 anos depois, 68 rostos que foram contemplados pelas lentes do fotojornalista.
A abertura de um diálogo por parte do presidente foi apenas uma ilusão de que a ditadura “afrouxaria” as suas amarras. As exigências dos integrantes da passeata foram recusadas e o Ministro da Justiça Luis Antonio da Gama e Silva foi encarregado de tomar as medidas para reprimir a oposição e proibir qualquer manifestação contra o regime dos generais. 

Os jovens não deixaram de se organizar mesmo com a legitimação da repressão militar após a Passeata dos Cem Mil. Em outubro, dois meses antes da instauração do AI-5, os estudantes se reuniram em Ibiúna, interior de São Paulo, para o 30º Congresso da União dos Estudantes. Com forte marcação no movimento estudantil, a polícia descobriu a sede do encontro e prendeu cerca de 800 estudantes. Entre os presos estavam José Dirceu, Franklin Martins, Vladimir Palmeira e Luiz Travassos.
O Ato Institucional Número 5 foi promulgado em dezembro de 1968 como forma de conter a forte agitação Passeata dos cem mil no centro do Rio de Janeiro.política da população. Foram tomadas medidas polêmicas como o fechamento do Congresso Nacional por tempo indeterminado, a suspensão da possibilidade de qualquer reunião de cunho político e a censura prévia que se estendeu aos meios de comunicação, a música, ao teatro e ao cinema. O AI-5 vigorou até 1978 e produziu uma série de ações arbitrarias que davam ao governo o "direito" de punir os que fossem considerados “inimigos” do regime. O enfrentamento entre a esquerda armada e os militares tornou-se mais constante e violento nesse período. A expressão Anos de Chumbo foi usada pela Imprensa da época para designar o período da “linha dura” que foi inaugurado com o AI-5. A designação é uma paráfrase do título de um filme em português da cineasta alemã, Margareth Von Trota, sobre a repressão de um grupo revolucionário nos anos 70, conhecido como Facção do Exército Vermelho.

Com o endurecimento do regime a luta armada foi vista como a opção para setores mais radicalizados da esquerda da época. O historiador Carlos Fico, já citado, disse que a esquerda era muito idealista e por isso optou pela guerrilha urbana e rural. “Havia uma perspectiva muito ingênua, que era a de se contrapor ao Exército supondo que o povo acorreria para suas idéias”, disse Fico. Ele ainda afirma que essa perspectiva prevaleceu devido a um ideal romântico da juventude que se inspirava na recente vitória da Revolução Cubana para mudar o cenário político vigente na época.

A energia revolucionária que desabrochou há quatro décadas no Brasil e no mundo divide opiniões. Ex-guerrilheiro de esquerda durante a ditadura militar e atual deputado federal pelo Partido Verde, Fernando Gabeira, tem uma visão nada vanguardista em relação ao ano de 68 no Brasil. Gabeira disse a Revista Época que se arrepende de muita coisa, principalmente do seqüestro do embaixador americano pelo MR8 (Movimento Revolucionário Oito de Outubro). “A busca pela implantação do socialismo, a luta armada o seqüestro do embaixador americano foram grandes equívocos”, salienta o deputado. “Eu gostaria de sepultar esse período”, completa. Hoje com 66 anos Gabeira tem uma visão pragmática da política. Segundo ele a luta armada não só fortaleceu a ditadura, como deu de bandeja um pretexto para que o Presidente Arthur Costa e Silva promulgasse o Ato Institucional número cinco em dezembro de 1968.

Por outro lado há aqueles como o ex-líder do movimento estudantil José Dirceu que acreditam que o mundo seria muito pior hoje se o 68 não tivesse acontecido. Dirceu diz que os principais protestos civis da História recente do país só ocorreram porque o caminho foi traçado pelos rebeldes da sua geração. “Seriam exemplos dessa herança contestatória a campanha das Diretas Já e os Caras-pintadas que foram às ruas pedir o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello”, afirma Dirceu.
O ano em que a ditadura mostrou sua face mais sombria não foi contestado apenas com a luta armada por parte da esquerda. Os primeiros passos de muitos dos atuais representantes da política nac A repulsa à ditadura.ional foram dados nos palanques de sindicatos, nas salas de aula das Universidades e em sítios clandestinos no interior de São Paulo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um exemplo. Em 1968 ele se filia ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Com o passar dos anos, a sua atuação como sindicalista o tornaria uma figura nacionalmente conhecida. Outro exemplo foi em Ibiúna, interior de São Paulo, onde ocorreu o 30° Congresso da União Nacional dos Estudantes. Na época José Dirceu foi preso e incluído na lista dos que foram trocados pelo embaixador americano Charles Burke Ellbrick. Sociólogo de influência marxista e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, acabou impedido de lecionar no curso de Ciência Política na USP,  foi aposentado e exilado pelo AI-5.

