Crise mundial: as garantias de direitos sociais e o capitalismo

 
Materia publicada no site le monde
Nos últimos meses, grandes custos sociais arcados pelos trabalhadores, alvos de demissões em massa e da flexibilização dos direitos trabalhistas, são justificados para sanar a perda de lucro e do poder concorrencial de empresas. É justo a sociedade pagar a conta para salvar o sistema?

Jorge Luiz Souto Maior

(13/05/2009)

Muito se tem dito sobre a crise econômica e suas possíveis repercussões na realidade social brasileira. À esta altura, uma abordagem crítica mais contundente é necessária por causa da constatação de que muitos se valem da crise como mero argumento para continuar jogando o jogo da vantagem a qualquer custo, desvinculando-se de qualquer projeto de sociedade mais democrática.

Para iniciar essa análise, devemos lembrar que a crise é nossa velha conhecida. Ela esteve presente em quase todos os momentos de nossa história. Em termos de relações de trabalho, o argumento da “crise econômica”, como forma de justificar uma reiterada reivindicação de redução das garantias jurídicas de natureza social (direitos trabalhistas e previdenciários), acompanha o debate trabalhista desde sempre. Se alguém disser que “agora, no entanto, é pra valer”, deve assumir que antes era tudo uma grande mentira… E, se assim for dito, que força moral se terá para fazer acreditar no argumento da crise atual?

Não se pode olvidar também que, mesmo quando o Brasil vivenciou, de 1964 a 1973, o que se convencionou chamar de “milagre brasileiro”, o crescimento econômico foi obtido às custas do empobrecimento da maioria da população, já que uma de suas características era a concentração de renda. Em 1970, os 50% mais pobres da população ficavam com apenas 13,1% da renda total e os mais ricos (1% da população) embolsavam 17,8%” [1].

No começo da presente crise pouco se falou na relevância da diminuição do valor do trabalho. A partir de outubro de 2008, iniciou-se um movimento organizado para requerer uma flexibilização das leis trabalhistas do país como forma de combater a crise financeira. Empresas começaram a anunciar dispensas coletivas de trabalhadores, criando um clima de pânico para, em seguida, pressionar sindicatos a cederem quanto às suas reivindicações e buscar junto ao governo a concessão de benefícios fiscais.

Entre janeiro de 2008 e janeiro de 2009, as vendas do varejo nacional acumularam alta de 8,7%.

Essa corrida que passa por cima dos direitos trabalhistas é totalmente injustificável por, pelo menos, três motivos.

Primeiro, porque o custo do trabalho não está na origem da crise econômica como atestam as últimas análises. Nada autoriza a dizer que a sua redução seja fator determinante para que a crise seja suplantada.

Segundo, porque já se pode verificar o quanto se apresentou precipitada e oportunista tal atitude. Em fevereiro de 2009, um aumento do nível de emprego formal foi registrado sobretudo nos setores de serviços, construção civil, agricultura e administração pública [2]. A própria Companhia Vale do Rio Doce iniciou esse movimento irresponsável, quando anunciou dispensas coletivas de trabalhadores. No entanto, no quarto trimestre de 2008 obteve um lucro líquido de R$10,449 bilhões, que representa um aumento de 136,8% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando o lucro líquido foi de R$ 4,411 bilhões. A Bovespa, em março, acusou alta de 11% [3]. Em maio, já apresenta alta acumulada de 36,87% desde o início de 2009 [4]. A venda de automóveis, em razão da redução do IPI, sofreu um aumento de 11% [5]. As vendas do comércio varejista subiram 1,4% em janeiro com relação a dezembro do ano passado, segundo noticiou o IBGE. Entre janeiro de 2008 e janeiro de 2009, as vendas do varejo nacional acumularam alta de 8,7%. A Embraer dispensou 4,2 mil empregados. Ela é investigada pelo Ministério do Trabalho acusada de ter fornecido bônus de R$50 milhões a 12 diretores e de ter efetuado a contratação de 200 empregados terceirizados. Os fatos são negados pela empresa. O incontestável é que ela encerrou o primeiro trimestre de 2009 com lucro líquido de R$ 38,3 milhões e receita líquida de R$ 2,667 bilhões [6].

