Para OsGemeos, falta o básico nas metrópoles: "grafite é superficial"

Dupla de grafiteiros fala ao iG Jovem sobre problemas sociais, início de carreira e o universo paralelo que criaram em muros e telas

Nas paisagens de Tritrez, o universo paralelo criado pelos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo (conhecidos como a dupla de grafiteiros OsGemeos), a crítica ao poder sempre esteve presente. Mesmo que de forma indireta, irônica. E, em época de eleições, essa crítica fica mais aguçada do que nunca – como dá para ver na galeria de fotos ao lado. “O mínimo que a população deveria ter [nas cidades] é segurança, educação, saneamento”, afirmam. “Grafite é superficial nesse cenário”.

No ateliê da dupla: "Não focamos nosso trabalho só no grafite", contam
O iG Jovem bateu um papo exclusivo com a dupla, que hoje transcendeu o grafite e é um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira. Eles falaram sobre pedir latas de tinta no começo da carreira, sobre a exposição íntima que é fazer arte em muros e sobre uma recente batida de cabeça entre arte e eleições. Confira.
iG Jovem: Vocês viram que a organização da Bienal de São Paulo teve de cobrir uma obra do argentino Roberto Jacoby que retrata Dilma e Serra? (O TSE considerou que ela fazia política em espaço público, o que é proibido. A obra ficará coberta até o final da mostra, em 12 de dezembro)
OsGêmeos: É que aqui (o Brasil) é muito careta. Imagina, numa Bienal de Arte, você ter que tirar a arte de lá?! Tirar o ca*****.
iG Jovem: Se pudessem escolher um monumento ou lugar para grafitar, qual seria?
OsGemeos: A toda hora e em todo lugar a gente enxerga um mundo diferente. Achamos que a cidade inteira deveria respirar arte. Tudo deveria ser diferente. Mas há muitas outras coisas importantes para mudar nas metrópoles, além da necessidade de fazer um grafite num lugar marcante. Você sabe como são as cidades grandes. O mínimo que a população deveria ter é segurança, educação, saneamento. O básico. Grafite é superficial nesse cenário. Estamos decorando a cidade. É pouco. O legal é não ficar quieto, não estar conformado.
iG Jovem: Comparado com a época em que vocês estavam começando, dá para dizer que hoje é mais fácil conquistar notoriedade na street art?
OsGemeos: Hoje é super rápido e global. A internet facilita. A gente demorou 10, 15 anos para começar a vingar. Claro, tem um lado bom nisso, mas vemos que é preciso tomar um pouco de cuidado com essa facilidade. E não é uma questão de banalizar a arte. É de você não se enganar. Não se iludir. Porque a arte é séria em todos os gêneros. Você está se comunicando, se expondo. É você ali. Sua alma. E as pessoas estão vendo o que você está fazendo. Observando a sua essência materializada. E isso tem certo poder. O poder de influenciar outras pessoas. Fazer alguém se divertir, se emocionar.
iG Jovem: Mas a exposição através da internet está criando essa certa ilusão?
OsGemeos: Não, não achamos que seja assim. É pessoal mesmo. Você com você mesmo. É muito fácil você criar um personagem e fazer dele algo famoso. Vai do que você quer. Mas, se o objetivo é se encontrar através da arte, nós vemos que requer muito tempo de estudo e dedicação. No nosso caso, nós não fomos atrás da satisfação do ego, e sim da satisfação através do desenho.

Fama não motiva: "A arte é um alimento espiritual, uma necessidade"
iG Jovem: Depois de todo o reconhecimento internacional, dá para dizer que vocês são os expoentes da arte contemporânea no Brasil? Vocês se enxergam assim?
OsGemeos: Longe disso. A gente encontrou na arte um jeito de poder se sentir bem, realizar o que sempre imaginou. Desde criança a gente pensa o que a gente pinta. As coisas aconteceram naturalmente. Não visualizávamos ser grafiteiros para poder fazer uma exposição e viajar.
iG Jovem: Como era no começo?
OsGemeos: A gente colecionava a arte. Íamos às bibliotecas, achávamos um livro, uma figura, um grafite, aí a gente arrancava a página e levava para casa para admirar. Era tudo meio difícil. Aconteciam uns encontros de hip hop na Praça São Bento (em São Paulo) e nós frenquentávamos para dançar break, cantar rap. Na época quem grafitava era a geração ‘Tupinãodá’, com o Rui Amaral, o Zé Carratu e outros. Só que buscávamos outro estilo de grafite. Aos fins de semana, saíamos pela cidade fazendo murais junto com o Speto, Vitché, Binho e Tinho. E ao contrário da maioria, que pintava de noite porque tinha uma discriminação, a gente se aventurou e foi pintar de dia. Aí a polícia parava e perguntava: ‘Tem permissão?’ E a gente: ‘Claro’. Pô! Tínhamos nada. E foi legal porque criou uma autenticidade.
iG Jovem: Mas e as tintas? De onde vinham?
OsGemeos: Saíamos pedindo. Pedíamos para os funileiros. Também sempre moramos num bairro que possui muitas gráficas e os caras davam o que podiam para a gente. Resto de tinta, lata de spray. Aí passávamos no supermercado para pegar bico de desodorante e colocar no spray para poder ter um traço diferente. Era tudo na improvisação. Não é que nem hoje. Você vai numa loja de pintura e encontra uma variedade de produtos para poder fazer o seu grafite.
iG Jovem: Nesse contexto, qual a dica que vocês dão para quem está começando na arte?
OsGemeos: Poxa, é muito pessoal. Vai de cada um. Acreditamos que a arte é um instrumento que pode ser uma fuga, um alimento espiritual, uma necessidade. E não importa se é grafite, música, circo, dança, teatro. Ou se é contemporâneo, ou afro. O lance é você ter um motivo de estar fazendo isso. Não é uma coisa ‘Pô, se ele deu certo, eu também quero dar’. No nosso caso, precisamos da arte para poder falar com as pessoas. Ter dado certo foi uma consequência. Se tivermos que falar algo é para as pessoas correrem atrás dos seus sonhos.

"Sempre criamos, desde criança, em caixas de papelão, madeira da feira…"
iG Jovem: Como é o desafio de sair dos muros para as obras e as telas?
OsGemeos: É simples. Não focamos nosso trabalho só no grafite. Viemos daí, mas nunca fomos só grafite. Sempre tivemos um leque e canalizamos. Sempre criamos, desde criança, em caixas de papelão, caixas de madeira da feira, com papel machê. Sempre quisemos experimentar outras formas de expressão. Vídeo e animação também. O tridimensional completa o que a gente quer transmitir no nosso trabalho. Facilita um pouco mais para quem aprecia e quer entender esse hiato que passa na nossa cabeça. Nossa percepção de tudo.
iG Jovem: Depois de Tritrez [o universo paralelo criado pelos irmãos], ainda há espaço para outro mundo da cabeça OsGemeos?
OsGemeos: Não, é esse. É uma coisa mais espiritual nossa. Existe, claro, outros universos que a gente quer conhecer, quer explorar. Mas esse é a nossa base, nossa essência, de onde vêm as nossas criações. Esse é o nosso universo paralelo.

Fonte: IG

Patrícia Amorim: “Aqui, o Bruno não joga mais”

A presidente do Flamengo, em entrevista exclusiva a ÉPOCA, diz que vai processar o goleiro por perdas e danos e pretende demiti-lo por justa causa, seguindo a orientação dada nesta sexta-feira (16) pelo conselho de juristas convocado pelo clube: “Ele não é o modelo que queremos aqui na Gávea”

RUTH DE AQUINO

 Daryan Dornelles
PATRÍCIA AMORIM, presidente do Flamengo

Quando foi eleita em janeiro a primeira mulher presidente do Flamengo, Patrícia Amorim, mãe de quatro filhos, de 3 a 13 anos, encarou um time cheio de moral, campeão brasileiro pela primeira vez em 17 anos. No dia seguinte à posse, ela recebeu um telefonema com um alerta: “O Bruno está dizendo que o time não vai entrar no ônibus enquanto não receber o resto do prêmio”. Patrícia diz que dobrou a manga da camisa social, desceu de seu escritório e encontrou Bruno “com aquela cara de mau, meio teatral”. Explicou que ia investigar o que tinha acontecido e mandou todo mundo entrar no ônibus para treinar. Eles obedeceram.