Uma análise mais atual da conjuntura política do Brasil de 1968, feita pelo historiador Carlos Fico mostra que os dois setores, tanto esquerda quanto os militares tinham projetos autônomos de constituição das suas ideologias. Segundo Fico, o AI-5 é a vitória da linha dura que acreditava que uma operação radical de limpeza, eliminando os subversivos e o que entendiam por corrupção, transformaria o Brasil em uma grande potência. Já a esquerda, de acordo com Fico, queria optar pela luta armada e pela tomada do poder para a instalação de um regime socialista, mesmo antes do golpe. “Esses dois projetos não tinham perspectivas democráticas”, conclui o historiador.


Cultura e Comportamento


Mundo
Os protestos e manifestações marcaram o cenário político de 1968 em muitos países. A juventude tornou-se mais integrada e começou a intervir na forma de pensar e agir de toda uma geração. O “espírito libertário” traduzido por numa cultura underground não só criticou os governantes e a política adotada por eles, mas também o tradicionalismo dos valores familiares que ditavam as regras e normas.
Contagiado pela onda de contestação, o movimento feminista nos anos 60 foi às ruas não só para queimar sutiãs como forma de protesto contra a condição subalterna em relação aos homens. Mas principalmente para defender que a hierarquia de sexo não era uma fatalidade biológica, e sim uma construção social. O feminismo foi um dos primeiros movimentos a tocar na raiz cultural da desigualdade.

A atitude da mulher do final dos anos 60 refletiu diretamente no seu guarda-roupa. A mudança mais emblemática desse período foi a criação do smoking para mulheres do estilista francês Yves Saint Laurent (1936-2008). O “le smoking” foi uma provocação sexual dirigida à mulher que queria independência.
A expansão deA liberdade comportamental dos jovens hippies consciência pelas drogas, a luta pela paz, a liberdade sexual, o amor livre e a valorização da natureza. Esses foram apenas alguns dos itens defendidos pelo movimento mais expressivo da contracultura, que revolucionou a maneira de pensar e agir dos jovens de todo o mundo. Com trajes que chocavam os americanos médios da época, barbas e cabelos compridos, diversos jovens de diferentes níveis sociais rejeitavam a sociedade de consumo norte-americana e passavam a viver em comunidades rurais ou em bairros separados onde todos os “ditames” capitalistas eram deixados de lado. Os hippies não se caracterizaram por uma postura política engajada, eram contra "o sistema" e o "poder", pregavam o pacifismo e criticavam a intervenção militar, principalmente a Guerra do Vietnã, porém não mostravam grande interesse em alterar os rumos políticos dos EUA.
A explosão do movimento hippie abriu portas para a entrada de novos conceitos que redefiniram estéticas e padrões. A globalização começou a mostrar que a passos largos deixaria as “comunidades igualitárias” dos hippies para ganhar o mundo, e por “ilusão do destino”, se tornar um dos maiores símbolos do capitalismo contemporâneo. Um exemplo da ruptura de padrões foi a filosofia oriental que passou a ser mais valorizada pelo Ocidente. Religiões consideradas esotéricas como o budismo e o hinduismo foram fundamentais para a “desconstrução” da moral do americano médio. 

Os hippies exaltavam o uso de determinadas drogas como o LSD, a maconha e o haxixe. Eles acreditavam que a maconha possuía um caráter espiritual, principalmente por ser proveniente da natureza. Já o LSD, era mais conhecido por ser uma droga recreativa, usada para expandir a consciência. Segundo Timothy Leary (1920-1996), pioneiro e defensor do uso do ácido psicodélico e muito admirado pelos hippies, a experiência psicodélica era uma viagem ao novo domínio da consciência. Para Leary, o alcance e conteúdo da experiência são ilimitados, mas as suas características são a transcendência de dimensões do espaço-tempo, e do ego ou de identidade. Celebridades como John Lennon foram influenciadas pelas obras literárias de Timothy. Lennon escreveu “Amanhã nunca se sabe” que foi lançado no álbum dos Beatles Revolver baseado em O psicodélico: A experiência, de Leary.

