Idéia inovadora transforma lixo e dejetos em adubo

Por Fernanda B. Müller e Paula Scheidt, do CarbonoBrasil

Duas soluções simples e eficientes prometem resolver o problema dos resíduos seja em áreas urbanas ou rurais, decretando o fim da coleta seletiva nas cidades e do mau cheiro nas suinoculturas.

Seguindo a risca a famosa frase de Lavoisier “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, uma nova tecnologia empregada em um Centro de Processamento de Lixo em construção em Ituporanga, no Alto Vale do Itajaí em Santa Catarina, promete ser capaz de recuperar 100% os materiais que compõe o lixo, em especial, os resíduos orgânicos, sanitários e plásticos contaminados.

Com a separação dos materiais recicláveis, o sistema permite a obtenção de novas matérias-primas como madeira plástica e, a partir de um processo mecanizado e automatizado de compostagem, gera também adubo. “A tecnologia têm condição de eliminar 100% a necessidade de utilizar os aterros sanitários”, afirma Dirnei Ferri, empresário responsável pela criação do sistema.

O projeto é resultado de uma primeira invenção de Ferri, voltada para a área rural, que trata totalmente os dejetos de suínos. A tecnologia transforma os rejeitos do estado líquido para o sólido e produz um biofertillizante seco, estabilizado, sem cheiro, livre da atração de vetores (como moscas e outros insetos) e de grande valor comercial, ambiental e agronômico.

Lixo urbano

O Centro de Processamento de Lixo, em testes há 10 meses, está previsto para ficar pronto em fevereiro de 2010, podendo receber as cerca de 10 toneladas de lixo domiciliar produzidas diariamente pelos 22 mil habitantes de Ituporanga.

Diferentemente dos aterros sanitários, onde o lixo é enterrado, neste Centro o que chega dos caminhões vai para uma linha de triagem, onde são retirados alguns tipos de materiais recicláveis, e o restante segue para a compostagem, onde será transformado em adubo.

Ferri explica que o sistema não elimina o custo da disposição de resíduos, mas substitui um método no qual ‘paga-se para enterrar e poluir’, por outro no qual ‘paga-se para processar, reutilizar e reciclar’. “No primeiro os prejuízos são imensos, já no segundo os ganhos são imensuráveis”, afirma.

Entre os benefícios da tecnologia estão a descontaminação, a retirada e o encaminhamento para reciclagem de diversos materiais sólidos como vidros, plásticos e metais; e a transformação em composto orgânico dos restos de alimentos, vegetais, papéis contaminados (como o papel higiênico). Ferri alerta, contudo, que ainda é preciso estudar qual seria o melhor uso para o biofertilizante produzido.

O principal ganho do projeto, comemora o inventor, é a retirada dos plásticos filmes que compõe o lixo, como sacos, sacolas de supermercado e embalagens plásticas, que viram matéria-prima para a produção de madeira plástica. Somente em Ituporanga, onde o plástico filme responde por aproximadamente 10% do total do lixo, será possível recuperar 30 toneladas deste material todos os meses.

O Centro também está sendo projetado para reduzir ao máximo o número de pessoas que entra em contato com os resíduos e poderá ser instalado em lugares mais próximos dos locais de geração, pelo seu baixo impacto ambiental, por não gerar mau cheiro e nem permitir a proliferação de vetores.

O processo, patenteado por Ferri, pode ser replicado em qualquer lugar, bastando apenas dimensioná-lo para o tamanho da população e quantidade de lixo gerada. “Isso é possível porque o lixo não é acumulado
indeterminadamente como nos aterros sanitários, depois do primeiro ciclo, que leva 45 dias, a mesma quantidade que entra, sai diariamente para os processos de reutilização, aproveitamento e reciclagem”, explica Ferri.