Patrícia achava que seu jeito de professora conseguiria conter a indisciplina no Flamengo: “Eu abomino essa permissividade”. Eram atrasos e faltas de alguns jogadores que, segundo ela, “se julgam inatingíveis”. Ou se julgavam. Com a prisão de seu ex-capitão Bruno, o clube decidiu incluir nos contratos uma cláusula exigindo “conduta ilibada dentro de fora de campo” (leia a cláusula ao fim deste texto), compatível com a imagem que o Flamengo quer passar a seus 33 milhões de torcedores. Se o atleta não se comportar, a nova cláusula prevê “rescisão imediata do contrato, sem qualquer ônus para o Flamengo”.
O conselho de juristas convocado pelo Flamengo para decidir o destino de Bruno acaba de recomendar a Patrícia que demita Bruno por justa causa, por todo o desgaste causado à marca e à imagem do clube. Os juristas que fizeram essa recomendação são: Mário Pucheu, advogado, Theophilo Miguel, juiz federal, os desembargadores Marcus Faver, Siro Darlan e Walter D’Agostino, além dos desembargadores do trabalho Marcelo Antero e José da Fonseca Martins Júnior.
A presidente fala com serenidade e firmeza, mas está cansada. Chega à Gávea sem um pingo de maquiagem, embora assessores tenham dado a ela um kit importado com cosméticos para os momentos de exposição pública em que as olheiras precisam ser disfarçadas. Ela não gosta de se maquiar, tem uma pele bonita e bem cuidada. Para posar, passa displicentemente uma base no rosto, penteia os cabelos compridos e repicados na frente. Seu figurino é sempre masculino, diz, “tudo abotoado até o pescoço”, como acha que deve se vestir uma mulher que comanda tantos marmanjos. “No início, senti que para eles foi meio constrangedor ter uma mulher na presidência. Alguns me chamam de rainha”.
Seu desafio inicial já era enorme: “arrumar a casa”, as finanças e as instalações do Flamengo. O clube estava quebrado, financeiramente e fisicamente. Havia uma dívida de R$ 350 milhões. E as instalações, naquele terreno nobre com uma das vistas mais espetaculares do Rio, a Lagoa Rodrigo de Freitas, estavam abandonadas, enferrujadas, um desrespeito aos sócios do clube, segundo Patrícia: “Tirei daqui de dentro 30 caminhões de entulho, 9 toneladas de lixo, e vou consertando tudo aos poucos”.

Ela jamais pensou que sua missão mais urgente poderia ser outra – moralizar a Gávea, impedir que o clube fosse contaminado por jogadores bandidos. Os maiores ídolos acabaram envolvidos nos últimos meses com traficantes, fuzis, brigas, orgias e, para culminar, um crime macabro: o assassinato de Eliza Samudio, 25 anos, a mãe de Bruninho, de 4 meses, suposto filho do capitão com cara de mau. A pressão foi tanta que Patrícia precisou tomar remédio para dormir. A partir de segunda-feira, vai tirar uma licença para descansar do noticiário policial e deixar o diretor, Zico, cuidando da equipe. Ela falou a EPOCA vestida de vermelho e colocou um colarzinho preto com brilho porque, afinal de contas, é mulher.

ÉPOCA – O advogado do goleiro Bruno pediu habeas corpus para ele. Caso o goleiro seja libertado, caso os depoimentos não sejam suficientes para sua condenação e ele se apresente no clube, o que fará o Flamengo?
Patrícia Amorim – Aqui, o Bruno não joga mais. Não dá. Desgastou demais a marca e a imagem do clube. E sua postura é inaceitável. Sempre teve reações intempestivas, assumiu a posição de capitão como se pudesse mandar em todos, como se fosse o dono da verdade. Havia um descontrole sim. Xingava, chutava até a garrafinha do isotônico. Enquanto o Léo Moura saía do campo chorando e outro jogador saía de cabeça baixa, ele saía chutando muito o portão no vestiário.

ÉPOCA – Como era sua relação com o capitão do time?
Patrícia – Eu dizia ao Bruno que estava errado. Depois ele pedia desculpas, dizia que estava com a cabeça quente. Vinha me contar a história de ter sido abandonado, e ser criado pela avó. O problema é que o Bruno via a liderança sempre como uma postura para se impor berrando. Eu não precisava levantar a voz. Ele chegava na minha sala com uma postura de valente e saía com outra, dócil.

ÉPOCA – Como foi a briga do Bruno com o Petkovic?
Patrícia – Ah, ele achou que o Pet não jogou tudo que podia jogar. Aí acho que era uma disputa normal mesmo, de futebol, e nisso não vejo tanto problema.

ÉPOCA – Quais foram as conversas mais difíceis com o goleiro?
Patrícia – Quando ele xingou os torcedores, por exemplo. Começou a dizer que estava ‘insustentável’ a relação com a torcida e que ele ‘só ia treinar se falasse com a presidente’. Eu disse a ele que tinha gente ali na arquibancada ganhando salário mínimo. Muitos no estádio não ganhariam a vida inteira o que ele ganhava num mês. Falei da oportunidade que ele teve na vida, do talento. Achei que tinha adiantado, mas não teve efeito. Dei tanta lição de moral, nem gosto de pensar nisso. Aí, ao defender o Adriano, que tinha brigado com a namorada, ele perguntou ‘qual homem não tinha saído na mão com a mulher’. Eu o chamei aqui imediatamente, mandei ele se retratar e ele pediu desculpas publicamente ao lado da filha.

ÉPOCA – O Flamengo não deveria ter advertido os jogadores antes, quando Adriano apareceu em fotos com fuzis de mentirinha, e Vagner Love chegou escoltado por supostos traficantes armados numa favela? O clube não poderia advertir, punir e ameaçar rescindir o contrato?
Patrícia – Quando a corda já está esticada, fica difícil. Eu sempre fui muito presente desde que fui eleita presidente. Tinha um negócio errado, eu falava direto. Descontava o dia. Mas nunca adiantou. Esse trabalho de contenção deveria ter sido feito ao longo da formação desses jogadores. Essa geração cresceu com bad boys como ídolos, desde o Romário e o Edmundo. Em 1994, por exemplo, o Flamengo tinha outro tipo de bad boy. Era mais malandragem, menos violência. Olha como as coisas pioraram. Antes, eles tinham um monte de mulheres, faziam filhos fora do casamento, mas pelo menos eles assumiam os filhos. Os clubes e a estrutura do futebol não se preocuparam com esses desvios e isso passou a fazer parte do contexto. A coisa tomou outro vulto agora. Esse universo deles inclui agredir mulheres e dar essas festas inacreditáveis, até com jumentos e anões. Em vez de jogadores, passaram a ser celebridades. Quem é a referência do Flamengo hoje?

ÉPOCA – Que medidas concretas foram tomadas depois que ele foi acusado de sequestrar Eliza no Rio e estar envolvido em seu crime em Minas Gerais?
Patrícia – A primeira coisa que fizemos foi afastar imediatamente, antes mesmo que fosse detido. Mas não podíamos proibi-lo de treinar longe dos outros, antes de ser indiciado. Depois, suspendemos o pagamento porque ele não está prestando o serviço para o qual foi contratado. Bruno ganha um salário de R$ 150 mil por mês, e se juntar luvas, patrocínio, e bônus pelas vitórias, acredito que sua remuneração mensal no ano passado tenha ficado em R$ 250 mil. Ficamos pensando como faríamos a rescisão do contrato com ele: justa causa ou não? Discutimos duas noites seguidas. Não se chegou à unanimidade.