Curioso também foi o que Abbie Hoffman, conhecido como o maior símbolo da contracultura nos EUA, fez junto com outros hippies no Dia dos Namorados de 67. Hoffman enviou pelo correio três mil baseados de maconha para moradores de New York, escolhidos aleatoriamente pela lista telefônica. Junto à marijuana havia uma carta que dizia: “Você já leu muito sobre isso, agora se quiser experimentar, aqui está. Mas, ps: apenas por segurar isso você pode pegar cinco anos de prisão”.
Toda essa inquietação e ousadia se transformaram em epidemia que varreu o universo aJimi Hendrix e seus memoráveis showsrtístico sem limites. Cinema, música e teatro tornaram-se os primeiros meios a compreender a nova forma de expressão dos calorosos jovens de 68. Na música, Jimi Hendrix levou os seus ouvintes a um passeio pelo mundo das percepções expandidas, suas performances agressivas com sexualidade explícita aliada a sua maneira única de tocar guitarra, chocou até quem já estava familiarizado com as “loucuras” da juventude.

Em entrevista ao jornal O Globo, Ezequiel Neves, crítico de música em 68 e mais tarde produtor do Barão Vermelho e Cazuza falou da sua “experiência” com Hendrix. “A sensação era a mesma de que ficar em frente a um animal selvagem. Eu achava que estava preparado, sabia de todas as histórias, que botava fogo na guitarra, mas, ali, solto no palco, era amedrontador. Foi como um estupro, provocava um curto-circuito na gente, com sua carga explosiva de musicalidade e sexualidade”, disse Neves. Hendrix causou polêmica até na sua morte. O cantor foi encontrado morto asfixiado em seu próprio vômito.

A predileção dos jovens de 68 pela irreverência não está só na “animalidade” de Hendrix, na voz melancólica de Janes Joplin ou na mistura de gêneros do Led Zeppilin. O escandaloso musical Hair estreou no teatro da Broadway em 1968. Com cenas de nudez, apologia às drogas e estética hippie, o musical tornou-se símbolo e influência para toda uma geração, que não se restringia somente aos Estados Unidos. As montagens da peça foram feitas também no Brasil, na Alemanha, Israel, França e Japão.
O palco e as telas foram os primeiros a entender e refletir o anseio dos jovens que estavam por trás de  O cineasta francês Jean Luc Godard.slogans como: “Sejam realistas. Peçam o impossível”. Se de um lado Jimi Hendrix fazia o inimaginável nos palcos, do outro Godard desconstruia o cinema clássico narrativo com montagens descontínuas e dilemas do século XX. Os jovens franceses se identificavam muito com o cinema chamado de Nouvelle Vague, os principais representantes desse movimento eram Jean-Luc Godard, François Truffaut, (1932-1984) e Claude Chabrol. Esta nova forma de fazer cinema surge na França e se caracteriza por uma rejeição ao cinema comercial e a toda sua estrutura. Os cineastas, assim como Hendrix, provocavam o público através do experimentalismo que questionava o limite existente entre a tela e o espectador.
Não só de experimentalismo foi a Nouvelle Vague. A política foi o alvo de cineastas como Godard que após o movimento estudantil de maio de 68 criou o grupo Dziga Vertov (nome do cineasta russo criador do cine-olho e precursor do chamado cinema verdade). No grupo de Gordad participou o ex-líder estudantil francês Cohn-Bendit que chegou a colaborar com um roteiro. Filmes como Pravda (1969) abordavam a invasão soviética na Tchecoslováquia, outros como Week-end à Francesa (1967) acabou com a moral da sociedade consumista. Godard é considerado um dos principais personagens do cinema em 68, segundo o jornalista Zuenir Ventura, o filme A Chinesa (1967) foi uma revolução na linguagem cinematográfica que prenunciou o maio de 68.
Brasil


Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré e Chico Buarque na música, Hélio Oiticica e Lygia Clark nas artes plásticas, Glauber Rocha e Rogério Sganzerla no cinema, Ferreira Gullar na poesia, Augusto Boal e José Celso Martinez Corrêa no teatro. Esses foram apenas alguns dos nomes presentes até hoje na cultura brasileira que deram “o rosto” ao movimento da contracultura no país. Repletos de criatividade, esses vanguardistas driblaram e enfrentaram a censura para cantar, representar e escrever. O ano de 68 foi “emblemático”, passou para o Brasil como o período de maior e melhor produção de conteúdo artístico, ao mesmo tempo que é lembrado pelo lado mais obscuro da política nacional.

