Vergonha de quem?

Por
Cristovão Buarque

Senador Cristovam Buarque

Senador Cristovam Buarque

No sábado passado, estava em Londrina, no Paraná. Lá, vi num adesivo de carro o lema: “Tenho vergonha dos políticos brasileiros.” Pensei em copiá-lo, adaptando o texto para: “Tenho vergonha dos motoristas brasileiros.” Afinal, se temos vergonha dos políticos, tenhamos também dos motoristas, já que somos o país com maior índice de assassinatos no trânsito. Nossos motoristas são tão assassinos quanto os políticos são ladrões. Mas não vou generalizar: há motoristas cuidadosos, e há políticos decentes.

Pensei que a lista de adesivos poderia ser bem maior. Alguns exemplos

seriam: “Tenho vergonha dos profissionais liberais brasileiros”, porque nos perguntam se queremos pagar com ou sem recibo; ou “Tenho vergonha dos contribuintes brasileiros”, porque aceitam sonegar impostos; ou “Tenho vergonha dos alfabetizados brasileiros”, porque são capazes de conviver tranquilamente com 14 milhões de compatriotas incapazes de ler, de reconhecer a própria bandeira. Ou, ainda, “Tenho vergonha dos eleitores brasileiros”, porque foram eles que elegeram os políticos que envergonham os brasileiros.

Mas considerei que estava generalizando, e pensei em outro adesivo:

“Tenho vergonha dos brasileiros que generalizam.” O adesivo que vi em Londrina não estava errado. Hoje em dia, os motoristas têm razão em sentir vergonha de nós, políticos brasileiros. Assim como nós temos o direito de sentir vergonha dos motoristas. Mas esses adesivos que imaginei só se aplicam se atribuirmos a toda categoria os defeitos de alguns de seus membros.

A diferença entre os políticos e as demais categorias é que, embora seja um erro generalizar, no que se refere ao nosso comportamento ético, é correto generalizar nossa incompetência para administrar o país, para eliminar a corrupção, para acabar com as vergonhas que sentimos. É um erro considerar que o comportamento corrupto está generalizado entre todos os políticos, mas é correto generalizar a responsabilidade dos políticos na aprovação das políticas públicas que fazem do Brasil um país atrasado, dividido, não civilizado, desigual.

Aquele motorista de Londrina com o adesivo no carro atribuiu incorretamente o comportamento corrupto a todos os políticos. Ele certamente nem pensou em generalizar a incompetência que impede as lideranças políticas de mudarem os rumos do Brasil. Certamente, aquele motorista está incomodado com os políticos que se apropriam do dinheiro público, mas é bem possível que aprove as políticas orçamentárias que constroem mais viadutos do que escolas.

Aquele motorista não deve se incomodar com políticas que o beneficiam — como a redução do IPI de automóveis —, mesmo que isso reduza recursos que atenderiam às necessidades da população pobre. Ele se declara contra a corrupção no comportamento dos políticos, mas é conivente com a corrupção nas prioridades das políticas públicas que o beneficiam.

O adesivo certo seria “Tenho vergonha das políticas públicas brasileiras e dos políticos que as criam e aprovam, beneficiando a atual minoria privilegiada, e prejudicando a maioria excluída e as gerações futuras, que ficarão sem os recursos que estamos desperdiçando”. Outra sugestão de adesivo seria “Tenho vergonha de ser mais um brasileiro que incinera florestas e cérebros”. “Tenho vergonha de queimarmos, por minuto, o equivalente a seis campos de futebol na Amazônia, e 60 cérebros de crianças, que são jogadas para fora da escola.” Mas esses adesivos, além de muito compridos, não seriam bem compreendidos, porque, com nosso baixo nível de educação, somos incapazes de entender nuances e detalhes. Só entendemos as generalizações simplificadas.

Talvez o adesivo certo fosse “Tenho vergonha do grau de deseducação dos brasileiros”, até porque essa é uma generalização bastante aceitável.

Porque a deseducação dos brasileiros que não foram educados; ou dos que receberam educação, mas não a usam; ou a utilizam apenas em benefício próprio, sem nenhuma consideração pelo Brasil — presente e futuro —, é, sim, generalizada

Senador sugere fechar o Congresso Nacional

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) lançou nesta segunda-feira a ideia de se fazer um plebiscito questionando a população sobre o fechamento do Congresso Nacional. De acordo com ele, o grande volume de críticas contra o parlamento e a “inoperância” dos congressistas justifica a necessidade de plebiscito.

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“Ficou a ideia do plebiscito, não a proposta, porque não fiz. [Mas] Não vou retirar a ideia. Deixo o povo comentar quem é a favor ou contra um plebiscito e se deve ou não fechar o Congresso. Até porque as razões para fechar não são apenas as dos escândalos. São as razões da inoperância e são as razões do fato de que estamos hoje em uma situação de total disfunção, diante do poder, de um lado, das medidas provisórias do Executivo e, de outro, das medidas judiciais do Judiciário. Somos quase que irrelevantes”, disse Cristovam no plenário do Senado.

Questionado sobre o eventual resultado do plebiscito, o senador preferiu não palpitar, disse apenas que ele faria campanha pela manutenção do parlamento aberto. “Um Congresso ruim aberto é melhor que um Congresso fechado”, disse.

Na linha das críticas ao parlamento, Cristovam ainda comentou que a imagem passada pelo Senado para a população “não é de limpeza” mas sim de um grupo que assume o poder para ter uma “boquinha e não para servir o País”.

Antes de apresentar a ideia do plebiscito no plenário do Senado, Cristovam a comentou num programa de rádio de Recife. De acordo com ele, “foi uma felicidade” ter recebido diversas críticas de pessoas que consideraram um absurdo “a simples ideia de se pensar num plebiscito [para o fechamento do Congresso]”.

 

Fonte Agencia Brasil