ÉPOCA – Com todas essas acusações pesadas contra o Bruno, e o clube há duas semanas em manchetes policiais, isso já não seria suficiente para demitir o goleiro?
Patrícia – Há jogadores que não têm contrato de imagem, só de trabalho, como é o caso do Bruno, cujo contrato é regido pela CLT. Para rescindir o contrato dele sem justa causa, o Flamengo teria de pagar 6 milhões de euros. Aí eu não podia ser irresponsável, agir só com paixão, e dizer “manda embora”, sob risco de prejudicar o clube. Exatamente por eu não ter competência na área criminal, reuni um conselho de notáveis para discutir e chegar a uma conclusão. E eles acabam de me recomendar a rescisão do contrato do Bruno por justa causa. Se exigirmos dele também compensação por perdas e danos, o valor que pediremos será igual ao da rescisão.

ÉPOCA – Seu desejo pessoal seria desligar totalmente o goleiro o mais rápido possível?
Patrícia – Com certeza. Tudo isso foi um baque enorme. Eu gostaria sim que ele fosse demitido por todo o desconforto e desgaste que causou ao Flamengo e aos torcedores, desde que não haja nenhum tipo de dolo para o clube.

ÉPOCA – Como tem reagido a torcida?
Patrícia – Tem de tudo. Desde o torcedor que se diz humilhado, com o coração sangrando, até os que mantêm o carinho pelo goleiro porque se recusam a acreditar na culpa dele, especialmente as crianças. Ídolo é ídolo. Ele vendia mais camisas do que o Rogério Ceni. No Maracanã, depois do jogo com o Botafogo no Maracanã, uma família de flamenguistas chegou a mim perto do vestiário e a filha, de 9 anos, me fez o seguinte pedido: ‘Se você for visitar o Bruno, diz que eu amo ele?’ Eu fiquei desconcertada, nem sabia o que dizer.

ÉPOCA – Não seria preciso mexer no time para passar uma mensagem e disciplinar os jogadores?
Patrícia – Eu herdei uma situação em que alguns jogadores gozavam de regalias, ou privilégios. Não gostava disso, mas, com o título brasileiro este ano, eu não tinha como mexer em nada, nem na base do time nem na comissão técnica. Era como mexer num vespeiro. Existia um sentimento geral que me incomodava muito, do tipo: ‘Ah, na hora do jogo esses aí decidem’. Como se isso bastasse. Era um time vencedor. E a torcida quer a mão na taça. Grita no estádio o nome do jogador. Picha os muros quando o time joga mal. As renovações foram muito mais complicadas e desgastantes depois do título. Jogadores e treinadores achavam que podiam tudo. Eu tinha coragem mas enfrentava um time fechado, com muito corporativismo. O bom foi que esses privilégios começaram a incomodar o próprio grupo e também aos formadores de opinião. Comecei a tratar tudo com transparência, sem esconder os problemas. E chamei o Zico porque não há melhor pessoa para estabelecer esses parâmetros de comportamento. E nós não vamos mais ficar reféns de atleta nenhum. Porque já enfrentamos o pior. Nada pode ser pior do que o que aconteceu no caso Bruno.

ÉPOCA – Quais são os maiores desafios do Flamengo?
Patrícia – Grupos dominantes fragmentaram o clube. Eu não sou de feudo nenhum, não pertenço a grupo nenhum, eu pertenço ao Flamengo. Isso me deixa muito à vontade para receber todos os empresários e ouvi-los. E também para criticar comportamentos que me dão pavor, como o de cartolas que adoram sair em fotos abraçados com jogadores. Precisamos sim de investimento, precisamos pagar aos poucos as dívidas. Nos primeiros meses, só conversei sobre dinheiro aqui e não sobre futebol. A sorte é que meu marido é economista e eu me cerquei de pessoas que entendem de finanças.

ÉPOCA – Houve conversas suas com os jogadores depois que Bruno foi preso?
Patrícia – Falei com alguns em particular, o Leo Moura, o Pet, o Lomba, que substituindo o Bruno, o Willians, que era companheiro de quarto do goleiro. Mas também reuni o grupo e perguntei a eles: ‘Quem garante que isso não vai acontecer de novo?’ Todo mundo ficou mudo.

ÉPOCA – E as categorias de base? Existe um plano para formar jogadores com outro tipo de caráter e valores?
Patrícia – Aí, sim, precisamos de um investimento grande. Vamos construir escolas aqui dentro. Este é o foco. O clube precisa assumir sua função de formador, não só de atletas. Esses meninos têm que sair do Flamengo como grandes homens, em primeiro lugar. Se puderem também ser grandes jogadores, ótimo. O clube precisa retomar sua relação direta com os jogadores, sua ascendência, em vez de ficar nas mãos de empresários e de assessores de imprensa dos jogadores, como se tivesse lidando com um bando de celebridades. O que eu defendo é a volta da responsabilidade, tanto dos jogadores quanto dos dirigentes.

ÉPOCA – Em algum momento desse drama, sendo mãe de quatro filhos, dois deles gêmeos, houve algum arrependimento por ter se candidatado à presidente do Flamengo?
Patrícia – Olha, noutro dia uma senhora chegou para mim e disse: ‘Ai, eu não queria estar no seu lugar, deve ser terrível’. E eu respondi que estou no lugar que eu quero estar. O Flamengo é muito mais do que o Bruno, é a tradição, a história, tem uma enorme força de mercado e público. O Flamengo é um tesouro. Não só no futebol. É o Flamengo do Cesar Cielo, do Diego Hipólito. Perdemos agora algumas batalhas mas no fim tenho certeza de que existe um arco-íris esperando por nós. E como tudo que o Zico fala tem uma força enorme, tenho convicção de que vamos unir o Flamengo e sair dessa. Zico é o Flamengo que deu certo.

A nova cláusula nos contratos dos jogadores do Flamengo

"O atleta X (nome do atleta), se obriga expressamente em honrar a imagem e o bom nome do CRF e de seus patrocinadores, mantendo conduta ilibada dentro e fora de campo, observando as regras de boa conduta e imagem pública que lhe são pertinentes, sob pena de rescisão imediata do contrato, sem qualquer ônus para o CRF.
§1º – A inobservância do disposto nesta cláusula acarretará sanções legais ao atleta e quem mais tiver dado causa à violação, respondendo administrativa, civil e criminalmente, inclusive por danos morais, materiais e à imagem, sem prejuízo de outras medidas judiciais cabíveis."

A secretária de Educação do Rio aposta nos professores – com treinamento, bônus e até Twitter.

Claudia Costin: "Prédio não educa. Quem educa é gente

Diariamente, às 5 e meia da manhã, o Twitter da secretária de Educação do município do Rio de Janeiro, Claudia Costin, já está a mil. Entre seus 6.700 seguidores, 6 mil são professores do Rio, que tem a maior rede de escolas municipais públicas do país. Uma comunicação tão pioneira entre autoridade e funcionário público que, no mês passado, a secretária foi convidada a dar uma palestra na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Em 18 meses no cargo, ela coleciona ações criativas e resultados rápidos. Já alfabetizou quase metade dos 28 mil alunos de 4º e 5º anos que evoluíam de série, mas não sabiam ler. Está investindo nas escolas em áreas de violência e na capacitação e valorização dos professores. “Piscina e quadra coberta não ensinam. Quem ensina é gente”, afirma.