Considerado o gesto inaugural da contracultura no Brasil, a Tropicália teve o seu lançÁlbum Tropicália ou  panis et circenseamento com o disco-manifesto “Tropicália ou panis et circense” em 1968, participaram do movimento Gil, Nara Leão, Caetano, Os Mutantes e Tom Zé. A mistura do clássico com o baião, do progresso com o atraso e a polêmica causada pelo movimento começou em 1967 durante o III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. As apresentações de Domingo no parque (Gilberto Gil) e Alegria, Alegria (Caetano Veloso), não agradaram nem um pouco a “linha dura” do movimento estudantil que considerou a guitarra elétrica e o rock símbolos do imperialismo norte-americano.
O confronto entre tropicalistas e estudantes foi pior durante uma apresentação no III Festival Internacional da Canção, no teatro da Universidade Católica de São Paulo. No palco com os Mutantes, Caetano cantava a canção É Proibido Proibir, quando foi agredido com ovos e tomates por estudantes radicalistas que estavam na platéia. O compositor reagiu, e desafiou os jovens: “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?”.

A influência do movimento também ficou evidente em dezenas de canções concorrentes no IV Festival de Música Popular Brasileira , que a TV Record começou a exibir em novembro. As canções de Tom Zé como São São Paulo, O Parque Industrial e 2001 além de terem ótimas colocações nos festivais, compunham o retrato alegórico de um país ao mesmo tempo moderno e retrógrado
O movimento antropofágico de Oswald de Andrade, o concretismo e o pop art influenciaram a criação da Topicália. A idéia do Antropofagismo de “digerir” a cultura exportada dos Estados Unidos e Europa e reinventá-la aos moldes nacional foi o fundamento do movimento. Os tropicalistas acreditavam que a experiência estética por si só já era um instrumento social revolucionário. Membro do movimento, Torquato Neto resumiu a importância da estética para os vanguardistas, “ou você mexe com a forma ou não mexe com nada”, disse o músico.

O jornalista Luiz Carlos Maciel, um dos fundadores do jornal O Pasquim, tem dúvidas quanto à relação direta entre tropicalismo e contracultura. “Embora não se possa fazer a relação tropicalismo contracultura, a Tropicália usou uma liberdade que era sugerida, nas roupas, nas atitudes, no palco e no próprio espírito que animou muitas músicas”, afirmou Maciel. É inquestionável a revolução de padrões que o tropicalismo causou na sociedade brasileira. Em entrevista a Marcelo Tas no site UOL, o jornalista e autor do livro Tropicália – A História de uma Revolução Musical , Carlos Calado disse que o movimento foi uma idéia de se captar um pouco de tudo o que acontecia no mundo em 68. “Na verdade foi um espírito de uma determinada época”, ponderou Calado.
A música não foi o único universo por onde a Tropicália “fincou” raízes. O tropicalismo influenciou e foi influenciado também pelo cinema, pelas artes plásticas e pelo teatro. O filme Terra em Transe, por exemplo, de Glauber Rocha e a peça O Rei da Vela de José Celso Martinez Corrêa, tocou Caetano Veloso que acreditou existir nessas montagens algo de “vivo” que merecia ser explorado na música.

Ao poucos Glauber, Oiticica e Martinez Corrêa aderiram a corrente tropicalista, e peças como Roda Viva de Chico Buarque viraram escândalo de montagem e bilheteria. A atriz Marilia Pêra era uma das estrelas da peça e em depoimento a Revista Época contou sobre a sua participação e a repressão pelo Comando de Caça aos Comunistas que os atores sofreram por encenar o espetáculo. “Eu não era nem de esquerda e nem de direita e mesmo assim entraram 50 homens na minha casa para me prender”, contou Marilia, que foi presa duas vezes e chegou a ser obrigada a passar nua por um corredor polonês durante uma das incursões dos militares ao Teatro Ruth Escobar.

