A Crise das Universidades

Segue um artigo interessante sobre os reais problemas das universidades brasileiras. O artigo e do filosofo Paulo Ghiraldeli

 

Há pouco tempo a PUC-SP estava aos gritos: “crise”. Começamos 2009 e outras grandes instituições particulares de ensino superior repetem o grito: “crise!” E as greves e manifestações se alastram. Apareceu na imprensa: donos de escolas choram, sindicatos viram porco-espinho e professores ficam devendo em super-mercado. Funcionários da limpeza padecem – continuam trabalhando mesmo sem receber. Os alunos? Bem, ainda estão nas férias. Eis as universidades problemáticas apontadas: Unib (Universidade Ibirapuera), Universidade São Marcos e Unisa (Universidade de Santo Amaro). As três instituições respondem por cerca de 30 mil alunos. E se pegarmos faculdades isoladas, então, o quadro paulistano complicado assusta um pouco. É a crise? Sim! Mas não é a crise mundial. Nem é a crise de diminuição de demanda. É claro que com o MEC na situação em que está, boa coisa não se poderia esperar, mas não é culpa só do MEC não. O MEC conseguiu derrubar o número de alunos que terminam o ensino médio e procuram uma universidade. Sabemos disso. Mas não podemos culpar o MEC, pois o ministro atual não inova nos erros, apenas repete os do passado (ainda que capriche para não deixar de repetir algum). Falta criatividade ao ministro para errar diferente. A maior crise é a de gestão das próprias universidades – estas acima apontadas e outras que estão mancando. Pois há universidades que, nesse mesmo período, continuaram a crescer e investir. Aliás, no caso da São Marcos, há investimento. Finalmente a universidade comprou um prédio próprio. O diretor executivo Ernani de Paula, o Ernaninho, chegou a pouco na universidade para salvá-la da má administração dos irmãos – ele reconhece isso – e está negociando bem com os professores. No meio disso, ousadamente, adquiriu um prédio gigantesco no Ipiranga, que era do banco Sudameris. Isso mostra bem que cada caso é um caso, e que se cabe a palavra “crise”, ela deve ser aplicada com muito cuidado a cada situação. O fato é que há muito tempo o ensino superior brasileiro vem sendo dirigido por pessoas que não são do ramo. E se são do ramo, nunca aprenderam a administrar, apenas copiaram o que já se fazia no modelo de administração das universidades estatais – todas elas visivelmente “gastadeiras” e muitas delas com uma eficiência de ensino e pesquisa duvidosa. Portanto, não há crise, e sim crises. Todavia, há uma medida geral a ser tomada. Aliás, ela já foi tomada. Essa medida é de 1996. É a LDB. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBN 9.034/96) criou a possibilidade de cada universidade se organizar segundo seus próprios critérios, exercendo sua criatividade. As universidades estatais não se mexeram, é claro. Mas o esquisito foi ver que salvo raríssimos casos – e assim mesmo de maneira tímida – as universidades particulares também ficaram paradas. Não tiveram pessoas nos seus staffs para criar novas formas de organização física e humana. A maioria continuou com “departamentos e faculdades” ou “coordenações de cursos e direção”. E foi proliferando o número de funcionários desnecessários. Aliás, manteve um número grande de professores com pouca titulação e com poucas horas de trabalho. Isso gerou professores pouco compromissados com o estabelecimento e um grande gasto na folha de “direitos trabalhistas”. Seria melhor ter menos professores, mas com mais titulação e pagos de modo adequado (com uma carreira atrativa). Agindo de modo errado, essas universidades se mostraram estar aquém de pegar o que a LDB deu para todas em termos de liberdade. Não sabendo criar, não souberam procriar. Quase toda universidade particular brasileira é uma réplica piorada de universidade estatal. Organiza seu sistema de ensino, pesquisa e extensão de modo a copiar o que funciona mal na universidade estatal – inclusive o sistema de fofoca e politicalha. Ora, a universidade estatal, por sua vez, não passa de um sistema falido. Um elefante branco que só se vangloria porque, diante da universidade particular, pode apresentar um volume de pesquisa maior e cantar de galo. Mas, em termos comparativos com o exterior, nossa universidade estatal não serve à