ENTREVISTA – CLAUDIA COSTIN

 Daryan Dornelles
QUEM É
Nascida na cidade de São Paulo há 54 anos, é filha de imigrantes romenos. Casada pela segunda vez, tem dois filhos e três enteados
O QUE FEZ
Foi ministra da Administração Federal e Reforma de Estado, na gestão Fernando Henrique Cardoso, e secretária de Cultura do Estado de São Paulo
CARREIRA ACADÊMICA
Deu aulas na Fundação Getulio Vargas, na PUC de SP e na Unicamp. É professora visitante da Universidade de Québec, no Canadá

ÉPOCA – Como a senhora avalia o resultado do Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico (Ideb) no Rio?
Claudia Costin –
Estou surpresa e feliz. No ano passado, acabamos com a aprovação automática e a consequência natural foi um volume grande de reprovações, que foi quatro vezes e meia maior que no ano anterior. Avisei a minha equipe: vamos ter paciência, porque os resultados deste primeiro ano não serão bons, já que o Ideb é composto do índice de aprovação mais resultado na Prova Brasil. Mas do 1º ao 5º ano tivemos aumento do Ideb de 4,5 em 2007 para 5,1 em 2009. O bom desempenho compensou a reprovação maior. Ainda há muito que fazer. No 9º ano houve queda no Ideb, de 4,3 para 3,6. De qualquer forma, estamos com uma bela base para o futuro. O que mais me emocionou foram os resultados de muitas escolas nas áreas de violência.

ÉPOCA – Quais são as ações nelas?
Costin –
Assim que assumi, mapeamos os resultados escolares, e era claro que nessas áreas o desempenho era menor e a evasão escolar ruim. Professores não iam com medo de tiroteios e ataques. Em agosto de 2009, começamos a oferta de ensino em tempo integral, introduzimos um programa de ciências prático, para que a criança se interesse em ir à escola, e contratamos mães voluntárias que buscam crianças em suas casas. Capacitamos os professores com uma metodologia que acaba com os bloqueios cognitivos de crianças que têm traumas de violência. E ensinamos o que chamamos de Pedagogia do Sonho – a ligação daquilo que elas aprendem em sala de aula com o que sonham em ser quando crescer. Além disso, aumentamos o adicional para os professores que anteciparem suas metas nessas áreas. No restante das escolas é de um salário a mais. Nas 150 escolas nas áreas de risco, que chamamos de Escolas do Amanhã, é de um salário e meio. Investimos na capacitação e valorização desses profissionais, em vez de prédios novos, piscina olímpica ou quadra coberta. Prédio não educa. Quem educa é gente.

ÉPOCA – O Ideb 2009 já mostra os resultados disso?
Costin –
A Escola Municipal Afonso Várzea, no Complexo do Alemão, passou de 4,2 para 5,8. A escola tinha uma professora tão dedicada, professores tão unidos que superou as dificuldades.

ÉPOCA – Como recuperar os 28 mil alunos que no ano passado foram considerados analfabetos funcionais, apesar de já estarem nos 4º, 5º e 6º anos?
Costin –
Capacitamos os próprios professores da rede, em parceria com o Instituto Ayrton Senna. Em cinco meses e meio de trabalho, 12 mil foram alfabetizados. Agora, 10.700 deles estão num processo de aceleração, fazendo três anos em um para alcançar os colegas. Com o apoio da Fundação Roberto Marinho, estamos fazendo aceleração com 8.900 alunos do 6º ano em diante. No Rio, imperava a cultura do coitadinho: eles são pobres, os pais não dão atenção, então vamos passá-los de ano. Não vamos dar dever de casa nem prova. Todos os elementos importantes para desafiar o aluno tinham sido retirados. Com esse trabalho de realfabetização e reforço, estamos dizendo a eles: vocês podem. Não existe trabalhar a autoestima de uma criança no vazio. Só com resultados. Como os atletas.

ÉPOCA – E os professores, também estão evoluindo?
Costin –
O fim da aprovação automática já era uma grita dos professores. Já é um trunfo de nossa gestão. Agora faço um trabalho de valorização desses profissionais e estreitamento de nossa relação com eles.

”Imperava a cultura do coitadinho: eles são pobres, então vamos
passá-los de ano. Não vamos dar dever de casa nem prova”

ÉPOCA – Seu contato com eles por meio do Twitter está funcionando?
Costin –
Acredito que sim. Mas não foi algo pensado. Tenho uma filha morando fora do Brasil, e achamos que seria uma bela forma de manter contato. De repente, vi que vários professores começaram a me seguir. E percebi que canal maravilhoso poderia ser aquele. Hoje, acordo às 5h30 e faço uma espécie de clipping de tudo o que pode interessar a eles, desde acontecimento na educação até notícias que eles podem usar em sala. Eles me mandam informações, reclamações. Levo para nossa equipe técnica, e quase sempre eles estão com a razão. São mais de 6 mil seguidores e não há agressão.

ÉPOCA – Os professores das escolas que superaram as metas ganham bônus. Esses prêmios por mérito poderiam trazer talentos para o magistério?
Costin –
Não tenho dúvida. Os prêmios e o salário inicial contam muito na decisão dos jovens. Mas há outro ponto importante: a valorização. Por isso fizemos dois trabalhos importantes: o Guia da educação em família, distribuído aos pais nas reuniões, explicando que o professor é a autoridade. E também o Regimento Interno das escolas, unificando as regras do município. Ele formaliza os direitos e deveres de alunos e professores. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é importantíssimo, mas sua criação trouxe muita insegurança aos professores da rede pública, em especial os que lidam com adolescentes. Na semana passada, tivemos um caso grave: um menino de 13 anos agrediu fisicamente a professora. Na escola privada, esse aluno seria expulso. Na escola pública, isso não pode acontecer. Esse regimento diz como tratar esses casos-limite. O destino do aluno pode ser votado em conselho. Ele pode ser transferido de escola. O regimento também aborda detalhes que parecem bobos, mas são importantes. Usar boné em sala não é mais permitido. Tirar o chapéu na frente de uma autoridade é um simbolismo importante.

ÉPOCA – Por que os alunos do 1º ao 5º ano agora também terão aulas de inglês?
Costin –
Achamos importante por causa da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016 em nossa cidade. Mas visamos também à inserção no mercado de trabalho porque quanto mais cedo a criança começar a aprender uma língua, mais facilidade ela terá. Fizemos um concurso e a Cultura Inglesa está capacitando os professores.

ÉPOCA – A senhora é a favor do sistema de cotas nas universidades?
Costin –
Sou a favor. É minha opinião pessoal, não do governo do Rio. Mas apenas como medida temporária, que seja acompanhada de políticas claras. Eu morei na África durante um tempo e tenho ligações com o movimento negro. Sei que, como política de longo prazo, o sistema de cotas não é correto. Por mais que o consenso na classe média seja que não é uma boa ação, defendo porque existe uma defasagem clara. Sou defensora do mérito, mas em igualdade de condições. O Brasil foi o último país a deixar de ter escravos. É muito recente. Cota ainda mais importante é a das escolas públicas, porque lida ao mesmo tempo com a questão racial e com a social. E é extremamente importante para qualquer instituição a diversidade de gênero e etnia.

Por: MARTHA MENDONÇA portal G1

Fidel: "Lula sabe que em nosso país nunca se torturou ninguém"

O líder da revolução cubana, Fidel Castro, reagiu, nesta terça, às críticas de parte da imprensa internacional por causa da morte do preso Orlando Zapata Tamayo, causada por uma greve de fome. Em novo artigo, ele defendeu o presidente Luiz Inácio da Lula da Silva, que também tem sido atacado por não condenar o governo da ilha. Fidel acusou os críticos de Lula de "invejosos" de seu "prestígio e glória" e disse que usam contra ele "as calúnias vis que há meio século são usadas contra Cuba".