O filme marco do cinema marginal.Em 68 Glauber Rocha já era o maior cineasta brasileiro, no entanto o longa-metragem mais emblemático da contracultura pertence a Rogério Sganzerla. O filme O bandido da luz vermelha (1968), ousou ir além da estética proposta pelo Cinema Novo e lançou um novo estilo, o Cinema Marginal. Sganzerla, na época com apenas 22 anos, queria fazer um filme que fosse ao mesmo tempo revolucionário e de grande êxito comercial. “Existe um humor cáustico e oswaldiano forte em sua obra”, disse Helena Ignez que participou do elenco e mais tarde tornou-se mulher de Rogério. Apesar de diferenças estéticas Glauber e Sganzerla tinham aproximações.
A grande mídia ao fazer uma retrospectiva do cinema brasileiro de 68 enfatizou apenas o Cinema Novo e Marginal e se esqueceu de realizações simbólicas como: Como vai, vai bem? (1968), do grupo Câmara. Por ir na contra-mão do cinema novo ao não exaltar o lado trágico da pobreza, mas sim mostrar o lado cômico dos típicos personagens populares como o calouro do Chacrinha, o travesti e o fanático torcedor do Flamengo, tais realizações não foram lembradas pelos Segundo Caderno, Caderno B e Ilustrada, mas a importância desses filmes, não deixa de ser celebrada em circuitos alternativos como o cine clube sala escura da Universidade Federal Fluminense, que exibiu o filme em comemoração aos 40 anos de maio de 68.

O Grupo Câmara era formado por jovens da esquerda de diferentes tendências que queriam mostrar o universo dos pobres. O diretor de Como vai, vai bem? E um dos fundadores do grupo, Alberto Salvá, disse que o filme foi boicotado pelo cinema novo. Por ter um “tom” de comédia, muitos consideraram o filme sem um conteúdo crítico. Membro do antigo Grupo Câmara, Daniel Chutorlanscy salienta: “No meio de uma ditadura fazer um filme com este nome e a censura não barrar, por si só já foi uma critica”. O Professor do curso de Cinema da Universidade Federal Fluminense, José Carlos Monteiro, ressaltou a importância de Como vai, vai bem? Para revelar o cinema carioca e consolidar o universo alternativo em relação o cinema novo.
A genialidade de Chico Buarque de Hollanda que se destacou de inicio como autor de

Chico Buarque de Holanda e o  MPB4. Roda Viva em 68, começa a dar os primeiros passos rumo à música. Durante os Anos de Chumbo, Chico destaca-se pelo tom político que empresta a sua obra. Músicas como Apesar de você e Cálice (parceria com Gilberto Gil) afrontaram a Ditadura militar e o presidente Médici. Para driblar a censura que endureceu a tal ponto de vetar qualquer publicação que tivesse o nome Chico Buarque, o compositor passou a assinar as músicas com o pseudônimo de Julinho da Adelaide, composições como Jorge maravilha e Acorda Amor nos anos 70 passaram pelos censores sem restrições, só anos depois foi descoberto o verdadeiro autor.
O ano de 1968 é paradigmático por acontecimentos inéditos que mudaram o curso da História Contemporânea, por demonstrar a conexão dos fenômenos sociais de um mundo que já se encontrava globalizado. Mas principalmente por confirmar que os campos da política e da cultura, ainda que relativamente autônomos, são interdependentes entre si.

A releitura do passado mostra também que as mobilizações não eram “da juventude” como um todo, mas sim de grupos de jovens e vanguardas artísticas, culturais e políticas. É por isso que deve-se desconfiar das análises anacrônicas que mitificam a “juventude de 68” – uma minoria significativa e mobilizada – comparando-a com  a "juventude de hoje" (todos os jovens?) que seria mais apática, consumista e alienada.
Um artigo sobre um ano tão contraditório e efervescente que legitimou todo o ideal dos chamados jovens rebeldes, não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo; jovens  que foram às ruas contra os governos, pegaram em armas contra a ditadura, defenderam os direitos de minorias e o meio ambiente; praticaram sexo livre, usaram drogas; abusaram da irreverência e desmascaram a hipocrisia da sociedade conservadora, merece ser concluído com duas provocações que podem ajudar a traduzir o espírito libertário daquela época. Assim, pergunta-se: o quê fere mais o autoritarismo: a pedra que arrebenta as vidraças? Ou a poesia que arrebata multidões?