democracia, e tem uma dificuldade imensa de fomentar o pensamento crítico e gerar o trabalhador prático e cidadão segundo as demandas do país. A universidade particular, sendo feita de aposentados da universidade estatal, é ela própria a réplica disso, só que mais envelhecida. Talvez mais experiente, mas com pouca criatividade. Tem experiência, sim, mas é a experiência do fracasso. Quem vai romper isso? O executivo de uma dessas universidades “em crise” que tiver a coragem de criar, de ver como se faz no exterior, e perceber que pode reorganizar sua escola segundo um registro de menos dinheiro para coisas tolas, e mais dinheiro no bolso do bom trabalhador, vencerá fácil. Algumas medidas são fáceis de tomar. Basta não ser muito bobo. Eis algumas medidas necessárias. Primeiro. O dinheiro deve cair no bolso dos BONS professores, e não ser distribuído por igual. E se a quebra de isonomia é impossível, então há a necessidade de critérios rigorosos para se contratar. O cabide de empregos deve ceder espaço para um criterioso e prático exame de ingresso de cada professor. E também de cada técnico e de cada funcionário. Uma universidade que paga professores incompetentes e funcionários estúpidos vai amargar olhar para o rosto deles em assembléia, fazendo greve sem, no entanto, terem realmente ensinado algo ou trabalhado de modo correto. Além disso, os cargos intermediários de chefias devem ser reduzidos. Em geral as universidades particulares ficam inchadas, sendo que os proprietários perdem o controle do estabelecimento para burocratas, não raro, aposentados de alguma universidade federal. E o que é pior, nem sempre esses burocratas administraram bem a federal em que estavam – lá, eles também enganaram. Em segundo lugar, cada universidade deve saber articular de modo ótimo a pesquisa feita no laboratório da escola com o estudo feito virtualmente; a universidade do futuro não deve ter alunos em seu prédio para fazer aquilo que eles podem fazer virtualmente. O prédio é o local dos grandes laboratórios, onde o aluno aparece para trabalhar com o material que ele não tem disponível em casa ou na cidade: clínicas, arquivos, salas de experimentos etc. Nesses laboratórios há o professor que realmente sabe ensinar, e não o que sabe fazer o “blá-blá-blá”. E no ensino virtual, o mesmo deve ocorrer. Aluno que realmente aprende é aluno que indica no “boca-a-boca” aquela universidade para o irmão ou colega – é isso que faz uma escola, não o outdoor monstruoso. Em terceiro lugar, deve haver o aumento do número de cursos feitos em uma mesma seqüência. A terminalidade ideal deve ser a meta. Em seis anos de estudo um aluno deve ter chances de receber mais certificados e se inserir no mercado parcialmente, mas no mercado da sua profissão. Isso amplia a chances de ganho do aluno e diminui a inadimplência diante da escola. Em quarto lugar, a pós-graduação deve estar articulada com a graduação através do mecanismo de orientação de estudos, iniciado bem precocemente – e agora, com rédea curta por meio virtual –, sendo que quem entra em uma universidade não deve sair dela muito cedo. Deve gostar de ficar nela. Deve se sentir com chances ali dentro para crescer, para sair da graduação e fazer especialização e mestrado ali mesmo. Universidade que não cuida com carinho de seus doutores e não os coloca também na graduação, gerando mecanismos para que eles criem o canal de sobrevida do aluno na instituição por no mínimo seis anos, está mal administrada. Ela não faz o trabalho de seus doutores alcançar o ponto ótimo, então não segura seus alunos. Tudo passa por saber aproveitar a liberdade da LDB e a autonomia universitária para potencializar o trabalho de um dos ramos mais lucrativos que há no mercado brasileiro: a venda do ensino. Quem consegue entrar em crise nesse ramo é caso de desistir da vida. É claro que eu poderia escrever um livro de medidas desse tipo que já deram certo em vários lugares no exterior, e em alguns poucos aqui no Brasil. Mas fico por aqui. Pois o problema dessa crise é que há muito administrador errado no lugar errado na hora errada. Os proprietários das universidades em crise deveriam perceber isso. E se são eles próprios os administradores, deveriam pensar em vender a escola, pois não estão sabendo tocar o negócio.