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Na semana passada, após 85 dias de greve de fome – na qual reivindicava benefícios inalcançáveis, como telefone, cozinha e televisão em sua cela -, o preso Zapata Tamayo faleceu, provocando uma campanha de difamação contra o regime cubano. Parte da mídia e alguns governos têm responsabilizado o governo de Raúl Castro pelo ocorrido. 
Os meios de comunicação também cobraram – de forma absurda – que o presidente Lula, que visitava a ilha no dia da morte do dissidente, condenasse o regime da ilha. Adotando uma postura compatível com seu cargo, de não interferência nos assuntos intenos de outra nação, o brasileiro apenas lamentou a morte e disse discordar das greves de fome como instrumento de protesto. Está claro que os ataques à Cuba e a Lula são uma forma de utilizar politicamente o falecimento do preso.
No artigo, Fidel tece vários elogios a Lula e fala de sua antiga relação com o operário que virou presidente. Segundo ele, Lula sabe que em "nosso país nunca se torturou ninguém, nunca se ordenou o assassinato de um adversário, nunca se mentiu para o povo".
Leia abaixo o artigo de Fidel:

O último encontro com Lula

O conheci em Manágua, em julho de 1980, há 30 anos, durante a celebração do primeiro aniversário da Revolução Sandinista, graças a meus contatos com os partidários da Teologia da Libertação, que foram iniciados no Chile, quando, no ano de 1971, visitei o presidente Allende.
Por meio de Frei Betto sabia quem era Lula, um líder operário no qual os cristãos de esquerda punham desde cedo suas esperanças.
Tratava-se de um humilde operário da indústria metalúrgica que se destacava pela sua inteligência e prestígio entre os sindicatos, na grande nação que emergia das trevas da ditadura militar imposta pelo império ianque na década de 60.
As relações do Brasil com Cuba tinham sido excelentes até que o poder dominante no hemisfério as fez sucumbir. Passaram-se décadas até que voltassem lentamente a ser o que são hoje.

Cada país viveu sua história. Nossa pátria suportou inusitadas pressões nas incríveis etapas vividas desde 1959, em sua luta ante as agressões do mais poderoso império que existiu na história.
Por isso, tem para nós uma enorme transcendência a reunião que acaba de acontecer em Cancun e a decisão de criar uma Comunidade de Estados de América Latina e o Caribe. Nenhum outro fato institucional de nosso hemisfério, durante o último século, reflete semelhante transcendência.
O acordo é atingido em meio à mais grave crise econômica que tem tido lugar no mundo globalizado, coincidindo com o maior perigo de catástrofe ecológica de nossa espécie e ao mesmo tempo com o terremoto que destruiu Porto Príncipe, capital de Haiti – o mais doloroso desastre humano da história de nosso continente, no país mais pobre do continente e o primeiro onde foi erradicada a escravidão.
Quando escrevia esta reflexão, a apenas seis semanas da morte de mais de duzentas mil pessoas, conforme cifras oficiais naquele país, chegaram notícias dramáticas dos prejuízos causados por outro sismo no Chile, que provocou a morte de pessoas cujo número está por volta de mil, segundo estimativas das autoridades, e enormes danos materiais.

Comoviam especialmente as imagens do sofrimento de milhões de chilenos afetados material ou emocionalmente por aquele golpe cruel da natureza. O Chile, felizmente, é um país com mais experiência nesse tipo de fenômeno, é muito mais desenvolvido economicamente e com mais recursos. Se não existissem infra-estrutura e edificações mais sólidas, um incalculável número de pessoas, talvez dezenas ou inclusive centenas de milhares de chilenos teriam perecido.
Fala-se de dois milhões de danificados e possíveis perdas que oscilam entre 15 e 30 bilhões de dólares. Em sua tragédia, o Chile conta também com a solidariedade e a simpatia dos povos, entre eles o nosso, ainda que, conforme o tipo de cooperação que precisa, seja pouco o que pode fazer Cuba, cujo governo foi um dos primeiros em expressar ao Chile seus sentimentos de solidariedade quando as comunicações estavam ainda colapsadas.

O país que hoje coloca à prova a capacidade do mundo para encarar a mudança climática e garantir a sobrevivência da espécie humana é sem dúvidas o Haiti, por constituir um símbolo da pobreza da qual hoje padecem milhares de milhões de pessoas no mundo, incluída uma parte importante dos povos de nosso continente.
O acontecido no Chile, com o terremoto da incrível intensidade de 8,8 na escala de Richter, me obriga a enfatizar a importância e o dever de estimular os passos de unidade conseguidos em Cancun, ainda que não tenha ilusões sobre o quão difícil e complexa será nossa luta de idéias face ao esforço do império e seus aliados, dentro e fora de nossos países, para frustrar a tarefa unitária e independentista de nossos povos.
Desejo deixar testemunho escrito da importância e do simbolismo que para mim teve a visita e o último encontro com Lula, do ponto de vista pessoal e revolucionário. Ele disse que, perto já de finalizar seu mandato, desejava visitar seu amigo Fidel; qualificativo honroso que recebi da sua parte. Creio conhecê-lo bem. Não poucas vezes conversamos fraternalmente dentro e fora de Cuba.

Uma vez tive a honra de visitá-lo em sua casa, situada em um modesto bairro de São Paulo, onde residia com sua família. Foi para mim um emotivo encontro com ele, sua esposa e seus filhos. Não esquecerei nunca a atmosfera familiar e sadia daquele lar, e o sincero afeto com que o abordavam seus vizinhos, quando Lula era já um prestigioso líder operário e político.
Ninguém sabia então se chegaria ou não à Presidência do

Brasil, pois os interesses e forças que se  opunham eram muito grandes, mas gostavam de falar com ele. Lula também não se importava muito com o cargo; satisfazia-lhe, sobretudo, o prazer de lutar e o fazia com perfeita modéstia, que demonstrou mais ainda quando, tendo sido vencido três vezes por seus poderosos adversários, só aceitou a postulação do Partido dos Trabalhadores pela quarta ocasião por forte pressão de seus mais sinceros amigos.
Não tentarei repassar as vezes em que nos falamos antes de o elegerem presidente. Uma delas, entre as primeiras, foi em meados da década de 80, quando lutávamos em Havana contra a dívida externa da América Latina, que então ascendia a 300 bilhões de dólares e tinha sido mais de uma vez paga. É um verdadeiro lutador.
Três vezes, como disse, seus adversários, apoiados em enormes recursos econômicos e mediáticos, derrotaram-no nas urnas. Seus mais próximos colaboradores e amigos sabíamos, contudo que tinha chegado a hora de aquele humilde operário ser o candidato do Partido dos Trabalhadores e das forças de esquerda.

Com certeza seus oponentes o subestimaram, pensaram que não poderia contar com maioria alguma no órgão legislativo. Não existia já a URSS. O que poderia significar Lula na frente do Brasil, uma nação de grandes riquezas, mas de escasso desenvolvimento, nas mãos de uma burguesia rica e influente?

Contudo, o neoliberalismo entrava em crise, a Revolução Bolivariana tinha triunfado na Venezuela, Menem estava em queda vertical, Pinochet havia desaparecido da cena e Cuba resistia. Porém Lula é eleito quando Bush triunfa fraudulentamente nos Estados Unidos da América, despojando seu rival Al Gore da vitória.

Iniciava-se uma etapa difícil. Impulsionar a corrida aos armamentos e com ela o papel do Complexo Militar Industrial e reduzir os impostos aos setores ricos foram os primeiros passos do novo Presidente dos Estados Unidos da América.
Com o pretexto da luta contra o terrorismo, reiniciou as guerras de conquista e institucionalizou o assassinato e as torturas como instrumento de domínio imperialista. Não são publicáveis os fatos relacionados com os cárceres secretos, que delatavam a cumplicidade dos aliados dos Estados Unidos da América com essa política. Deste modo, foi acelerada a pior crise econômica das que em forma cíclica e crescente acompanham o capitalismo desenvolvido, mas desta vez com os privilégios de Bretton Woods e sem nenhum de seus compromissos.