Resíduo rural

O processo de compostagem também é a base do sistema de manejo de dejetos suínos desenvolvido por Ferri, que de tão eficiente em resolver o problema lhe rendeu no início do ano o Prêmio Fritz Muller na categoria Agricultura Sustentável, promovido pela Fundação do Meio Ambiente de Santa Catarina (Fatma) para reconhecer os principais projetos e trabalhos na área ambiental desenvolvidos no estado.

Tradicionalmente, as fazendas de suínos contam com uma esterqueira para armazenar os dejetos, um processo altamente impactante ao meio ambiente devido aos riscos de contaminação de rios, lençol freático e solo e à emissão de metano, gás do efeito estufa 21 vezes mais potente para causar o aquecimento global que o dióxido de carbono (CO2). Além disso, sem o tratamento adequado, estes dejetos criam vetores de doenças e exalam um odor extremante forte.

No caso da granja de Pomerode, também no Vale do Itajaí, quatro mil suínos são criados, gerando 28 toneladas por dia de dejetos. Estes resíduos são conduzidos por canos até um galpão dividido em leiras contendo serragem. Por aspersão, os dejetos são distribuídos ao longo das leiras, misturados e aerados por um maquinário desenhado para este processo.

O composto orgânico resultante deste processo é altamente rico em nitrogênio, potássio e fósforo (NPK), sendo de grande valia tanto para a fertilização do solo, como para a geração de renda para os suinocultores.

Segundo Ferri, se não fosse por este projeto, atualmente a fazenda visitada estaria fechada, pois não teria área suficiente para a aspersão dos efluentes gerados. “Somente para espalhar esta quantidade de dejetos, seriam necessários no mínimo 200 hectares de área agricultável, volume de terras inexistentes para esta finalidade no município ou na região”, explica.

Conforme dados da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Santa Catarina conta hoje com cerca de 6,2 milhões de cabeças de suínos, que geram aproximadamente 43.200 metros quadrados (o equivalente a seis campos de futebol) de dejetos todos os dias, totalizando mais de 15 milhões de metros quadrados por ano (cerca de 2100 campos de futebol).

“Se esta tecnologia fosse implantada para todos os suínos do estado, seriam gerados anualmente 1,24 milhões de toneladas de biofertilizante e, pela não geração de metano, deixariam de ser emitidas cerca de 3,1 milhões de toneladas equivalentes de CO2”, afirma Ferri.

O custo aproximado por cada animal em uma propriedade de mil suínos é de R$ 80 a R$ 90, o que pode variar de acordo com as condições de cada propriedade.

A produção de resíduos é inevitável em qualquer atividade, seja ela urbana ou rural. Com rebanhos de animais cada vez maiores e uma produção média de lixo na casa das 230 mil toneladas diárias, fechar o ciclo é fundamental para garantir a qualidade ambiental, o equilíbrio econômico e benefícios sociais.

(Envolverde/CarbonoBrasil)


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Prefeita de Governador Valadares anuncia condomínio residencial para servidores

 

A prefeita Elisa Costa anunciou, nesta terça-feira, 27 de outubro, o Plano de Habitação para os servidores municipais. Incluídos na Política de Habitação do Município, através da organização de um Núcleo de Sem-Casa de servidores, os funcionários já serão beneficiados com 176 unidades residências, com a construção de dois condomínios dos servidores. Os condomínios serão construídos através do programa Minha Casa, Minha Vida e deverão ficar prontos em 12 meses.

 

A prefeita Elisa Costa ressaltou que este é um momento histórico para Valadares, “quando reunimos pessoas, instituições e um governo compromissado com política habitacional, e que além de construir casas, gera desenvolvimento com a criação de empregos e renda”. Além disso, a prefeita lembra que “política de habitação não é só construir casas, é dar às pessoas moradias dignas, com casas que tenham infra-estrutura, com acesso fácil à educação e segurança”.