Anúncios

Renato Rabelo: A grande encruzilhada do governo Lula

A partir de 2007 o Brasil retoma o patamar de desenvolvimento do PIB anual acima dos 5% e a tendência apontava para uma aceleração do seu crescimento a níveis mais altos ainda, durante um período mais longo, mantendo assim em 2008 esse ritmo. Entretanto, este ascenso desenvolvimentista está enfrentando pesado obstáculo desde setembro do ano passado com a expansão da crise econômica e financeira mundial. 
O governo Lula, desde o seu início, foi levado a estabelecer uma forma de pacto político, decorrente da correlação das forças políticas de então, com duplo compromisso contraditório: responder ao apoio da base democrática e popular que o apoiou desde 1989 e, ao mesmo tempo, estabelecer um acordo que cedia aos interesses da oligarquia financeira beneficiária da política neoliberal implantada desde início de 1990.
Esse pacto manifesto na “Carta aos Brasileiros” é que deu ao novo governo uma característica de dualidade, como já afirmávamos desde sua posse em 2003. A expressão desse tipo de pacto na formação do governo ficou demonstrada no papel de Antonio Palocci, titular do Ministério da Fazenda, na escolha de um presidente para o Banco Central da confiança dos grandes círculos financeiros internos e externos, como avaliadores do acordo. O restante do governo foi completado com muitas figuras de origem democrática e progressista, vinculados ao campo popular.
Foi esse tipo de coalizão política e social que permitiu – em condições de crescimento da economia mundial – que o primeiro governo Lula estabilizasse a crítica situação por que passava o país e começasse a distribuir renda primária aos mais deserdados. Simultaneamente, o governo buscou a afirmação de uma nova política externa “Sul-Sul”, de integração do subcontinente e diversificação comercial, dando ao Brasil importante protagonismo no cenário externo.
O segundo governo Lula colocou o centro de gravidade de suas ações na aceleração do desenvolvimento e no reforço dos programas sociais. A dualidade que se refletia na luta entre continuidade e mudança, neoliberais e anti-neoliberais, desenvolvimentistas e ortodoxos, os partidários de políticas públicas universais ou focalizadas, estatistas e mercadistas, esteve sempre presente e se elevou numa maior contenda com a saída acidental de Palocci da Fazenda, substituído por Guido Mantega, personalidade de feição progressista. Foi se configurando na política econômica um caráter “hibrido” (desenvolvimentismo X ortodoxia liberal). Apesar desses limites e contradições o Brasil começou uma fase ascendente de desenvolvimento desde ano de 2007.
Novo desafio, nova oportunidade
Porém, o início da fase aguda da crise sistêmica do capitalismo iniciada em setembro deste ano, atingindo toda economia mundial, impõe uma nova situação. O Brasil, com suas reservas e aplicação de elevados investimentos em curso, não foi atingido de imediato, mas começa a ser impactado com a recessão que se alastra mundo afora, tornando-se incerto o desdobramento dessa situação de crise, sobretudo nos próximos seis primeiros meses de 2009.
Em virtude da dimensão da crise em marcha – que põe em xeque a exacerbada globalização financeira liberalizante e ao próprio hegemonismo unipolar dos EUA – os povos e países da chamada periferia do sistema são jogados diante de ingentes desafios: encontrar novas respostas políticas e econômicas que não se limitem a remediar o impasse da nova grande crise do capitalismo, mas, distinguir novas oportunidades e caminhos para transformar o Brasil em uma nação soberana, democrática, próspera e socialmente avançada. Muitos exemplos da história demonstram que esses momentos de grandes crises do sistema, que ocorrem no seio dos países capitalistas centrais, criam oportunidades aos países dependentes e subdesenvolvidos para buscar seus caminhos próprios de desenvolvimento nacional.
Reconstruir o pacto político  
Em face da crise o desafio é mais político que econômico. É chegada a hora de reconstruir o pacto político. Esta é a saída para o enfrentamento da crise. Dar maior força a base popular e democrática, aos trabalhadores e as camadas médias, em aliança com os empresários da produção e do comércio. Construir assim um grande pacto pela defesa e impulso do desenvolvimento, da economia nacional e do mercado interno, da renda do trabalho e do emprego. Em conseqüência da ação crescente da crise capitalista estamos diante de um risco maior: a recessão. Por isso, toda iniciativa e mobilização deve se voltar para viabilizar os meios que visem à expansão, e não retração da economia.
Em suma, deve ser superada a política da desregulamentação financeira, de juros altos e do câmbio livre da fase da economia “cassino”, submetida a fortes injunções da hegemonia dos grandes agentes financeiros. Hoje, manter juro real básico no patamar de 8% é o mesmo que continuar acelerando o carro para o abismo da depressão econômica. E deixar o câmbio livre de qualquer controle é voltar a cavar a vulnerabilidade externa do país. Em resposta a essa situação, impõe-se o nivelamento do juro real básico ao patamar internacional nesse tempo de crise, o controle do câmbio e de certa forma do fluxo de entrada e saída de capitais.
A encruzilhada diante do governo
O novo contexto gerado pela grande crise, tendo em conta a eleição geral de 2010, onde estará em disputa à presidência da República, leva o governo Lula a estar diante de uma encruzilhada: manter um nível de desenvolvimento e emprego positivo, barrando a recessão, ou ser vencido pela retração econômica e expansão do desemprego. Prevalecendo a primeira vertente o prestígio popular do governo e do presidente se elevará ainda mais, podendo irromper forte clamor nacional pela continuidade de Lula.
Se o governo conduz bem o país diante de grave crise global estimula a consciência de que a mudança do presidente em momento delicado como esse, na direção desse complexo empreendimento, pode ser muito arriscado.  No período da grande depressão na década de 1930 nos EUA, o presidente Franklin Delano Roosevelt, com o projeto do New Deal que reergueu a nação norte-americana, superando a grande crise do capitalismo, foi reeleito quatro vezes, talvez não chegando à quinta porque faleceu. 
Mas, se prevalece a segunda vertente, o presidente Lula pode perder o prestígio e a confiança hoje depositada na sua condução à frente da Nação e possibilitar o aparecimento de salvadores, reforçando o discurso revanchista da oposição, dificultando a vitória do candidato que seja escolhido como seu sucessor. 
Esta é objetivamente a encruzilhada política que vive o governo, sendo a reconstrução do pacto político, de uma forma ou de outra, a via necessária para seguir a vertente que leva ao êxito da crise.