WOODSTOCK – 40 ANOS

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A pobreza, a injustiça, o racismo e o belicismo estavam à solta na “terra da liberdade” e no “lar dos bravos”. E, então, surgiu a Nação Woodstock com seu grito
libertador.

A utopia libertária de Woodstock, 40 anos depois, permanece viva. E volta e meia é reativada pela celebração daqueles três dias de paz e muita música que entraram para a história do século XX. O poder do som e a força das imagens do maior festival de todos os tempos transcenderam as terras da fazenda de Max Yasgur, em White Lake, na cidade de Bethel, Condado de Sullivan, Nova York, e ganharam impulso com os lançamentos de discos e de um documentário. A cada reedição comemorativa, os ritmos e as imagens da Feira de Arte e Música de Woodstock ampliam a reflexão sobre a transformação de costumes desencadeada nos dias 15, 16 e 17 de agosto de 1969.

No livro Back to the garden – no Brasil, Woodstock –, lançado pela editora Agir, o radialista norte-americano Pete Fornatale mergulha nas impressões de mais de uma centena de personagens que estiveram lá, nos bastidores, no palco, na produção, na grama, na lama, e abre um diversificado leque de opiniões sobre o evento que sacudiu a América. E dá voz a alguns analistas do fenômeno Woodstock.

Também marcando as quatro décadas do evento, Woodstock – 3 Days of Peace & Music é uma nova edição, em quatro DVDs pela Warner, do documentário Woodstock – Onde Tudo Começou, de Michael Wadleigh, a síntese visual e sonora do maior ícone do movimento hippie. Uma série de CDs ainda joga mais lenha na fogueira, despertando o interesse na música que abriu alas para eternizar Jimi Hendrix, Santana, Joe Cocker, Richie Havens, Joan Baez, Janis Joplin, Sly & The Family Stone, Country Joe And The Fish e muitos mais.

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A Rhino Records – Warner lançou a caixa de seis CDs, Woodstock – 40 Years On: Back to Yasgur’s Farm, com 77 músicas, sendo que 38 estavam inéditas em disco. As trilhas sonoras Music From the Original Soundtrack and More: Woodstock e Woodstock 2 também foram remasterizadas e relançadas. E a Legacy / Sony Music articulou a coleção de cinco CDs duplos Woodstock Experience, reunindo álbuns originais de 1969 de Janis Joplin, Johnny Winter, Santana, Jefferson Airplane e Sly & the Family Stone e as performances completas de cada um no festival. E, nos Estados Unidos, o Bethel Woods Center for the Arts e o Museum at Bethel Woods ocupam parte da fazenda de Max Yasgur, reúnem a memória do festival e trabalham para que a “volta ao jardim” continue viva.
Pete Fornatale assegura que o festival, sem qualquer intenção prévia, se tornou um manifesto, um símbolo das mudanças que borbulharam na primeira metade e transbordaram durante a segunda metade dos anos 60 nos Estados Unidos. No livro, ele levanta a questão sobre tudo o que rolou durante as 65 horas de som no evento que redefiniu a cultura e os valores de toda uma geração e lançou sementes para além de seu tempo: “Woodstock foi, sem dúvida, o marco principal da grande revolução jovem da época, uma onda de transformação musical, política e social”. A empreitada idealizada por Michael Lang, Artie Kornfeld, John Roberts e Joel Rosenman nasceu de um encontro a partir de um anúncio de jornal e transformou a música e o comportamento do século XX.

O músico Graham Nash sintetizou: “A lenda e o mito de Woodstock se tornaram maiores do que a sua realidade. Foi inegavelmente um tremendo evento social. Muita música de qualidade. Muita diversão para muita gente. Acho que, à medida que o tempo passou, a lenda, o mito de Woodstock, se tornou maior do que a realidade”. A antropóloga Margaret Mead viu tudo como um fenômeno sociológico e assegurou na revista Red, na época, que foi uma confirmação de que esta geração tem, e compreende que tem, sua própria identidade. E David Crosby, em seu livro Stand and Be Counted, deu uma pista: “não foi um evento político no sentido tradicional do termo, mas foi tão grande que teve um impacto político semelhante”.