 

De acordo com o secretário de Planejamento, Jaider Batista, “Governador Valadares tem um déficit habitacional de, aproximadamente, 7 mil moradias, ou seja, cerca de 28 mil pessoas não têm casas”. O secretário ressalta, ainda, que a cidade tem cerca de 1.600 famílias morando em área de risco e que “é compromisso deste governo fazer do programa Minha Casa, Minha Vida um instrumento que atenda, principalmente, as pessoas que tenham renda salarial de 0 a 3 salários mínimos”.

 

A gerente geral da Caixa Econômica Federal em Governador Valadares, Rosamélia Caldeira, ressaltou que os servidores pagarão de R$ 50,00 a R$ 139,00, mensalmente, pelos apartamentos. “As unidades habitacionais que os servidores vão receber estão avaliados em R$ 60 mil, porém, ao final, pagarão, no máximo, 13.900 reais”. A gerente registrou, ainda, a importante parceria firmada entre governo federal e Prefeitura. “Neste governo temos política pública, e é preciso que elas sejam realizadas e multiplicadas por cada servidor e servidora, que são, também, responsáveis por melhorar a vida dos valadarenses”.

 

“O sonho da casa própria está sendo realizado nesta administração”, segundo o presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais (Sinsem) de Valadares, José Carlos Maia. E atendendo a base das ações deste governo, o da organização e participação, cerca de 500 servidores já estão inscritos no Núcleo de Sem-Casa. Os condomínios serão construídos no bairro Jardim Alvorada, pela construtora Projecon, e cada apartamento terá dois quartos, um sala/copa, cozinha, banheiro e área de serviço.

 

Dia do Servidor Público Municipal

 

Neste dia 28 de outubro é comemorado o Dia do Servidor Municipal e a prefeita Elisa Costa ressalta que a comemoração deve ser feita com valorização e respeito à classe. “A adoção de um piso salarial, a nova sede do Sinsem e, agora, o Plano de Habitação para os servidores, com a construção de quase 200 unidades habitacionais, demonstra o compromisso que temos com esta classe”, afirma a prefeita, lembrando o importante papel que tem cada servidor, “que também é responsável por fazer de Valadares uma cidade de todos e para todos”.

Gabeira avisa: Marina será linha auxiliar dos tucanos

gabeira Muita gente comemora a entrada de Marina Silva na campanha presidencial. Ela seria uma alternativa para “arejar a disputa”, dizem uns amigos a quem respeito. Eu mesmo acho uma lástima termos de escolher entre um tucano autoritário e uma candidata do PT que não parece lá muito comprometida com bandeiras históricas da esquerda.

A candidatura ideal pra mim seria aquela que reconhecesse os avanços do governo Lula (e são vários), sem abrir mão de fazer a crítica pela esquerda.

Marina seria essa alternativa? O perfil dela indica que sim. Acontece que política não se faz com perfil do candidato apenas…

Um velho barbudo, no século XIX já dizia: as pessoas não são aquilo que dizem ser, mas aquilo que são na prática. A frase não é bem essa, a citação é mambembe, mas a idéia é essa. Não adianta o PT dizer que ainda é socialista. O partido virou uma máquina eleitoral social-democrata – e olhe lá. Não adianta o Serra dizer que ele é social-democrata; porque o partido dele foi responsável por um governo ultraliberal e privatista.

Sobre a candidatura de Marina, é preciso fazer duas perguntinhas simples:
– a quem interessa?
– quem estará com ela?

A resposta para a primeira pergunta é subjetiva. Há quem diga que interessa ao Serra, por tirar votos de Dilma, pela esquerda. Marina seria a Soninha em nível nacional. Mas há quem diga que a candidatura dela interessa ao eleitor que se sente órfão diante de um governo Lula que se abraça ao Sarney e ao Renan para sobreviver.

A resposta para a segunda pergunta é mais simples. Marina, se sair candidata, estará no PV. Ela foi recebida nesta quarta-feira pelo Gabeira. Ele trabalha há alguns anos como linha auxiliar dos tucanos, todo mundo sabe. Mais que isso: Gabeira é uma espécie de UDN verde. Moralista da boca pra fora, berrava contra Severino, de dedo em riste. Ao mesmo tempo, se lambuzava em dinheiro público.