Do seqüestro da economia a possíveis portas de saída

Segue um artigo interessante publicado no LeMond
Quando os apostadores tomam ciência do tombar da jogatina, suplicam à velha viúva, a quem antes acossavam, que lhes socorra com mais dinheiro, transferindo a riqueza socialmente construída aos mesmos que até aquele momento ganharam apenas especulando

por Marcos Aurélio Souza


É difícil antever com precisão aonde ainda nos levará a crise financeira iniciada a partir da débâcle do quimérico mercado hipotecário dos Estados Unidos. Um vendaval de proporções arrasadoras, cujo resultado simbólico mais significante, provavelmente, tenha sido o abalo sísmico provocado na fé de dois dos homens mais poderosos do mundo nos mecanismos de ajuste automático dos mercados para resolver suas irreprimíveis e destemidas estripolias.

A fim de estancar a sangria que ameaçava a própria estrutura do sistema capitalista, Paul Bernanke, presidente do FED, e Henry Paulson, lugar tenente do tesouro norte-americano, se viram forçados, e não hesitaram, em estatizar a Fannie Mae e Freddy Mac – gigantes do financiamento de crédito imobiliário do país, – além da AIG, a toda poderosa corporação mundial do ramo de seguros. Enquanto dirigiam em alta velocidade, assistiam pelo retrovisor ao rápido agonizar do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, que finalmente sucumbiria sem que os dois ex-talibãs, guiando pelos pulsos, orientassem as mãos invisíveis do mercado para também lhe prestar socorro.

Esta última atordoante cena apenas precipitou o congelamento do crédito interbancário, movido pela desconfiança dessas instituições de que seus pares estavam fortemente alicerçados numa enorme montanha de títulos podres. Maria da Conceição Tavares, com sua lucidez exacerbada, estava absolutamente certa quando vaticinava de que ou se agia em tempo ou o entupimento do sistema circulatório do sistema levaria inevitavelmente à trombose [1]. Na mosca! O sangue coagulou.

A desregulamentação do mercado financeiro serviu para sua substituição em favor da cobiça de mega especuladores

Ocorre que desde o final década de 1970, com o desmonte de Bretton Woods em favor da desregulamentação dos mercados financeiros, a especulação a fim de se obter altos rendimentos à custa da produção real tornou-se uma grande arma com a qual os Bangsters [2] tomam de assalto toda a economia para daí pedir resgates que na atual crise, acredita-se, tenham colocado sob empenho algo acima de um terço do PIB norte-americano.