O Brasil, por sua vez, nos últimos oito anos, sob a direção de Lula vencia obstáculos, incrementava seu desenvolvimento tecnológico e potenciava o peso da economia brasileira. A parte mais difícil foi seu primeiro período, mas teve sucesso e ganhou experiência.

Com sua incansável luta, serenidade, sangue frio e crescente consagração à tarefa, em condições internacionais tão difíceis, o Brasil atingiu um PIB que se aproxima aos dois bilhões de dólares. Os dados variam segundo as fontes, mas todas o colocam entre as 10 maiores economia do mundo.
Apesar disso, com uma superfície de 8 milhões 524 mil quilômetros quadrados, em comparação com os Estados Unidos da América, que apenas possui um pouco mais de território, o Brasil só atinge aproximadamente 12% do Produto Interno Bruto desse país imperialista que saqueia o mundo e expande suas forças armadas em mais de mil bases militares de todo o planeta.

Tive o privilégio de estar presente em sua tomada de posse nos fins de 2002. Também esteve lá Hugo Chávez, que acabava de encarar o golpe de Estado traidor de 11 abril desse ano, e posteriormente o golpe petroleiro organizado por Washington. Bush já era Presidente. As relações entre o Brasil, a República Bolivariana e Cuba sempre foram boas e de mútuo respeito.
Eu tive um acidente sério em outubro de 2004, que limitou seriamente minhas atividades durante meses, e fiquei gravemente doente nos fins de julho de 2006, em virtude do qual não hesitei em delegar minhas funções na frente do Partido e do Estado no dia 31 de julho desse ano, com caráter provisório, ao que logo lhe designei caráter definitivo quando compreendi que não estaria em condições de assumi-las novamente.
Sendo assim, a gravidade de minha saúde me permitiu estudar e meditar, consagrei-me a isso e a revisar materiais de nossa Revolução, e de vez em quando a publicar algumas

Reflexões.
Após a minha doença, tenho tido o privilégio de ser visitado por Lula quantas vezes ele tem viajado a nossa Pátria e de conversar amplamente com ele. Não direi que sempre coincidi com toda sua política. Sou, por princípio, oposto à produção de bio-combustível a partir de produtos que possam ser utilizados como alimentos, ciente de que a fome é e poderá ser cada vez mais uma grande tragédia para a humanidade.
Este, porém ­­― o expresso com toda franqueza­ ― não é um problema criado pelo Brasil e ainda menos por Lula. Faz parte inseparável da economia mundial imposta pelo imperialismo e seus aliados ricos que, subsidiando suas produções agrícolas, protegem seus mercados internos e concorrem no mercado mundial com as exportações alimentícias dos países do Terceiro Mundo, obrigados a importar em câmbio os artigos industriais produzidos com as matérias-primas e os recursos energéticos deles próprios, que herdaram a pobreza de séculos de colonialismo.
Compreendo perfeitamente que o Brasil não tinha outra alternativa, face à concorrência desleal e os subsídios dos Estados Unidos da América e da Europa, que incrementar a produção de etanol.

A taxa de mortalidade infantil ainda no Brasil é de 23,3 por cada mil nascidos vivos e a materna de 110 por cada 100 mil partos, entretanto nos países industrializados e ricos é menos de 5 e 15 respectivamente. Outros muitos dados similares poderiam ser citados.
O açúcar de beterraba, subsidiada pela Europa, arrebatou do nosso país o mercado de açúcar derivado da cana-de-açúcar, trabalho agrícola e industrial precário e eventual que mantinha no desemprego grande parte do tempo aos trabalhadores canavieiros. Os Estados Unidos da América por sua vez, se apoderaram também das nossas melhores terras e suas empresas eram proprietárias da indústria. Um dia, abruptamente, despojaram-nos da quota açucareira e bloquearam o nosso país para esmagar a

Revolução e a independência de Cuba.
Hoje o Brasil tem desenvolvido a cultura da cana-de-açúcar, a soja e o milho com máquinas de alto rendimento que podem ser empregadas nessas culturas com altíssima produtividade. Quando um dia observei a filmagem de uma extensão de 40 mil hectares de terra em Ciego de Ávila, dedicada a cultura da soja em rotação com o milho, onde se tentará trabalhar durante todo o ano, exclamei: é o ideal de uma empresa agrícola socialista, altamente mecanizada com elevada produtividade por homem e por hectare.

Os problemas da agricultura e suas instalações no Caribe são os furacoẽs que, em número crescente, arrasam seu território.
Também nosso país tem elaborado e assinado com o Brasil o financiamento e construção de um moderníssimo porto no Mariel, que será de enorme importância para nossa economia.

Na Venezuela estão utilizando a tecnologia agrícola e industrial brasileira para produzir açúcar e utilizar o bagaço como fonte de energia termoelétrica. São equipamentos de ponta que trabalham na empresa também socialista. Na República Bolivariana utilizam o etanol para melhorar o efeito ambientalmente nocivo da gasolina.
O capitalismo desenvolveu as sociedades de consumo e também o esbanjamento de combustível que originou o risco de ma dramática mudança climática. A natureza demorou 400 milhões de anos para criar o que nossa espécie está consumindo em apenas dois séculos. A ciência não tem resolvido ainda o problema da energia que substituirá à que hoje gera o petróleo; ninguém sabe quanto tempo precisará e quanto custaria resolvê-lo a tempo. Vai dispor dele? Isso foi o que se discutiu em Copenhague e a Cúpula resultou em um fracasso total.

Lula me contou que quando o etanol custa 70% do valor da gasolina, já não é negócio produzi-lo. Exprimiu que dispondo o Brasil da maior floresta do planeta, reduzirá progressivamente o corte de árvores atual em 80%.
Hoje possui a maior tecnologia do mundo para perfurar no mar, e pode extrair combustível situado a uma profundidade de sete mil metros de água e fundo marinho. Há 30 anos teria parecido história de ficção científica.
Explicou os programas educacionais de alto nível que o Brasil se propõe a realizar. Valoriza altamente o papel da China no âmbito mundial. Declarou com orgulho que o intercâmbio comercial com esse país se eleva a 40 bilhões de dólares.
Uma questão indiscutível: o operário metalúrgico se tornou atualmente num estadista destacado e prestigiado, cuja voz se escuta com respeito em todas as reuniões internacionais.

Está orgulhoso por ter recebido a honra dos Jogos Olímpicos para o Brasil no ano 2016, em virtude do excelente programa apresentado ena Dinamarca. Será sede também do Mundial de Futebol no ano 2014. Tudo foi resultado dos projetos apresentados pelo Brasil, que superaram os de seus concorrentes.
Uma grande prova de seu desinteresse foi a renúncia à procura da reeleição. E ele confia que o Partido dos Trabalhadores continuará governado no Brasil.
Alguns invejosos de seu prestígio e de sua glória e, pior ainda, os que estão a serviço do império, o criticaram por visitar Cuba. Utilizaram para isso as calunias vis que há meio século são usadas contra Cuba.

Lula sabe há muitos anos que, em nosso país, jamais se torturou ninguém, jamais se ordenou o assassinato de um adversário, jamais se mentiu ao povo. Tem a certeza de que a verdade é companheira inseparável de seus amigos cubanos.
De Cuba partiu rumo a nosso vizinho o Haiti. Informamos para ele nossas idéias sobre o que propomos com relação a um programa sustentável, eficiente, especialmente importante e muito econômico para o Haiti. Sabe que mais de cem mil haitianos foram atendidos por nossos médicos e por formados na Escola Latino-Americana de medicina depois do terremoto. Falamos de questões sérias, conheço seus ardentes desejos de ajudar a esse nobre e sofrido povo.