A forma oportunista como algumas empresas se posicionam diante da crise atual, desconsiderando o interesse de toda a comunidade, deve ser questionada

Em terceiro lugar, mesmo que a crise fosse o que se apresentava, é grave a ausência de uma compreensão histórica revelada pelo desprezo aos direitos trabalhistas. Ora, os argumentos de dificuldade econômica das empresas foram uma constante no período de formação da Revolução Industrial e se reproduziram por mais de cem anos até que, em 1914, sem qualquer possibilidade concreta de elaboração de um novo arranjo social, o mundo capitalista entrou em colapso.

À época, eram feitas alegações de que as empresas seriam obrigadas a fechar se fossem obrigadas a dar aumento de salário ou estabelecer melhores condições aos trabalhadores e de que seria melhor um trabalho qualquer a nenhum. Dizia-se ainda que seria preciso primeiro propiciar o sucesso econômico das empresas de forma sólida para somente depois pensar em uma possível e progressiva distribuição da riqueza produzida e que a livre iniciativa não poderia ser obstada pela interferência do Estado. Acreditava-se também que era mais saudável para as crianças de cinco a dez anos se dedicarem à disciplina do trabalho durante oito ou mais horas por dia do que ficarem nas ruas desocupadas.

Ao final da Primeira Guerra Mundial, em 1919, com a criação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), reconheceu-se que “havendo condições de trabalho que impliquem para um grande número de pessoas a injustiça, a miséria e privações, gera um tal descontentamento que a paz e harmonia universal são postas em perigo…” [7]. A organização ainda enfatiza que “uma paz universal e durável só pode ser fundada sobre a base da justiça social”.

A forma oportunista como algumas empresas se posicionam diante da crise atual, desconsiderando o interesse de toda a comunidade, acuando sindicatos a fim de auferir a redução de direitos trabalhistas e pressionando o Estado para recebimento de incentivos fiscais, deve ser questionada, porque abala consideravelmente a crença na formação de uma sociedade capitalista desenvolvida a partir de um pacto de solidariedade.

Ora, muitas empresas “modernas” falam de sua responsabilidade social, do seu dever de cuidar do meio ambiente, de ajudar pobres e necessitados, mas quando se veem diante de uma possível redução de seus lucros, não têm o menor escrúpulo de defender abertamente o seu direito de conduzir trabalhadores ao desemprego sem lhes apresentar uma justifica plausível.

Num contexto internacional, cumpre denunciar a postura de algumas multinacionais que pregam aos países “periféricos” um código de conduta, baseado na precarização das condições de trabalho para favorecer a manutenção dos ganhos que direcionam para o financiamento dos custos sociais em seus países de origem. Esse mecanismo é fator decisivo para eliminar qualquer espírito de solidariedade proletária em nível internacional.

O debate deve extrapolar o conflito entre trabalhadores e empresa e atingir o espectro mais amplo do arranjo socioeconômico.

É hora de tirar as máscaras, de se apresentarem os fatos como eles são, pois, do contrário, continuaremos sendo ludibriados por debates propositalmente pautados fora da discussão necessária, que nos leva à seguinte questão: O capitalismo tem jeito? Se a crise é do modelo capitalista não se pode deixá-lo fora da discussão.

O capitalismo se baseia na concorrência. Se o primeiro é desregrado, consequentemente, o segundo não encontra limites. A obtenção de lucro impulsiona a ação na busca de um lucro sempre maior. Os investimentos especulativos, por trazerem lucros fáceis, são naturalmente insaciáveis.

Em um mundo marcado pelo avanço tecnológico, as repercussões especulativas e os lucros pela produção se concretizam muito rapidamente. Não há tempo para reflexão e, até mesmo, para elaborar projetos a longo prazo. Assim, os riscos são potencializados e a sociedade tende ao colapso sobretudo pela perda de valores éticos e morais, afinal, não é só de sucesso econômico que se move a humanidade. É conveniente registrar que só a satisfação espiritual não basta, pois sem justiça social não há sociedade democrática.