Pois bem. Se alguém tinha alguma dúvida sobre as intenções do PV em relação a Marina Silva, isso se dissipou depois do encontro com Gabeira.

Leiam o que Gabeira disse ao site G1, que é uma espécie de porta-voz da UDN do Leblon.

G1
“Gabeira afirmou ainda que o “fator Marina” pode interferir no seu planejamento eleitoral. Ele é pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro e diz contar com o apoio de PSDB, DEM e PPS para a empreitada. O problema é que toda a negociação da aliança foi feita em cima da possibilidade de o deputado fazer campanha para o candidato à Presidência do PSDB, José Serra (SP) ou Aécio Neves (MG), apontados como potenciais nomes para encabeçar a chapa tucana.
Na visão de Gabeira, sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro só seria possível com um acordo entre os partidos para que ele defenda dois candidatos à Presidência, o do PV e o do PSDB.

Ele descartou ser candidato apenas pelo PV, sem alianças. “Não vou disputar só com um minuto na televisão.”
=

Volto eu. Gabeira, como se vê, terá dois candidatos a presidente: Serra e Marina. Nessa ordem. Ou seja: a senadora do Acre, para o PV, é sublegenda dos tucanos.

O povo não é besta. Vai perceber isso.
Espero que Marina também perceba. Antes que jogue sua biografia no lixo…

A boa notícia é que a candidatura Marina pode acabar com essa polarização Dilma x Serra. Se há espaço para uma sub-leganda dos tucanos, por que não apostar numa outra candidatura lulista?

O Ciro já avisou que está no jogo.
E disse, ao “Estadão”, qual seria o mote de sua campanha: “manter e institucionalizar tudo de bom do Lula. E consertar o que de contradição existe”.

Ciro seria um pós-Lula. Um candidato que reconheceria os avanços de Lula, sem preconceito anti-nordestino, sem elitismo, e principalmente sem tucanos à sua volta.

Sou mais o Ciro do que a Marina capturada pelo PV serrista.

fonte http://rodrigovianna.com.br/

Valter Pomar: A direita joga verde

 

Não sei se a senadora Marina Silva decidiu se fica ou sai do PT, se disputa ou não a presidência da República. Mas sua eventual candidatura já está sendo comemorada pela direita brasileira.
por Valter Pomar*

O troféu da babação foi para Danuza Leão, autora de um artigo intitulado “Quem tem medo da doutora Dilma” (Folha de S.Paulo, 16 de agosto). Segundo Danuza, “não existe em Dilma um só traço de meiguice, doçura, ternura (….) Lembro de quando Regina Duarte foi para a televisão dizer que tinha medo de Lula (….) Não lembro exatamente de que Regina disse que tinha medo, mas de uma maneira geral era medo de um possível governo Lula. Demorei um pouco para entender o quanto Regina tinha razão. Hoje estamos numa situação pior, e da qual vai ser difícil sair, pois o PT ocupou toda a máquina, como as tropas de um país que invade outro. Com Dilma seria igual ou pior (…) Minha única esperança, atualmente, é a entrada de Marina Silva na disputa eleitoral, para bagunçar a candidatura dos pe tistas (….) Seja bem-vinda, Marina. Tem muito petista arrependido para votar em você e impedir que (…) Dilma Roussef passe para o segundo turno”.

De maneira menos boçal, variantes deste raciocínio foram matéria de capa da Época (“Marina embaralha o jogo eleitoral de 2010”), da IstoÉ (“o Brasil não é só PT e PSDB”), bem como de textos publicados em Veja (que ainda não deu capa) e outras publicações.
Os que comemoram, não acreditam e geralmente não desejam que Marina possa ser presidente; acham apenas que ela pode atrapalhar uma terceira vitória do PT. Ou seja: sua candidatura é vista como linha auxiliar do PSDB, mais ou menos como o Partido Verde se comporta em vários estados do Brasil.