Muitas controvérsias marcaram o festival. Talvez a maior delas é quanto ao número de gente que conseguiu reunir, 400 mil, 500 mil. Pouco importa, era um mar de gente. O certo é que às 17h7min da sexta-feira, 15 de agosto de 1969, uma onda humana como nenhuma outra nos anais da história, como descreve Pete Fornatale, ouvia os primeiros sons de Richie Havens, que fora escolhido na hora para abrir o festival num vôo solo ao violão.

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Quase três horas depois, já exausto, o músico continuava no palco, a pedido da produção, e não sabia mais o que cantar, já cantara tudo, quando veio a inspiração: “Olhei para a platéia e não conseguia ver o fim dela porque, como se vê no filme, é gente até onde se consegue enxergar. Então olhei para cima e disse ‘liberdade não é o que eles fazem a gente pensar que é, nós já a temos. Tudo que devemos fazer é exercê-la, e é isso que estamos fazendo bem aqui’. Então comecei a tocar umas notas procurando alguma coisa e a palavra saiu, ‘freedom’, e aí, claro ‘Motherless child’, que eu não cantava há uns seis, sete anos, surgiu. Depois apareceu uma parte de uma canção que eu costumava cantar quando tinha 15 anos e entrou no meio. Foi assim que juntei tudo”.
Fornatale esclarece que a performance de Richie cristalizou e iluminou a verdadeira razão subjacente para que aquele meio milhão de pessoas se reunisse ao toque de uma única palavra, repetida mil vezes e ecoada pela multidão: “Freedom, freedom, liberdade, liberdade”. A performance de Havens hipnotizou e seduziu a massa e o músico, segundo Fornatale, parece em transe, transformado, transportado: “ele ainda é a maior encarnação viva do ethos de Woodstock”.

Para o escritor e crítico Bob Santelli, Havens salvou o dia do festival. Mas ainda no primeiro dia nasceu uma inesperada estrela solo, Country Joe McDonald, uma inclusão tardia no elenco. O Fish estava escalado só para o domingo, Joe chegou cedo para curtir a abertura do festival, na sexta, e dava bobeira na lateral do palco, quando o apresentador e gerente de produção, John Morris, resolveu convocá-lo. E Joe soltou logo uma adaptação de um grito de guerra que usara antes e soletrou a palavra fuck no lugar de fish. Segundo o coordenador artístico, Bill Belmont, quando soou “Me dá um F!”, todo mundo sabia o que ia acontecer. O que veio depois está no filme, a multidão inteira gritando fuck, uma palavra proibida na América até então. “E, claro, não é só a palavra, mas o significado por trás dela”, esclarece Santelli: “todas as regras e leis tinham ficado do lado de fora dos portões”.

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Na opinião de Santelli, “quando se pensa em Woodstock e nas canções da Guerra do Vietnã, se pensa na apresentação de Joe. Foi lendária e importante. Ele se impôs. Foi uma das poucas vezes em que a política foi realmente convidada ao palco e realmente aceita. De modo geral, Woodstock não foi sobre política. Não foi sobre o que estava acontecendo no mundo, as coisas ruins. Foi sobre a criação de um novo mundo, uma nova identidade, uma nova nação, a Nação Woodstock. Não foi sobre tentar resolver a Guerra do Vietnã ou sobre se manifestar e mandar uma tremenda mensagem ao mundo careta e ao governo americano de que queríamos que a guerra parasse. Ainda assim, Joe, da única maneira que ele podia fazer, conseguiu adicionar um elemento político que foi aceito”.

A pobreza, a injustiça, o racismo e o belicismo estavam à solta na “terra da liberdade” e no “lar dos bravos”, assegura Fornatale; afinal, nenhum tema revelou mais o crescente abismo nos Estados Unidos do que o Vietnã: “ao mesmo tempo em que esta geração estava abraçando sexo, drogas e rock’n’roll, aprendia a suportar o choque e o trauma dos assassinatos, os distúrbios e a brutalidade policial. Eram essas as nuvens que pairavam sobre Woodstock, e nada tinham a ver com o tempo”.