Estas são reflexões necessárias para o presente momento. Não é mais possível apenas tentar salvar os ganhos dos trabalhadores diante das investidas de alguns segmentos empresariais. O debate deve extrapolar o conflito entre trabalhadores e empresa e atingir o espectro mais amplo do arranjo socioeconômico. Neste prisma, se os preceitos do Direito Social são entendidos como empecilhos ao desenvolvimento econômico por gerarem um custo que obsta a necessária inserção na concorrência internacional, a questão não se resolve simplesmente acatando a redução das garantias sociais.

Diante de uma constatação dessa ordem, então, será preciso reconhecer a inutilidade do Direito Social para a concretização da tarefa a que se propôs realizar, isto é, a de humanizar o capitalismo e de permitir que se produza justiça social dentro desse modelo de sociedade. Em seguida, será necessário assumir a inevitabilidade do caráter autodestrutivo do capitalismo, inviável como projeto de sociedade, uma vez que a desregulação pura e simples do mercado já deu mostras de ser incapaz de desenvolver a sociedade em bases sustentáveis. A prova disso é a própria crise econômica, realidade já vivenciada em outros países.

Duas são as alternativas que se apresentam para o momento e que devem ser tomadas com urgência:

a) ou fazer valer de forma eficaz, irredutível e inderrogável os direitos sociais, preservando a dignidade humana e, ao mesmo tempo, mantendo a esperança da efetivação de um capitalismo socialmente responsável. Isso exige uma série de medidas:

- Os trabalhadores não devem pagar a conta em tempos de crise;

- Uma “ética nos negócios” deve ser implantada, baseada no respeito à dignidade da pessoa humana, na democratização da empresa (permitindo co-gestão por parte dos trabalhadores, além de participação popular e institucional) e em uma distribuição real de lucros e na formulação de projetos a longo prazo;

- Não aceitação da terceirização de trabalhadores, que transforma pessoas em coisas de comércio;

- Não transformar homens em Pessoas Jurídicas para se servir de seus serviços pessoais de forma não-eventual;

- Não se valer de cooperativas, de contratos de estágio e de outras formas de trabalho com o objetivo de fraudar a aplicação da legislação trabalhista;

- Não impulsionar um sistema cruel de rotatividade da mão-de-obra;

- Não assediar moralmente os trabalhadores sobretudo mediante a ameaça do desemprego;

- Não utilizar mecanismos de subcontratação, transferindo para empresas descapitalizadas parte de sua produção, pois isso abala a efetividade dos direitos dos trabalhadores;

- Não institucionalizar um sistema de banco de horas com o único propósito de prorrogar a obrigação quanto ao efetivo pago às horas extras com o adicional constitucionalmente previsto;

- Não deixar de cumprir obrigações legalmente previstas, com a intenção de forjar acordos perante a Justiça do Trabalho com quitação de todos os direitos. Neste item, cabe mencionar o registro da CTPS (Carteira de Trabalho e Previdência Social) do trabalhador, a dinâmica de horas extras e o seu pagamento, a preocupação com o desenvolvimento sustentável etc

- Nesta primeira alternativa, que considera a viabilidade do capitalismo, a solução dos problemas da crise não se resume à cômoda aceitação da intervenção do Estado na lógica de mercado. É preciso que o sentido ético se insira na ordem produtiva. Por exemplo, não servem as iniciativas de incentivo à produção ou à construção civil, se os produtos e obras se realizarem por intermédio de mecanismos de supressão dos direitos dos trabalhadores. Além de isso significar um desrespeito à ordem jurídica, representa também uma forma de agressão ao ser humano, quebrando toda possibilidade de pacto social. Para implementação desse projeto, já inscrito na Constituição brasileira, exercem papel decisivo a parcela consciente do empresariado nacional, além do Estado e do mercado consumidor por meio de uma atitude à base de sanções e prêmios.

b) ou iniciar a elaboração de um projeto de outro modelo de sociedade a partir dos postulados socialistas de divisão igualitária dos bens de produção e da riqueza auferida. Afinal, se dentro da lógica capitalista não for viável concretizar os preceitos supra, relativos aos direitos humanos inderrogáveis e previstos em declarações, tratados internacionais e em nossa própria Constituição, por que continuar seguindo esse modelo que reduz as garantias sociais, aprofundando as desigualdades e o retrocesso no nível da condição humana?