Como ficaria mal falar isto de maneira explícita, a grande imprensa faz três movimentos diversionistas: a) apresenta Marina como candidata de quem “manteve viva a utopia”; b) destaca a importância de incluir o meio ambiente no debate presidencial; c) diz que o Brasil deve escapar da falsa polarização entre PT e PSDB.
A verdade é que a direita não se incomoda com a defesa das utopias e do meio ambiente, desde que essa defesa não se materialize em atos de governo. Por isso, dirão o que for necessário para impedir uma vitória do PT nas eleições de 2010, pois sabem muito bem que nesta quadra da história não haverá presidente de esquerda, nem defesa efetiva do meio ambiente, sem o Partido dos Trabalhadores.

Neste sentido, a crítica à “falsa polarização PT e PSDB” tem o mesmo objetivo daquele discurso que fala que não existem mais diferenças ideológicas: quem se beneficia de ambos é a direita, que opera nos marcos do senso comum e das personalidades, não precisando demarcar diferenças, nem construir organizações coletivas.
Infelizmente, existem setores do PT que alimentam este discurso. Por exemplo, não por coincidência, a senadora Marina Silva, que em artigo intitulado “Renda básica na política” (FSP, 9/2/ 2009) defende que PT e PSDB, que “têm sido as forças mais estáveis no comando do país”, se unam “pelo resgate da política e por meio de um alinhamento ético”. Política de alianças adotada no Acre, segundo consta.

Acontece que estes dois partidos organizam a disputa política brasileira, exatamente porque representam dois projetos nacionais opostos e contrapostos: o neoliberal e o democrático-popular. Não é a disputa entre PT e PSDB que cria esta contraposição; é esta contraposição na vida real (algo que nossos velhos chamavam de luta de classes) que se traduz na disputa política entre os dois partidos.

Que essa disputa às vezes assuma formas mesquinhas, rebaixadas, pouco claras ou elegantes, é outro assunto. Mas enquanto aquela contradição de projetos for dominante na sociedade brasileira, enquanto petistas e tucanos representarem projetos opostos, não haverá aliança estratégica entre eles.
Neste sentido, quem tiver a ambição de construir uma terceira via entre PT e PSDB, viverá o mesmo dilema do PSOL em 2006: no segundo turno, dividir-se entre Alckmin e Lula. A direita sabe disto e joga verde apenas para colher serra. Motoserra.

*Valter Pomar é secretário de relações internacionais do PT

Governos não admitem água como bem universal

Agenia Carta Maior

Forum das Aguas

Forum das Aguas

Em termos de decisões ou, ao menos, sinalizações para futuras ações concretas, o V Fórum Mundial da Água, realizado em Istambul, foi praticamente nulo. O que prevaleceu, mais uma vez, foi a pressão exercida pelo poderoso lobby privado do setor hídrico, apesar de alertas como o do Banco Mundial – que afirma que a crise econômica atrasará em uma década o acesso à água potável para cerca de um bilhão de seres humanos que ainda vivem sem ela.

RIO DE JANEIRO – Os líderes políticos da humanidade continuam a hesitar em enfrentar de forma efetiva os problemas ambientais que ameaçam o planeta. Assim como acontece nas negociações multilaterais sobre o aquecimento global ou a preservação da biodiversidade, também reinam o impasse e a paralisia nas discussões travadas pelos governos acerca da utilização dos recursos hídricos. Reflexo dessa realidade, terminou no domingo (22), sem grandes resultados, o V Fórum Mundial da Água, realizado na Turquia.

Alguns governos, com o apoio da quase totalidade das organizações representativas da sociedade civil que marcaram presença em Istambul, queriam incluir de forma clara no documento final do fórum a afirmação de que a água é um bem universal e que o acesso a ela é um direito fundamental e inalienável de toda a humanidade. A questionável necessidade de consenso na elaboração desse tipo de documento, no entanto, impediu tal inclusão, transformando o Consenso de Istambul (esse é seu nome oficial) numa declaração final tão insossa quanto aquela aprovada em 2006 no México durante o IV Fórum Mundial da Água.

Os representantes dos 182 governos que participaram das discussões tentaram reverter parcialmente o evidente fracasso político do V Fórum com a divulgação de um outro documento. Inicialmente batizado como Guia de Estratégias, este documento lista uma série de recomendações sobre a utilização responsável da água em setores como a agricultura e a produção de energia, além de citar medidas que devem ser tomadas por governos e empresas para evitar a poluição das águas e o esgotamento dos recursos hídricos.

Trata-se de mais uma carta de boas intenções, e nada mais do que isso, produzida num encontro mundial convocado para discutir uma crucial questão ambiental. Por trás dessa paralisia escondem-se os interesses econômicos dos grandes grupos privados que atualmente tentam controlar e privatizar o acesso à água potável em diversos pontos do globo. Nesse complexo tabuleiro, os países da União Européia curiosamente deixam de se comportar como a “vanguarda ambiental” do planeta e adotam uma conveniente discrição. Afinal, de onde são mesmo as principais empresas privadas do setor?

Vítimas do processo de privatizações dos serviços públicos ocorrido nos anos 1990 e 2000, os países da América Latina são os que sentem mais de perto a ameaça trazida pelas grandes corporações que tentam controlar o mercado da água. Não foi à toa que, em Istambul, países como Uruguai, Venezuela e Bolívia lutaram para que constasse na declaração final do V Fórum a afirmação de que a água é um bem de toda a humanidade.

Cerca de cem ministros de Estado participaram do encontro na Turquia. A delegação brasileira _ uma das maiores, com cerca de 150 pessoas _ foi chefiada pela secretária-executiva do Ministério do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. Ela participou de duas mesas-redondas que discutiram, respectivamente, o combate à pobreza e a utilização de recursos hídricos para a produção de energia.

Um dos poucos bons momentos desse V Fórum Mundial da Água foi a apresentação do Documento das Américas, que trouxe um amplo diagnóstico da situação dos recursos hídricos nas três Américas. Na América do Sul, os principais problemas apontados pelo relatório, além da privatização do acesso aos recursos hídricos, foram o avanço das fronteiras agrícolas e o grande aumento da sedimentação dos mananciais causado por megaprojetos como usinas hidrelétricas e barragens. Segundo o estudo, a América do Sul detém 28% dos recursos hídricos do planeta, e tem como principais bacias hidrográficas as formadas pelos rios Amazonas, São Francisco, Orenoco, Prata e Madalenas.

Outro ponto positivo do encontro realizado em Istambul foi que, pela primeira vez, intensificaram-se as discussões governamentais acerca do impacto do aquecimento global sobre o abastecimento de água em todo o mundo. O tema foi primeiro ponto de pauta da reunião de ministros, e recebeu especial atenção dos países que já enfrentam problemas como o aumento de inundações e secas, o aumento do nível do mar e o derretimento de gelo polar, entre outras catástrofes intensificadas pelo processo de mudanças climáticas.

Algumas discussões avançaram em Istambul, mas, em termos de decisões ou, ao menos, sinalizações para futuras ações concretas, o V Fórum Mundial da Água foi praticamente nulo. O que prevaleceu, mais uma vez, foi a pressão exercida pelo ganancioso lobby privado do setor hídrico, apesar de alertas como o do Banco Mundial – que afirma que a crise econômica atrasará em uma década o acesso à água potável para cerca de um bilhão de seres humanos que ainda vivem sem ela – ou o da Unesco, que mostra a estimativa de que 80 milhões de novos habitantes do planeta acirrarão a “concorrência” pelo acesso à água nos próximos anos