Assim como Galbraith [3] constatou que a grande corporação industrial, ao “decidir o que o freguês vai querer e vai pagar”, submeteu o mercado, tomando seu lugar para preservar seus interesses imediatos, levando a hipótese da soberania do consumidor a tomar seu lugar apenas em compêndios dos livros didáticos de economia, é preciso perceber, nas sucessivas crises das últimas três décadas, que a desregulamentação do mercado financeiro serviu para sua substituição em favor da cobiça de mega especuladores. Para Noam Chomky, a livre circulação do capital financeiro não comprometeu apenas o mercado, mas a própria democracia, ao criar o chamado “parlamento virtual” [4], que, entre outras coisas, “controlam de perto os programas governamentais e “votam” contra eles, se os consideram “irracionais”, quer dizer, se são em benefício do povo e não do poder privado concentrado.”

Nas bolsas de todo mundo criaram-se mecanismos extraordinários, auxiliados por uma tecnologia de informação que permite comunicação de decisões em alguns segundos, para se inventar riqueza sem lastro algum na economia real. Enquanto o PIB mundial soma um produto total na casa dos US$ 60 tri, o mercado de derivativos soma US$ 600 tri, dez vezes mais [5]. Para não ficar de fora de tão vetusta farra, o capital produtivo, por sua vez, rebaixou salários e diminuiu investimentos, ao mesmo tempo em que a produtividade do trabalho aumentou. Assim, parte dos lucros das empresas foi destinada à ciranda

Entretanto, quando os apostadores tomam ciência do tombar da jogatina, suplicam à velha viúva, a quem antes acossavam, que lhes socorra com mais dinheiro, transferindo a riqueza socialmente construída aos mesmos que até aquele momento ganharam apenas especulando, sob a ameaça de que se assim não for, o caos se instalará por toda economia, afetando toda população, que, nesse caso, já sofre ou será penalizada com a perda milhões de empregos [6]. Poucos têm capacidade de planejar um seqüestro com tamanha engenhosidade.

Adotar uma forma de tributo que penalize esse tipo de movimentação. Na linha do que se propõe com a taxa Tobin, cuja função seria a de destinar os fundos arrecadados para o combate à pobreza nos países pobres

Caso as nações mais ricas, que têm efetivo poder de decisão, consigam desvencilhar-se de seus piratas somalis, alojados em Wall Street e demais praças financeiras, elas terão de exercer um papel mais profundo que meramente construir um novo marco regulatório que impeça a sanha especulativa de apontar seus canhões contra os muros que eventualmente se ergam a fim de inibir sua ação predatória. É preciso adotar medidas que penalizem esse tipo de movimentação, na forma de um tributo, na linha do que se propõe com a taxa Tobin, cuja função seria a de destinar os fundos arrecadados para o combate à pobreza nos países pobres.

De acordo com a carta de princípios da ATTAC, a criação de um imposto modesto de 0,1% sobre as transações financeiras especulativas poderia assegurar algo em torno de US$ 100 bi por ano, oriundos principalmente dos países mais industrializados, para financiar a luta contra a pobreza. Valor irrisório face aos montantes que foram injetados até agora pelos governos dos países ricos para garantir liquidez no sistema financeiro internacional. O papel econômico de tal tributação seria, do mesmo modo, determinante, uma vez que devolveria “às políticas monetárias nacionais um pouco de autonomia que elas perderam face aos mercados financeiros.” [7]

O controle do câmbio também deveria compor o front das grandes discussões sobre as formas de saída da crise. É por meio dessa política que o país pode garantir a soberania sobre a sua moeda, diminuindo sua fragilidade financeira devido à continuada defasagem de seu câmbio causada pela fuga de capitais, e oferecer um horizonte mais estável para que a produção se organize e planeje seus investimentos.

A luta incessante pelo lucro e pelo benefício particular não trouxe o benefício prometido em forma de felicidade e bem estar para a absoluta maioria da população mundial

À crise financeira somam-se as crises energética, ambiental e de alimentos. São como quatro dos sete selos do apocalipse cujos resultados de seu desenvolvimento deverão nos revelar, em breve futuro, o que nos reserva os três últimos. Entretanto, este é um processo que longe de ser fatalista, pode e deve ser revertido pela capacidade humana de transformar sua realidade. E isto implica colocar pelo avesso a organização da sociedade sob o capitalismo. É preciso reconhecer que a luta incessante pelo lucro e pelo benefício particular não trouxe o benefício prometido em forma de felicidade e bem estar para a absoluta maioria da população mundial. Ao contrário, as lutas imperialistas deflagradas a fim de assegurar às grandes corporações os recursos necessários ao seu crescimento tiveram o papel histórico de jogar os moradores dos países periféricos na mais absoluta miséria.

Conceitos econômicos como crescimento, investimentos, entre outros, têm de ser revistos para agregarem outras dimensões da realidade social. A provável corrida a ser travada pelas nações com o objetivo de garantir soberania alimentar e energética pode ser dada como exemplo disso. A se concretizar o que muitos observadores indicam, poderemos presenciar uma aceleração das disputas por terra e água, expulsando ainda mais camponeses do campo, aumentando a concentração de terras, devastando o meio ambiente, e tudo isso ser computado no PIB como “investimentos produtivos”.

O papel dos governos locais, principalmente dos grandes centros, deve ser repensado. Num quadro de desemprego, a primeira porta aonde os desempregados vão bater é na das prefeituras. A combinação de políticas econômicas anti-cíclicas no nível federal, que permitam manter ou aumentar o nível de emprego, com iniciativas locais pode gerar sinergias de modo impedir a deterioração do mercado de trabalho.

A atual crise do capitalismo deve ser vista como uma oportunidade para repensar o modelo de exploração com o intuito de alcançar a sua superação

Uma possível porta de saída, entre outras tantas que podem ser elencadas, seria considerar a organização dos trabalhadores em grupos cooperados de produção e prestação de serviços. Para que isso ocorra é indispensável impedir que as poupanças locais sejam capturadas no circuito financeiro para investimentos em títulos do governo ou para a especulação. Na Alemanha, de acordo com o documento Projeto Política Nacional ao Desenvolvimento Local [8], criou-se no nível das cidades e vilas um sistema chamado caixas de poupança cuja finalidade primeira é financiar as atividades produtivas locais.

De todo modo, a atual crise do capitalismo deve ser vista como uma oportunidade para repensar o modelo de exploração com o intuito de alcançar a sua superação. Não é possível imaginar que se construirá um mundo socialmente justo e pacífico quando os projetos de pequenos e selecionados bangsters se sobrepõem a mais elementar noção de segurança à vida e à dignidade humanas. Essa é a grande transformação que permanece a reivindicar nossa atenção e dedicação permanentes.

Marcos Aurélio Souza é colaborador do Caderno Brasil do Le Monde Diplomatique. Texto anterior:

Lia de Itamaracá não conta no PIB
O indicador que deveria medir a riqueza nacional ignora as relações culturais e afetivas estabelecidas num espetáculo artístico. Também não considera trabalho a criação dos filhos. Omissões como estas levam cada vez mais gente a indagar: para que serve um índice que só enxerga relações mercantis?

[1] http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15281

[2] Termo usado por Roosevelt para definir a mesma espécie de senhores que hoje atua nas bolsas vendendo e ganhando dinheiro com coisas sem valor algum.

[3] John Kenneth Galbraith. O Novo Estado Industrial.

[4] Noam Chomsky. Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15292

[5] Em entrevista à Agência Carta Maior, Carlos Lessa afirma a possibilidade de que esse valor possa ter chegado ao valor dos quatrilhões.

[6] A OIT estima que até o final de 2009 mais 20 milhões de desempregados em todo o mundo se some aos 180 milhões atualmente existentes. Além disso, deverá aumentar o número de trabalhadores vivendo com apenas US$ 2 ao dia.

[7] François Chesnais. Tobin or Not Tobin. Porque tributar o capital financeiro. Pg51

[8] Ainda em fase de conclusão e disponível na página do professor Ladislau Dowbor: http://dowbor.org/06dlfinal.pdf

Recessão no Brasil? Que nada!

O Brasil vai sofrer um processo de desaceleração em seu ritmo de crescimento no próximo ano, principalmente  pela onda de incertezas que leva investidores e consumidores a reverem seus projetos, adiando gastos e decisões de expansão da capacidade produtiva.

A avaliação foi feita à Agência Brasil pelo diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV), Carlos Langoni.

“Vai ser  uma desaceleração forte. Mas, eu diria que, em termos relativos, o Brasil ainda vai estar bem na fotografia, porque vamos crescer provavelmente  acima da média  da maioria dos países da América Latina, que vão sofrer forte contração, como o México, a Venezuela e a própria Argentina. Vamos ficar acima da média de crescimento mundial, que deve ser em torno de 2%. E, o que é mais importante, não vamos mergulhar no abismo recessivo”.

A desaceleração será  provocada também pelo contágio das restrições de crédito, que “está mais escasso e caro”,  e  pela queda do preço das ‘commodities’ (produtos agrícolas e minerais comercializados no mercado internacional), que já está afetando setores importantes da economia, como o de mineração, e  alguns setores exportadores, disse Langoni.

Ele acredita que o país vai cair de um pico de quase 7% no terceiro trimestre de 2008 para algo em torno de 3% em 2009. O grande desafio, na sua opinião, é o Brasil se preparar para sair o mais rápido possível da crise. “Ou seja, voltar a crescer acima da economia mundial e mostrar sinais de recuperação”.

 

Fonte:  Agência Brasil 

O Brasil nos desvãos da crise global

Agrava-se a crise capitalista mundial. Falido o gigante Lehman Brothers (15 de setembro), a fulminante crise sistêmica foi desatada: seguiram-se à paralisia da circulação dos fluxos financeiros o bloqueio e a redução da acumulação de capital, acelerou-se a destruição de somas enormes desse capital, projetando severa desaceleração das economias, atingidas setorialmente de maneira diferenciada. O panorama mundial permanece sombrio.

 

Economistas dos EUA como James Galbraith, Robert Guttman, Joseph Stiglitz (Nobel), Jose Antonio Ocampo, Robert M. Solow (Nobel), George Akerlof (Nobel), entre cerca de 300, enviaram uma carta às autoridades do Congresso, reclamando ação imediata e propondo: a) ajuda a governos estaduais e locais que estão sendo forçados a fazer cortes de emergências quando suas receitas caem; b) estender seguros de desemprego e aumentar outros benefícios destinados a famílias de salários baixos ou moderados, que provavelmente os gastarão rapidamente; c) manter os projetos de infra-estruturas que já tenham sido planejados e aprazados; d) providenciar créditos fiscais e outros apoios a projetos “verdes” que possam ser realizados rapidamente, tais como reconverter casas e empresas para uma maior eficiência energética (“Carta de economistas ao Congresso dos EUA em defesa de um novo pacote de estímulos econômicos”, 19/11/2008).

 

As razões são claras: os EUA perderam 1,2 milhão de empregos apenas nos primeiros 10 meses de 2008, destes, mais de 50% nos últimos três meses (Bureau of Labor Statistics of US). Em algumas regiões faltam recursos para a escola pública, coleta de lixo, segurança, seguro-desemprego e aposentadorias (jornal USA Today, 10 e 11/10/2008).

 

O império do Norte afunda e arrasta a todos

 

Em 20 de novembro, nos EUA anunciou-se uma deflação de preços; estão quebrados a General Motors e o City Group (“fiscalizado” pelo Fed, o Banco Central dos EUA!). Começou a recessão na Alemanha, Itália, Reino Unido e Espanha, assim como no Japão, Cingapura e Hong Kong. É assustadora a sangria de mais de US$ 120 bilhões das reservas internacionais da Rússia, em cerca de quatro meses. Um pacotaço de nada menos que US$ 586 bilhões para manter a economia da China aquecida foi lançado. Mundo afora, mais de 24 companhias de aviação quebraram em 2008 (Aviation and Aerospace Nets, 30/10/2008).

 

Nos últimos dias, o Banco central da China baixou, expressivamente (1,08%) e pela terceira vez no ano, sua taxa de juros. Os EUA anunciaram outro superpacote de US$ 800 bilhões (destes, US$ 600 bilhões para compra direta de hipotecas garantidas por ativos de Fannie. Mae e Fredy. Mac), passando com isso a totalizar algo com U$ 5 trilhões, entre prejuízos, destruição de riqueza financeira e “ajuda” a bancos e empresas várias. A OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) projeta a continuidade da recessão nos países desenvolvidos (União Européia, Japão e EUA), durante 2009. Segundo pronunciamento de Juan Somavia (25/11/2008), secretário-geral da OIT (Organização Internacional do Trabalho), cerca de 1,5 bilhão de trabalhadores assalariados no mundo terão queda salarial em 2009: “avizinham-se momentos difíceis”, e as “classes médias também serão gravemente afetadas”, declarou (”Relatório Mundial sobre Salários 2008/2009”). Tudo isso assevera que efeitos sociais desastrosos da crise estão a caminho, rapidamente.