[1] Rubens Vaz da Costa, apud, José Jobson de A. Arruda & Nelson Piletti, Toda a História: história geral e história do Brasil, Ed. Ática, 2002, p. 436.

[2] Cf. http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u536582.shtml.

[3] Cf. reportagem da Folha de São Paulo, p. B-3, de 24/03/09.

[4] http://eptv.globo.com/economia/economia_interna.aspx?257170

[5] Cf. noticia a rádio CBN: http://cbn.globoradio.globo.com/editorias/economia/2009/03/13/COM-ALTA-DE-11-VENDA-DE-VEICULOS-PUXA-EXPANSAO-DO-COMERCIO-EM-JANEIRO.htm.

[6] http://ultimosegundo.ig.com.br/economia/2009/04/30/embraer+encerra+trimestre+com+lucro+liquido+menor+de+r+383+mi+5856931.html

[7] Preâmbulo da Constituição da OIT

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Do seqüestro da economia a possíveis portas de saída

Segue um artigo interessante publicado no LeMond
Quando os apostadores tomam ciência do tombar da jogatina, suplicam à velha viúva, a quem antes acossavam, que lhes socorra com mais dinheiro, transferindo a riqueza socialmente construída aos mesmos que até aquele momento ganharam apenas especulando

por Marcos Aurélio Souza


É difícil antever com precisão aonde ainda nos levará a crise financeira iniciada a partir da débâcle do quimérico mercado hipotecário dos Estados Unidos. Um vendaval de proporções arrasadoras, cujo resultado simbólico mais significante, provavelmente, tenha sido o abalo sísmico provocado na fé de dois dos homens mais poderosos do mundo nos mecanismos de ajuste automático dos mercados para resolver suas irreprimíveis e destemidas estripolias.

A fim de estancar a sangria que ameaçava a própria estrutura do sistema capitalista, Paul Bernanke, presidente do FED, e Henry Paulson, lugar tenente do tesouro norte-americano, se viram forçados, e não hesitaram, em estatizar a Fannie Mae e Freddy Mac – gigantes do financiamento de crédito imobiliário do país, – além da AIG, a toda poderosa corporação mundial do ramo de seguros. Enquanto dirigiam em alta velocidade, assistiam pelo retrovisor ao rápido agonizar do Lehman Brothers, o quarto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, que finalmente sucumbiria sem que os dois ex-talibãs, guiando pelos pulsos, orientassem as mãos invisíveis do mercado para também lhe prestar socorro.

Esta última atordoante cena apenas precipitou o congelamento do crédito interbancário, movido pela desconfiança dessas instituições de que seus pares estavam fortemente alicerçados numa enorme montanha de títulos podres. Maria da Conceição Tavares, com sua lucidez exacerbada, estava absolutamente certa quando vaticinava de que ou se agia em tempo ou o entupimento do sistema circulatório do sistema levaria inevitavelmente à trombose [1]. Na mosca! O sangue coagulou.

A desregulamentação do mercado financeiro serviu para sua substituição em favor da cobiça de mega especuladores

Ocorre que desde o final década de 1970, com o desmonte de Bretton Woods em favor da desregulamentação dos mercados financeiros, a especulação a fim de se obter altos rendimentos à custa da produção real tornou-se uma grande arma com a qual os Bangsters [2] tomam de assalto toda a economia para daí pedir resgates que na atual crise, acredita-se, tenham colocado sob empenho algo acima de um terço do PIB norte-americano.

Assim como Galbraith [3] constatou que a grande corporação industrial, ao “decidir o que o freguês vai querer e vai pagar”, submeteu o mercado, tomando seu lugar para preservar seus interesses imediatos, levando a hipótese da soberania do consumidor a tomar seu lugar apenas em compêndios dos livros didáticos de economia, é preciso perceber, nas sucessivas crises das últimas três décadas, que a desregulamentação do mercado financeiro serviu para sua substituição em favor da cobiça de mega especuladores. Para Noam Chomky, a livre circulação do capital financeiro não comprometeu apenas o mercado, mas a própria democracia, ao criar o chamado “parlamento virtual” [4], que, entre outras coisas, “controlam de perto os programas governamentais e “votam” contra eles, se os consideram “irracionais”, quer dizer, se são em benefício do povo e não do poder privado concentrado.”

