Temporada de chuva já resultou em 22 mortos e milhares de desabrigados em Minas

O último balanço das chuvas registradas desde setembro do ano passado em Minas Gerais, divulgado hoje (1º) pela Defesa Civil estadual, mostra que a força das águas provocou a morte de 22 pessoas, já contabilizadas as três registradas em Belo Horizonte nesta madrugada.

As vítimas, em sua maioria, morreram com o desmoronamento de residências localizadas em área de risco ou arrastadas pelas enxurradas. O levantamento também indica a existência de 5.995 pessoas desabrigadas e 56.668 desalojadas em todo o estado. Mais de 20 mil casas foram danificadas e e cerca de 50 pontes comprometidas.

Pelo menos 55 municípios mineiros decretaram situação de emergência devido às fortes chuvas e outros 39 comunicaram ocorrências.

Segundo informações da Defesa Civil, a tempestade ocorrida na virada do ano na capital mineira provocou a inundação de bairros na regiões Oeste e do Barreiro. Além das mortes confirmadas de pessoas arrastadas pela enxurrada, a estimativa é de que 50 residências e 50 veículos tenham sido danificados ou destruídos na avenida Tereza Cristina. Foram registrados deslizamentos de encostas, desabamentos de paredes e muros de contenção.

Um grupo de resposta às situações críticas instituído pela Prefeitura de Belo Horizonte para monitorar áreas de risco trabalha para contabilizar os prejuízos e recuperar a região afetada.

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O Brasil nos desvãos da crise global

Agrava-se a crise capitalista mundial. Falido o gigante Lehman Brothers (15 de setembro), a fulminante crise sistêmica foi desatada: seguiram-se à paralisia da circulação dos fluxos financeiros o bloqueio e a redução da acumulação de capital, acelerou-se a destruição de somas enormes desse capital, projetando severa desaceleração das economias, atingidas setorialmente de maneira diferenciada. O panorama mundial permanece sombrio.

 

Economistas dos EUA como James Galbraith, Robert Guttman, Joseph Stiglitz (Nobel), Jose Antonio Ocampo, Robert M. Solow (Nobel), George Akerlof (Nobel), entre cerca de 300, enviaram uma carta às autoridades do Congresso, reclamando ação imediata e propondo: a) ajuda a governos estaduais e locais que estão sendo forçados a fazer cortes de emergências quando suas receitas caem; b) estender seguros de desemprego e aumentar outros benefícios destinados a famílias de salários baixos ou moderados, que provavelmente os gastarão rapidamente; c) manter os projetos de infra-estruturas que já tenham sido planejados e aprazados; d) providenciar créditos fiscais e outros apoios a projetos “verdes” que possam ser realizados rapidamente, tais como reconverter casas e empresas para uma maior eficiência energética (“Carta de economistas ao Congresso dos EUA em defesa de um novo pacote de estímulos econômicos”, 19/11/2008).

 

As razões são claras: os EUA perderam 1,2 milhão de empregos apenas nos primeiros 10 meses de 2008, destes, mais de 50% nos últimos três meses (Bureau of Labor Statistics of US). Em algumas regiões faltam recursos para a escola pública, coleta de lixo, segurança, seguro-desemprego e aposentadorias (jornal USA Today, 10 e 11/10/2008).

 

O império do Norte afunda e arrasta a todos

 

Em 20 de novembro, nos EUA anunciou-se uma deflação de preços; estão quebrados a General Motors e o City Group (“fiscalizado” pelo Fed, o Banco Central dos EUA!). Começou a recessão na Alemanha, Itália, Reino Unido e Espanha, assim como no Japão, Cingapura e Hong Kong. É assustadora a sangria de mais de US$ 120 bilhões das reservas internacionais da Rússia, em cerca de quatro meses. Um pacotaço de nada menos que US$ 586 bilhões para manter a economia da China aquecida foi lançado. Mundo afora, mais de 24 companhias de aviação quebraram em 2008 (Aviation and Aerospace Nets, 30/10/2008).