Guardarei uma inesquecível lembrança de meu último encontro com o Presidente do Brasil e não hesito em proclamá-lo.

Fidel Castro Ruz

No ritmo atual, Brasil ainda levará décadas para erradicar o analfabetismo

 

 

Se o ritmo de redução da população analfabeta permanecer o mesmo dos últimos anos, o Brasil ainda levará algumas décadas para se livrar de um problema que hoje atinge um em cada dez brasileiros: o analfabetismo. No ano 2000, na Conferência Mundial de Educação, em Dacar (Senegal), o Brasil assinou junto com 128 países um pacto para melhorar a qualidade do ensino. Entre as metas estabelecidas, está reduzir pela metade a taxa de analfabetismo no país até 2015, chegando ao percentual de 6,7%.
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2007 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que 14 milhões de analfabetos vivem hoje no país. O contingente representa 10% da população com mais de 15 anos. Se em 15 anos o percentual de pessoas que não sabem ler e escrever caiu de 17,2%, em 1992, para 9,9%, em 2007, nos últimos anos o ritmo de queda está praticamente estagnado. De 2005 para 2006, a redução foi de 0,7% e de 2006 para 2007, de 0,4%.

 

Para a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), responsável por monitorar o compromisso Educação para Todos, firmado durante a Conferência Mundial de Educação, vai ser muito difícil o Brasil atingir a meta esperada para 2015. “Isso exigiria um esforço muito maior do que o que está sendo feito. A gente espera que o Brasil consiga atingir a meta, mas acho que isso ainda vai permanecer no reino dos desafios”, diz o especialista em educação de jovens e adultos da Unesco, Timothy Ireland.

 

A principal estratégia do Ministério da Educação (MEC) para reduzir o problema é o programa Brasil Alfabetizado, que dá apoio técnico e financeiro para que municípios e estados criem turmas de jovens e adultos. A meta é atender 2,2 milhões de pessoas em 2009. "O programa é muito complexo de implementar, não é simples. Isso porque você precisa mobilizar o analfabeto, criar condições de formar o alfabetizador. É um público difícil e as razões para isso estão na história que ele traz. Em geral, o analfabeto tem muito pouca confiança na sua capacidade de aprender”, afirma o secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC, André Lázaro.
Na opinião de especialistas, o analfabetismo também potencializa e multiplica situações de exclusão, além de submeter as pessoas a constrangimentos e a situações de preconceito.

Por não saber ler, a aposentada Áurea Freitas de Souza, 85 anos, conta que precisa de ajuda em tarefas simples do dia a dia, como ler receitas de comidas, de remédios e pagar contas. “Quem não sabe ler nem escrever está na escuridão, fora do mundo. Parece que não existe”, resume a moradora do Rio de Janeiro.
A aposentada criou suas próprias estratégias para driblar as dificuldades decorrentes do analfabetismo. Para pegar ônibus, por exemplo, ela aprendeu a identificar as letras do destino ou os números do veículo. Quando precisa ir ao banco pagar uma conta, sai de casa com o dinheiro contado.
Além de alfabetizar aqueles que não tiveram acesso ao ensino, para encerrar o ciclo do analfabetismo é preciso trabalhar também na outra ponta: garantir a qualidade da educação para que a escola não produza novos analfabetos.
Para o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Marcelo Medeiros, esse problema é ainda mais grave. “Ainda que essas crianças não sejam analfabetas completas, mas funcionais, elas saem da escola sem capacidade de letramento, sem capacidade de dominar os textos. Isso é preocupante e é sinal do mau funcionamento do sistema de ensino”, alerta.

 

Os especialistas entrevistados pela Agência Brasil acreditam que os motivos para a persistência do problema estão ligados a campanhas de mobilização ineficazes, à má qualidade do ensino público como um todo e à falta de oferta de cursos de educação de jovens e adultos para que os alfabetizados possam continuar os estudos.
Além de políticas ineficazes, falta consciência social sobre o problema, na avaliação da especialista da USP. “Há uma certa invisibilidade desse tema, como se pudéssemos passar à margem de 14 milhões de brasileiros. Não é um problema residual, nem um problema do passado. É um problema que se repete a cada dia”, alerta Maria Clara.
Série de matérias especiais produzidas pela Agência Brasil mostra quais são os principais gargalos desse problema e possíveis soluções para que o país supere o analfabetismo.

Presidente Lula diz que seguirá na vida pública após 2010

lula

 

Quando terminar o segundo mandato como presidente da República, em 31 de dezembro de 2010, Luiz Inácio Lula da Silva quer continuar na vida pública. O desejo foi manifestado pelo presidente em entrevistas publicadas, no fim de semana, nos jornais La Nación (Argentina) e ABC (Espanha). Ao diário de Buenos Aires, Lula disse que "gostaria de trabalhar, e muito, no tema da integração latino-americana".

O outro foco de interesse para trabalho público futuro, acrescentou o presidente, seria a África, com seus problemas de atraso econômico e tecnológico. "Quero ver se posso ajudar de alguma maneira", disse. "Em 1º de janeiro de 2011, quero ir para casa e descansar. Depois, veremos. O que posso adiantar agora é que não tenho a intenção de me aposentar da vida pública", resumiu o presidente ao ABC.

Na longa entrevista ao La Nación, o presidente disse que "Dilma pode ser a futura presidente do Brasil". Mas emendou, em tom de recado aos petistas, que, para eleger a ministra-chefe da Casa Civil, é preciso "construir uma coalizão e saber se o PT quer que ela seja a candidata."

Lula chamou de "privilégio" ter uma disputa eleitoral à sucessão dele com dois candidatos como Serra e Dilma. E emendou: "Se os candidatos forem Dilma, Serra e Ciro Gomes também será um luxo. Igualmente, se Aécio Neves (concorrer)". O presidente festejou esse leque de candidatos e explicou o motivo: não são nomes de direita. "Vejo companheiros de esquerda, de centro esquerda, progressistas. Isso é um avanço extraordinário para o Brasil", afirmou.

Apesar dos inúmeros contenciosos comerciais com a Argentina, Lula minimizou o tempo todo a situação entre os dois países e disse que "a única divergência" é no futebol: "Se o Pelé é melhor ou não do que o Maradona".

O diário ABC quis saber se o Brasil, assim como a Espanha, aspira a integrar o G-8 (o grupo dos sete países mais ricos e a Rússia). O presidente respondeu apenas que a consolidação de fóruns "mostra que não é mais possível excluir os países em desenvolvimento das instâncias de decisões mundiais". E concluiu: "Os países ricos sabem que não se pode falar em governabilidade global sem a participação dos emergentes".

Lei Rouanet – Vilão e mocinho

Lei Rouanet

"A pobreza do imaginário definido por uma arte que não tem perspectiva crítica condena as relações sociais à impossibilidade de cidadania", alerta Marco Antônio Rodrigues, diretor e autor teatral e um dos fundadores do grupo Folias d’Arte, de São Paulo. Para ele, é exatamente esse o cenário cultural do Brasil de hoje, em grande parte, acredita, é decorrente da manutenção do modelo de financiamento da Lei Rouanet, sancionada em 1991.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Rodrigues critica o paradoxo da Lei "que desmentiu a velha ladainha de que somos um país com muitos problemas sociais mais urgentes do que a promoção cultural. Taí pra todo mundo ver: um bilhão de reais são reservados anualmente à renúncia fiscal. Seria muito dinheiro, se bem aplicado, daria pra fazer uma revolução gigantesca". Confira a entrevista abaixo:

Brasil de Fato – A Lei Rouanet foi sancionada em 1991, durante a gestão Collor. Qual era o objetivo daqueles que a implementaram?
Marco Antônio Rodrigues – A lei Rouanet é filha de uma outra lei de incentivo implementada no Governo [José] Sarney por ninguém mais ninguém menos que Celso Furtado, então ministro da Cultura daquele governo. A memória que tenho da Lei Sarney é que, embora se apoiasse no mesmo falso princípio de que é possível mobilizar o empresariado nacional para algum objetivo nobre que não seja a obsessiva perseguição do lucro, ela era mais democrática.
Era possível, por exemplo, participar de um projeto cultural com serviços, com produtos, enfim, não ficava reduzida a destinação de recursos financeiros. Também não eram necessários lucros astronômicos para que o incentivo fiscal tivesse qualquer efeito, de forma a interessar pequenos empresários na aplicação da Lei. Pensava-se, que num eventual processo de aperfeiçoamento, a Lei poderia ter efeitos comunitários, fazendo com que, por exemplo, o comércio local participasse da "produção" de um espetáculo, cedendo materiais, apoio e até dinheiro, podendo abater do pagamento de seus impostos. Bem, talvez a memória me traia e eu esteja tendo um delírio polianesco.

Qual era o objetivo do Celso Furtado ao elaborar a lei?
Acredito que o Celso Furtado, percebendo a dificuldade que teria para conseguir mais recursos orçamentários diretos para a Cultura, optou, à época, por uma estratégia indireta e de longo prazo. Acreditava, que com o tempo, se criaria um ambiente de exuberante produção artística, que acabaria por pressionar um quadro em que não houvesse saída política para a manutenção vergonhosa de uma participação tão ínfima da cultura na vida nacional. Quadro que aliás permanece, a despeito destas supostas boas intenções (interpretação minha) do mestre Celso Furtado.
Como foi a mudança com o governo Collor?

Collor, como sabem todos, entrou rasgando. Aliás, os primeiros órgãos a serem destruídos foram aqueles da cultura: a Fundação Nacional de Artes Cênicas, a Funarte, enfim, terra arrasada. Acabou com o cinema nacional. E como era o rei da moralidade, atingiu de cara a Lei Sarnay, inventando no seu lugar a Lei Rouanet, que entrega ao empresariado os destinos da produção artística e da cultura nacional. Acabou com a Lei Sarney dizendo que havia muitas distorções na sua aplicação, com gente se locupletando com os recursos da renúncia fiscal. O discurso pegou fácil, como qualquer discurso pretensamente moralista, policialesco e de retórica revisionista pega desde sempre, à direita e à esquerda.

O escopo da Lei Rouanet é o seguinte: só podem se beneficiar dela as empresas que pagam imposto de renda pelo regime de lucro real. Ou seja, os grandes lucros. Estão excluídas as empresas que pagam imposto por lucro presumido ou lucro arbitrado, ou seja, de lucros menores. Também se excluem benefícios sobre operações de capital, vendas de empresas, impostos sobre heranças. Apenas o lucro real: grandes corporações, bancos e etc.
É claro que os artistas que têm poder de acessar estes recursos são também os mais conhecidos, com projetos sem qualquer perspectiva crítica. Ou seja: matou vários coelhos com uma porrada só: agradou as estrelas, que até hoje se mobilizam para manter intocados os seus privilégios, agradou a empresa que o levou à presidência da república, a famigerada Rede Globo e outras mídias em geral, agradou as grandes empresas e seus diretores de marketing que têm mais poder na formulação de políticas de fomentos às artes do que o próprio presidente da república.

Para não falar dos ministros da cultura que, desde aí, são apenas fantoches na manutenção desta política pública de cunho fascista, privatizante e altamente alienada. Por último, fomentou a organização das grandes fundações, tipo Roberto Marinho e Itaú, que sendo as maiores captadoras, legitimam uma operação política que transfere recursos públicos de um bolso para o mesmo bolso, camuflados por uma aparência de preocupação cívica e cultural. Goebbels vira no túmulo de inveja.

Na sua opinião, quais são as maiores problemas que esse modelo de financiamento traz?
A maior distorção é que este modelo atravessou os governos ditos democráticos de Fernando Henrique Cardoso e Lula sem nenhum retoque. No atual governo houve algumas tentativas pontuais de maquiagem da lei, que foram imediatamente soterradas pela resposta imediata das organizações Globo.
Celso Frateschi, ex-presidente da Funarte, caiu, na minha opinião porque sinceramente tentou fazer com que a Lei fosse, digamos, submetida a controle público. Uma reportagem no Jornal O Globo sugerindo prevaricação foi o suficiente para que o ambiente em que trabalhava ficasse infernal levando-o à renúncia.
Ou seja, a maior distorção é que da direita mais canina à esquerda mais radical (se é que isto ainda pode se aplicar como adjetivo) a visão sobre cultura é a mais provinciana, estúpida e leviana que se pudesse imaginar. É um beco quase sem saída porque a compreensão da sociedade, ou das forças sociais mais progressistas é exatamente igual: para elas, cultura e produção artística é uma matéria cosmética que deve ser tratada da forma mais subalterna possível.
É possível, por meio dessa reforma na lei, melhorar seu funcionamento, ou ela tem um problema de fundo e deve ser extinta?

Na minha opinião, a única forma de ser realmente funcional é que metade do bilhão de recursos destinados ao incentivo fiscal por ano, constituam um fundo público regido por editais com participação, em seu julgamento, dos setores organizados da sociedade civil. Segundo, que o empresário arque com parte dos recursos, não como funciona agora, onde o recurso utilizado é exclusivamente público. Terceiro, que os recursos captados pelos que se beneficiam deste estelionato legalizado sejam submetidos a controle público: ou seja, qual a relevância do projeto para a sociedade? Tem qualidades artísticas? Necessita realmente do dinheiro público ou não passa de uma jogada mercadológica espúria, como a primeira temporada do Cirque du Soleil no Brasil que captou nove milhões de reais pela Lei e vendeu seus ingressos a razão de duzentos reais? Quarto, que o dinheiro captado pague um pedágio de pelo menos vinte por cento ao Fundo Público que será destinado a projetos que não têm instrumentos para captação, como constituição de bibliotecas públicas, apoio a novos artistas, investimento em projetos de pesquisa de linguagem e etc.

Além dos empresários, quais outros segmentos da sociedade se beneficiam desse modelo de incentivo fiscal?
A cultura é a forma que as pessoas vivem, se relacionam e se manifestam. E mais do que isso, é o sonho coletivo. A produção artística é a forma concreta com que a cultura se manifesta. A pobreza do imaginário definido por uma arte que não tem perspectiva crítica condena as relações sociais à impossibilidade de cidadania. A quem isto interessa: a manutenção de um programa econômico e político que se baseia justamente nisto: na ignorância, na exclusão, na competição mais violenta como forma de exercício de poder.

Por fim, qual seria um modelo alternativo de política pública e financiamento para a área cultural?
Há inúmeros exemplos em todo o mundo, de países inclusive conservadores em seu exercício democrático: financiamento público movido pelos interesses genuínos de desenvolvimento da população. Orçamento público. O paradoxo da Lei Rouanet é que ela desmentiu a velha ladainha de que somos um país com muitos problemas sociais mais urgentes do que a promoção cultural. Taí pra todo mundo ver: um bilhão de reais são reservados anualmente à renúncia fiscal. Seria muito dinheiro, se bem aplicado, daria pra fazer uma revolução gigantesca. Da forma que é, destinando recursos públicos pra quem deles não precisa atende precisamente aos interesses de uma política cultural fascista e excludente.

Quem é:
Marco Antônio Rodrigues é diretor e autor teatral e um dos fundadores do grupo Folias d’Arte, que existe a 11 anos. É também professor do Teatro-escola Célia Helena, e funcionário da Fundação Nacional das Artes (Funarte), desde 1987, como profissional de artes cênicas.