Nas bolsas de todo mundo criaram-se mecanismos extraordinários, auxiliados por uma tecnologia de informação que permite comunicação de decisões em alguns segundos, para se inventar riqueza sem lastro algum na economia real. Enquanto o PIB mundial soma um produto total na casa dos US$ 60 tri, o mercado de derivativos soma US$ 600 tri, dez vezes mais [5]. Para não ficar de fora de tão vetusta farra, o capital produtivo, por sua vez, rebaixou salários e diminuiu investimentos, ao mesmo tempo em que a produtividade do trabalho aumentou. Assim, parte dos lucros das empresas foi destinada à ciranda

Entretanto, quando os apostadores tomam ciência do tombar da jogatina, suplicam à velha viúva, a quem antes acossavam, que lhes socorra com mais dinheiro, transferindo a riqueza socialmente construída aos mesmos que até aquele momento ganharam apenas especulando, sob a ameaça de que se assim não for, o caos se instalará por toda economia, afetando toda população, que, nesse caso, já sofre ou será penalizada com a perda milhões de empregos [6]. Poucos têm capacidade de planejar um seqüestro com tamanha engenhosidade.

Adotar uma forma de tributo que penalize esse tipo de movimentação. Na linha do que se propõe com a taxa Tobin, cuja função seria a de destinar os fundos arrecadados para o combate à pobreza nos países pobres

Caso as nações mais ricas, que têm efetivo poder de decisão, consigam desvencilhar-se de seus piratas somalis, alojados em Wall Street e demais praças financeiras, elas terão de exercer um papel mais profundo que meramente construir um novo marco regulatório que impeça a sanha especulativa de apontar seus canhões contra os muros que eventualmente se ergam a fim de inibir sua ação predatória. É preciso adotar medidas que penalizem esse tipo de movimentação, na forma de um tributo, na linha do que se propõe com a taxa Tobin, cuja função seria a de destinar os fundos arrecadados para o combate à pobreza nos países pobres.

De acordo com a carta de princípios da ATTAC, a criação de um imposto modesto de 0,1% sobre as transações financeiras especulativas poderia assegurar algo em torno de US$ 100 bi por ano, oriundos principalmente dos países mais industrializados, para financiar a luta contra a pobreza. Valor irrisório face aos montantes que foram injetados até agora pelos governos dos países ricos para garantir liquidez no sistema financeiro internacional. O papel econômico de tal tributação seria, do mesmo modo, determinante, uma vez que devolveria “às políticas monetárias nacionais um pouco de autonomia que elas perderam face aos mercados financeiros.” [7]

O controle do câmbio também deveria compor o front das grandes discussões sobre as formas de saída da crise. É por meio dessa política que o país pode garantir a soberania sobre a sua moeda, diminuindo sua fragilidade financeira devido à continuada defasagem de seu câmbio causada pela fuga de capitais, e oferecer um horizonte mais estável para que a produção se organize e planeje seus investimentos.

A luta incessante pelo lucro e pelo benefício particular não trouxe o benefício prometido em forma de felicidade e bem estar para a absoluta maioria da população mundial

À crise financeira somam-se as crises energética, ambiental e de alimentos. São como quatro dos sete selos do apocalipse cujos resultados de seu desenvolvimento deverão nos revelar, em breve futuro, o que nos reserva os três últimos. Entretanto, este é um processo que longe de ser fatalista, pode e deve ser revertido pela capacidade humana de transformar sua realidade. E isto implica colocar pelo avesso a organização da sociedade sob o capitalismo. É preciso reconhecer que a luta incessante pelo lucro e pelo benefício particular não trouxe o benefício prometido em forma de felicidade e bem estar para a absoluta maioria da população mundial. Ao contrário, as lutas imperialistas deflagradas a fim de assegurar às grandes corporações os recursos necessários ao seu crescimento tiveram o papel histórico de jogar os moradores dos países periféricos na mais absoluta miséria.