 

Nos últimos dias, o Banco central da China baixou, expressivamente (1,08%) e pela terceira vez no ano, sua taxa de juros. Os EUA anunciaram outro superpacote de US$ 800 bilhões (destes, US$ 600 bilhões para compra direta de hipotecas garantidas por ativos de Fannie. Mae e Fredy. Mac), passando com isso a totalizar algo com U$ 5 trilhões, entre prejuízos, destruição de riqueza financeira e “ajuda” a bancos e empresas várias. A OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) projeta a continuidade da recessão nos países desenvolvidos (União Européia, Japão e EUA), durante 2009. Segundo pronunciamento de Juan Somavia (25/11/2008), secretário-geral da OIT (Organização Internacional do Trabalho), cerca de 1,5 bilhão de trabalhadores assalariados no mundo terão queda salarial em 2009: “avizinham-se momentos difíceis”, e as “classes médias também serão gravemente afetadas”, declarou (”Relatório Mundial sobre Salários 2008/2009”). Tudo isso assevera que efeitos sociais desastrosos da crise estão a caminho, rapidamente.

 

De acordo com Paul Krugman (Universidade de Princenton), existe, agora, o que denomina um paralelo “mais perturbador”, relativamente à situação de 1932: um vácuo de poder no ápice crise, nos EUA. Na seqüência viu-se Barack Obama anunciar, dois meses antes de sua posse, um programa para a criação de 2,5 milhões de empregos! “No mínimo, os próximos dois meses infligirão sérios danos a centenas de milhares de norte-americanos, que perderão seus empregos, suas casas ou ambos”, adverte ainda Krugman. Para Nouriel Roubini (Universidade de Nova Iorque), a perspectiva atual “Não será a crise de 1929, mas será a crise mais séria desde então”, disse para executivos de bancos. “Não espero recuperação em 2009. A economia só começa a reagir em 2010”, imagina Roubini.

 

“Emergentes” sofrem “convulsões financeiras”

 

Sim, bem ao contrário de um irritante lero-lero ufanista em hostes do governo Lula, meses atrás, conforme Dani Rodrick (Universidade de Harvard), “os mercados emergentes estão sofrendo convulsões financeiras de proporções históricas”, incluídos aí o Brasil e a Coréia do Sul. Apenas nos dois últimos meses suas moedas perderam 25% diante do dólar; seus mercados de ações “declinaram bem mais: 40% no Brasil e 33% na Coréia” – afirma Rodrick. E ironiza os que enchiam a boca de “fundamentos sólidos”.

 

Aliás, no Brasil, entre setembro e meados de novembro, “a taxa de câmbio no Brasil sofreu uma desvalorização de 37%, índice que um país emergente levaria cerca de um ano para recompor”, afirmou Marcos Antonio Cintra, referindo-se à fuga de capitais e ao repatriamento abrupto. Não à toa houve anúncio precoce de demissões no país, com queda acentuada na geração de empregos formais. Segundo o Ministério do Trabalho, se em outubro a geração de novos postos de trabalho alcançou 63 mil vagas, agora, o saldo entre admissões e demissões foi de 8.370 empregos. Em novembro, a indústria de caçados, borracha, fumo, couro, material de transporte e mecânica cortaram vagas.

 

Um arsenal insuficiente

 

De outra parte, sabe-se que o governo Lula vem tomando iniciativas várias. Segundo divulgação recente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o arsenal de medidas anti-crise para 2008-2009 envolveriam:

 

1) Redução do superávit primário, para 2009 (de 4,3% para 3,8%). 2) Injeção de dólares pelo BACEN. 3) Atuação dos bancos estatais para comprar ações de bancos em crise. 4) Incentivo às exportações (PROEX, EXIM, ACC;  o BACEN disponibilizou R$ 2,0 bilhões). 5) Redução do compulsório (R$ 100 bi). 6) Antecipação do desembolso para agricultura de R$ 5,0 bilhões. 7) Financiamento da construção civil de R$ 3 bilhões (linha de capital de giro). 8) Setor automobilístico: Crédito BB de R$ 4 bilhões. 9) BNDES: R$ 10 bilhões de capital de giro para exportações pré-embarque. 10) Tributos: a) