MOVIMENTO SINDICAL UNIFICADO

Em entrevista ao Vermelho, Índio declarou que essa unidade com as centrais é “pontual” e que, “neste momento, temos de procurar a unidade de todos os trabalhadores”. A atuação do sindicalista acaba de ser respaldada por sua base. Em eleição para a diretoria do sindicato, em 10 e 11 de março, os metalúrgicos de São José confiaram mais um mandato à Conlutas. “Para nós, foi uma vitória muito importante — e uma responsabilidade também.”


Confira abaixo os principais trechos da entrevista.


A Conlutas não participa do Fórum das Centrais nem da CMS (Coordenação dos Movimentos Sociais). Desde que foi fundada, em 2004, jamais se aliou às centrais sindicais em um dia nacional de lutas ou na marcha dos trabalhadores. O que levou a Conlutas a se tornar uma das 24 entidades organizadoras do ato de 30 de março?
Nossa compreensão é de que, no momento de crise que a gente vive agora, o mais importante é travar essa luta, fazer uma mobilização que pode ser histórica para o movimento, mostrar que os trabalhadores não podem pagar por essa crise. Já tínhamos uma data de mobilização e protestos, que era 1º de abril — mas sabíamos que algumas entidades já tinham agendado outro dia. As centrais sindicais e o movimento social não podem se pegar pela data ou por outro problema menor.


Mas a Conlutas, tradicionalmente, opta por manifestações próprias, isoladas — e não é por uma incompatibilidade de datas. O que os motivou, particularmente neste ano, a se somarem a outras centrais e a outros movimentos?
O que motivou foi o fato de que a classe trabalhadora, em nível mundial, está sofrendo muito. E mais: há um conteúdo para essa luta, para a mobilização. Qual é esse conteúdo? É a luta contra as demissões, a luta contra o desemprego, contra os ataques que os trabalhadores estão sofrendo. Esse é o motivo pelo qual a Conlutas, junto a seus sindicatos, reforçaram essa mobilização.


O importante, para 30 de março, é o caráter da luta. Se fosse um desses atos de algumas centrais apoiando o governo — como já vimos —, nós ficaríamos de fora. Neste momento, temos de procurar a unidade de todos os trabalhadores.


É uma unidade pontual?
Isso. É uma unidade pontual, em torno de um interesse, que é defender a classe. A Conlutas vai estar junta sempre que houver esse caráter de luta. É por isso que resolvemos mudar a data de nossa mobilização para o dia 30. Não podemos pôr nossas divergências políticas acima do que está acontecendo no Brasil e no mundo.


Ao ter sua chapa reeleita, com 69% dos votos, para a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, a Conlutas conquistou a vitória mais expressiva de sua história. A que você atribui esse resultado?
O processo eleitoral do sindicato começou, na verdade, em novembro e dezembro, sob o peso da crise econômica. Em primeiro lugar, houve a disputa para a comissão eleitoral, com três chapas na disputa — uma da Conlutas, uma da CUT e outra da Força Sindical. Numa assembleia de 600 trabalhadores, as chapas da CUT e da Força tiveram pouco menos de 50 votos.


Já havia, então, uma sinalização clara de que a chapa da Conlutas venceria?
Sim, já tinha essa sinalização. A vitória na comissão eleitoral antecipou um pouco o processo, porque a categoria demonstrou clareza sobre o apoio que a diretoria tem. Junto a isso, houve vários ataques à diretoria — e nós achamos que foi tudo combinado com a patronal. Tivemos de enfrentar campanhas de empresas, mesmo as pequenas, que queriam reduzir salários com jornadas, cortar direitos, e diziam que o sindicato era inflexível.


A General Motors, em janeiro, demitiu em massa em São José, a exemplo do que fez depois em São Caetano. Foram demissões de companheiros que tinham contrato com prazos determinados. Só que muitos tinham contrato até junho, e a empresa antecipou o fim do contrato, no meio do processo eleitoral. Enfrentamos outra discussão em 19 de fevereiro, quando a Embraer fez 4.200 demissões. Achamos também que isso foi combinado pela patronal e não aconteceu por acaso.


Enfrentamos as demissões, a campanha contra o sindicato e todas essas dificuldades nas eleições. Mesmo assim, a categoria conseguiu reagir e deu um respaldo enorme à diretoria, dentro da política de não flexibilizar nem retirar direitos históricos. A categoria tem clareza de que o sindicato tem de estar em defesa permanente e intransigente dos trabalhadores.


Uma surpresa, na apuração, foi que ganhamos em praticamente todas as urnas. Nunca aconteceu, historicamente, de uma chapa ganhar em todas as fábricas e ter quase 70% dos votos. A CUT perdeu até em fábricas onde nunca perdia. Para nós, foi uma vitória muito importante — e uma responsabilidade também.


A única central que defendeu às claras a redução de jornada de trabalho com redução de salário foi a Força Sindical. Por outro lado, a Força acompanhou a Conlutas na maioria das manifestações e ações judiciais para reverter as demissões na Embraer. Como foi possível superar as divergência e articular essa reação em conjunto?
Em fevereiro, foi feita uma frente em defesa dos trabalhadores demitidos da Embraer. Mesmo a Força — que estava concorrendo contra nós no sindicato — também fez parte dessa frente, ao lado da CTB e das outras centrais. A Força, ao defender os trabalhadores em plena disputa eleitoral, conseguiu ser mais ousada do que a CUT.

Só neste ano, vocês foram duas vezes a Brasília, em audiências com o governo federal. É uma atitude que foge um pouco ao histórico da Conlutas — em geral avessa a negociações com governos. Por que a nova postura?
Na eleição do sindicato, muita gente perguntava por que a diretoria fez isso e por que montou uma frente. Em primeiro lugar, é preciso deixar claro que o sindicato procurou o governo para cobrar satisfação. Desde a privatização da Embraer (em 1994), o governo liberou para a empresa US$ 8,3 bilhões de dinheiro público — dinheiro do BNDES —, sem cobrar nada em troca.

Na campanha contra a privatização, o que a gente ouviu do governo federal? Que a empresa era um buraco sem fundo, onde se punha, punha, punha dinheiro — e simplesmente não servia para nada. Ao privatizar, o que aconteceria? Haveria dinheiro para a educação, para a saúde. Na minha região, não vimos uma escola a mais. Não vimos nenhum outro hospital.

Quando fizemos aquela campanha com um elefante quebrando cristais, fomos cobrar responsabilidade do presidente da República. Como pode uma empresa receber tanto aporte público e nem sequer reduzir uma jornada de trabalho de 43 horas semanais? Já existem empresas com 40 horas de jornada.

É hora de o presidente começar a governar de fato para os trabalhadores. Na crise, até agora, ele está governando para as empresas, para os banqueiros. Soubemos, depois das demissões, que o governo tinha se reunido com a Embraer e não defendeu, em momento algum, o retorno dos trabalhadores. Portanto, formos a Brasília para cobrar o governo e outras instituições. Um direito dos trabalhadores é exigir seus direitos, cobrar dos governantes.

Fonte. http://www.vermelho.org.br