Conceitos econômicos como crescimento, investimentos, entre outros, têm de ser revistos para agregarem outras dimensões da realidade social. A provável corrida a ser travada pelas nações com o objetivo de garantir soberania alimentar e energética pode ser dada como exemplo disso. A se concretizar o que muitos observadores indicam, poderemos presenciar uma aceleração das disputas por terra e água, expulsando ainda mais camponeses do campo, aumentando a concentração de terras, devastando o meio ambiente, e tudo isso ser computado no PIB como “investimentos produtivos”.

O papel dos governos locais, principalmente dos grandes centros, deve ser repensado. Num quadro de desemprego, a primeira porta aonde os desempregados vão bater é na das prefeituras. A combinação de políticas econômicas anti-cíclicas no nível federal, que permitam manter ou aumentar o nível de emprego, com iniciativas locais pode gerar sinergias de modo impedir a deterioração do mercado de trabalho.

A atual crise do capitalismo deve ser vista como uma oportunidade para repensar o modelo de exploração com o intuito de alcançar a sua superação

Uma possível porta de saída, entre outras tantas que podem ser elencadas, seria considerar a organização dos trabalhadores em grupos cooperados de produção e prestação de serviços. Para que isso ocorra é indispensável impedir que as poupanças locais sejam capturadas no circuito financeiro para investimentos em títulos do governo ou para a especulação. Na Alemanha, de acordo com o documento Projeto Política Nacional ao Desenvolvimento Local [8], criou-se no nível das cidades e vilas um sistema chamado caixas de poupança cuja finalidade primeira é financiar as atividades produtivas locais.

De todo modo, a atual crise do capitalismo deve ser vista como uma oportunidade para repensar o modelo de exploração com o intuito de alcançar a sua superação. Não é possível imaginar que se construirá um mundo socialmente justo e pacífico quando os projetos de pequenos e selecionados bangsters se sobrepõem a mais elementar noção de segurança à vida e à dignidade humanas. Essa é a grande transformação que permanece a reivindicar nossa atenção e dedicação permanentes.

Marcos Aurélio Souza é colaborador do Caderno Brasil do Le Monde Diplomatique. Texto anterior:

Lia de Itamaracá não conta no PIB
O indicador que deveria medir a riqueza nacional ignora as relações culturais e afetivas estabelecidas num espetáculo artístico. Também não considera trabalho a criação dos filhos. Omissões como estas levam cada vez mais gente a indagar: para que serve um índice que só enxerga relações mercantis?

[1] http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15281

[2] Termo usado por Roosevelt para definir a mesma espécie de senhores que hoje atua nas bolsas vendendo e ganhando dinheiro com coisas sem valor algum.

[3] John Kenneth Galbraith. O Novo Estado Industrial.

[4] Noam Chomsky. Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15292

[5] Em entrevista à Agência Carta Maior, Carlos Lessa afirma a possibilidade de que esse valor possa ter chegado ao valor dos quatrilhões.

[6] A OIT estima que até o final de 2009 mais 20 milhões de desempregados em todo o mundo se some aos 180 milhões atualmente existentes. Além disso, deverá aumentar o número de trabalhadores vivendo com apenas US$ 2 ao dia.

[7] François Chesnais. Tobin or Not Tobin. Porque tributar o capital financeiro. Pg51

[8] Ainda em fase de conclusão e disponível na página do professor Ladislau Dowbor: http://dowbor.org/06dlfinal.pdf

O socialismo X Capitalismo

Em epocas de crise do capitalismo (e que crise) volta o velho dilemar e avoz que não quer calar.

 

Segue uma entrevista interessante publicada no Brasil de Fato

Contrariando muitos prognósticos, especialmente os elaborados pela mídia ocidental e seus analistas, a Revolução Cubana completa meio século de existência. Mesmo depois de tanto tempo, o desgaste do regime da ilha caribenha, tão esperado e previsto, não é uma realidade: o apoio popular ao sistema socialista permanece em níveis bastante elevados.