 

De acordo com Paul Krugman (Universidade de Princenton), existe, agora, o que denomina um paralelo “mais perturbador”, relativamente à situação de 1932: um vácuo de poder no ápice crise, nos EUA. Na seqüência viu-se Barack Obama anunciar, dois meses antes de sua posse, um programa para a criação de 2,5 milhões de empregos! “No mínimo, os próximos dois meses infligirão sérios danos a centenas de milhares de norte-americanos, que perderão seus empregos, suas casas ou ambos”, adverte ainda Krugman. Para Nouriel Roubini (Universidade de Nova Iorque), a perspectiva atual “Não será a crise de 1929, mas será a crise mais séria desde então”, disse para executivos de bancos. “Não espero recuperação em 2009. A economia só começa a reagir em 2010”, imagina Roubini.

 

“Emergentes” sofrem “convulsões financeiras”

 

Sim, bem ao contrário de um irritante lero-lero ufanista em hostes do governo Lula, meses atrás, conforme Dani Rodrick (Universidade de Harvard), “os mercados emergentes estão sofrendo convulsões financeiras de proporções históricas”, incluídos aí o Brasil e a Coréia do Sul. Apenas nos dois últimos meses suas moedas perderam 25% diante do dólar; seus mercados de ações “declinaram bem mais: 40% no Brasil e 33% na Coréia” – afirma Rodrick. E ironiza os que enchiam a boca de “fundamentos sólidos”.

 

Aliás, no Brasil, entre setembro e meados de novembro, “a taxa de câmbio no Brasil sofreu uma desvalorização de 37%, índice que um país emergente levaria cerca de um ano para recompor”, afirmou Marcos Antonio Cintra, referindo-se à fuga de capitais e ao repatriamento abrupto. Não à toa houve anúncio precoce de demissões no país, com queda acentuada na geração de empregos formais. Segundo o Ministério do Trabalho, se em outubro a geração de novos postos de trabalho alcançou 63 mil vagas, agora, o saldo entre admissões e demissões foi de 8.370 empregos. Em novembro, a indústria de caçados, borracha, fumo, couro, material de transporte e mecânica cortaram vagas.

 

Um arsenal insuficiente

 

De outra parte, sabe-se que o governo Lula vem tomando iniciativas várias. Segundo divulgação recente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o arsenal de medidas anti-crise para 2008-2009 envolveriam:

 

1) Redução do superávit primário, para 2009 (de 4,3% para 3,8%). 2) Injeção de dólares pelo BACEN. 3) Atuação dos bancos estatais para comprar ações de bancos em crise. 4) Incentivo às exportações (PROEX, EXIM, ACC;  o BACEN disponibilizou R$ 2,0 bilhões). 5) Redução do compulsório (R$ 100 bi). 6) Antecipação do desembolso para agricultura de R$ 5,0 bilhões. 7) Financiamento da construção civil de R$ 3 bilhões (linha de capital de giro). 8) Setor automobilístico: Crédito BB de R$ 4 bilhões. 9) BNDES: R$ 10 bilhões de capital de giro para exportações pré-embarque. 10) Tributos: a) Adiantamento do pagamento do IPI por 10 dias, PIS/COFINS por 5 dias e Imposto de Renda por 10 dias; b) acelerar a devolução dos tributos; c) Política Anticíclica para 2009; e, d) Redução dos custos financeiros e expansão do crédito. 11) Política Fiscal: Manutenção dos investimentos (PAC + Pré-sal), dos programas sociais, da contenção do crescimento de gasto de custeio.

 

Ora, se inegável a importância dessas medidas – utilizadas e outras planejadas -, à projeção sombria de uma recessão generalizada e demorada acresce-se a manutenção de uma política macroeconômica liberal monetarista: a) taxa de juros as maiores do mundo; b) o câmbio volátil e altamente suscetível às manobras especulativas; e c) o que é assegurado e amplificado por uma liberalização da conta de capitais verdadeiramente “padrão” às exigências do Consenso de Washington!

 

Ademais, depois de um longo período de absurda valorização da nossa moeda, estamos a sofrer déficit nas transações correntes. O que não pode afastar do horizonte, nessa crise gigantesca do capitalismo global – e numa “situação de pânico sempre latente” (Valor Econômico, Editorial, 28/11/2008) -, uma crise cambial. E quando estimativas não alarmistas já prevêem um crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) da ordem de 2,5 a 3% em 2009.

 

O mundo sabe hoje que este modelo neoliberal fraudulento e perverso explodiu, voou aos pedaços, como se diz. Resta saber se há coragem política agora para mudá-lo. Ou se vamos recusar o desvão movediço e a queda.

 

Sérgio Barroso, Médico, doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB.

 

Fonte: Portal Vermelho