A crítica de rock, Ellen Sander, aponta uma pista: “o ano anterior tinha sido muito tumultuado, com muita violência no país e muitos distúrbios. Havia um grande descontentamento no ar, e ele acabou achando um lar em Woodstock. Acho que os assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy e os distúrbios na Convenção Nacional Democrata criaram o clima e as condições para algo assim. Nós, boomers, crescemos em circunstâncias únicas e fomos atingidos por um monte de coisas que não atingiram as gerações anteriores. A Guerra do Vietnã, todos achávamos ser um conflito injusto e não declarado. Houve muitos protestos contra a guerra. Não creio que alguém jamais saberá a resposta do mistério de Woodstock não ter degringolado em caos e violência – porque todos os elementos estavam a postos – mas, em vez disso, foi muito pacífico. Na época, a gente sentiu que era uma espécie de destino, que seria um caminho para o futuro – de cooperação pacífica, espírito de comunidade, tribalismo, essas coisas. Não saiu bem do jeito que a gente esperava (risos), mas pelo menos existiu naquele fim de semana”.

O diretor Michael Wadleigh aponta Sly Stone como o músico que conquistou a maior reação da platéia no festival. “Quando Sly disse, ‘I wanna take you higher’ (Quero te levar mais alto), a multidão ficou frenética, quando falou, ‘Dance to the music’ (Dance para a música), não havia como deixar de dançar. A música era mais do que poderosa. Sly & the Family Stone capturaram a essência do festival”. E Fornatale conseguiu de Roger Daltrey, do The Who, uma emocionada lembrança: “O sol nascendo em ‘See me, Feel Me’ é a melhor. Quer dizer, foi uma experiência incrível. Assim que as palavras ‘see me’ saíram da minha boca no final de ‘Tommy’, aquele enorme e vermelho sol de agosto começou a surgir no horizonte sobre a multidão. É um show de luz imbatível”. Daltrey ainda esclareceu: “o sucesso e a importância de Woodstock é que foi um triunfo humanista. A platéia foi a estrela”. E Pete Townshend também arrematou: “O que aconteceu depois do show de Woodstock foi milagroso. Todo mundo foi em frente e a América é um país melhor por conta disso”.

Por sua vez, o músico e editor Stan Schnier argumentou: “nada naquele filme se aproxima da energia de Carlos Santana. Foi uma espécie de experiência fora do corpo ver esses caras. Eles eram muito jovens e incendiários. É uma dessas convergências maravilhosas, existia alguma coisa sobre Carlos Santana na época que parecia de outro planeta”. Joe Cocker também ganhou notoriedade depois “do rolo compressor da pièce de résistance que fechava sua performance, uma recriação única de ‘With a Little Help from My Friends’, a canção de John Lennon e Paul McCartney”. Para Michael Wadleigh, “Cocker faz tudo, está dentro daquilo. Ele é um bom exemplo de porque a música dos anos 60 e a década de 60 duraram e presumivelmente vão durar para sempre. São performances e músicas verdadeiramente emotivas, comoventes e fundamentais”.
O encerramento do festival, já na manhã da segunda-feira, 18 de agosto, foi apoteótico, apesar do público reduzido que ficou para ouvir Jimi Hendrix e o grupo experimental Electric Sky Church. Depois de tocar por cerca de duas horas, Hendrix deu o golpe final e tocou a Guerra do Vietnã nas cordas da sua guitarra branca, com direito a toque de recolher, estouro de bombas, metralhadoras disparando e o barulho de helicópteros no céu. Sua interpretação visceral do hino norte-americano Star-Spangled Banner simbolizou toda a essência de Woodstock. A Nação Woodstock, enfim, dava seu grito libertador. Daí em diante, é história.

No Brasil, pai e filho avaliam o fenômeno. O psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg e o analista da arte anarquista Leonardo Goldberg refletem sobre o festival. Para Jacob, “no imaginário e no simbólico, Woodstock foi a resposta do inconsciente coletivo da humanidade à repressão que culminou com o nazi-fascismo e as ondas conservadoras em todo o mundo (inclusive da esquerda stalinista). Foi o dia em que o superego dançou. A liberação do Id abriu os territórios do prazer, rompendo com os tabus e inaugurando a liberdade enquanto esperança. Embora, posteriormente, cooptado e desfigurado – pelo capitalismo e pela droga – historicamente, o indivíduo num instante épico e dramatizado levou a imaginação ao teatro existencial”. E, segundo Leonardo, "sob um viés piagetiano, se a espécie humana pudesse ser concebida como um único indivíduo, o festival de Woodstock seria sua fase rebelde, a adolescência, o divisor de águas que marcaria a concepção de liberdade num caráter macro”.