 

 

Richard Gott, jornalista britânico, dá algumas explicações para isso: “Cuba é uma sociedade que tem desfrutado de meio século de paz interna, incólume a ditaduras militares (como na maioria da América Latina) ou assassinatos políticos (como nos Estados Unidos)”.

 

Em entrevista por correio eletrônico ao Brasil de Fato, Gott ainda cita, entre outros, os padrões de saúde e educação oferecidos ao povo e a igualdade racial, conquistada após séculos de escravidão e colonialismo.

 

No entanto, existem problemas e desafios a serem enfrentados. E muitos. O jornalista britânico elenca alguns exemplos, como a falta de liberdade de expressão, a manutenção da pena de morte e a relativa ausência de diversificação da economia cubana, causada, principalmente, pelo acordo de exportação de quase toda sua produção de açúcar à ex-União Soviética.

 

Na entrevista a seguir, Gott ainda fala sobre Fidel Castro, Che Guevara, Barack Obama, as mudanças promovidas por Raúl Castro, e critica a grande mídia: “A imprensa internacional (de viés ocidental) foi educada para acreditar que somente as sociedades liberais do ocidente têm o direito de descrever a si mesmos como ‘democráticos’. Todas as outras sociedades são consideradas ‘autoritárias’ ou ‘ditatoriais’”.

 

Brasil de Fato – Após 50 anos de vigência da Revolução Cubana, quais são seus principais legados?

Richard Gott– O legado permanente da Revolução Cubana é a criação de uma sociedade onde negros e brancos vivem juntos como iguais, superando a herança racista da escravidão e do colonialismo. Isso é uma conquista única nas Américas, seja do Norte, seja do Sul. Cuba é uma sociedade que tem desfrutado de meio século de paz interna, incólume a ditaduras militares (como na maioria da América Latina) ou assassinatos políticos (como nos Estados Unidos). Além disso, Cuba é uma sociedade intacta em relação ao consumismo: os cubanos não são persuadidos pela publicidade a querer o que eles não precisam. E, por último, a população do país desfruta de padrões de serviços de saúde e educação que ainda são um sonho distante para os demais povos da América Latina.

 

Em sua opinião, quais foram os principais erros ou decisões equivocadas durante estes 50 anos?

Tem sido um erro Cuba manter a pena de morte, pôr o país no mesmo nível dos Estados Unidos, que também mantém essa prática bárbara. Também é um equívoco se recusar a permitir uma certa liberdade de opinião na discussão política. Cuba tem uma população educada e com capacidade de argumentação, portanto, ao povo cubano deveria ser permitido debater seu futuro de um modo mais interessante e aberto, através da criação de jornais e revistas.

 

Muito se discute a real importância da figura de Fidel Castro e de sua liderança para a sobrevivência da Revolução Cubana nestas cinco décadas. Qual sua opinião sobre isso?

A liderança de Castro e sua personalidade carismática têm sido, sem dúvida, de grande importância na sustentação da Revolução durante tantos anos. Castro talvez possa ser visto, agora, como a figura latino-americana do século 20 de maior destaque, no mesmo nível dos líderes das lutas de independência do século 19. Sua habilidade militar, exemplificada durante a guerra revolucionária, assim como nas lutas tardias na África, é legendária, do mesmo modo que sua habilidade política, diplomática e estratégica. (Leia mais na edição 305 do Brasil de Fato)

 

<QUEM É>

O britânico Richard Gott é escritor, jornalista e historiador. Trabalhou, por muitos anos, no jornal inglês The Guardian, como redator, correspondente e editor. Esteve por diversas vezes em Cuba, país sobre o qual escreveu o livro Cuba: Uma Nova Historia. É autor, ainda de diversos livros sobre os movimentos revolucionários na América Latina, como Guerrilla Movements in Latin America (Movimentos guerrilheiros na América Latina) e Hugo Chavez and the Transformation of Venezuela (Hugo Chávez e a transformação da Venezuela). Atualmente, é pesquisador do Instituto para o Estudo das Américas da Universidade de Londres.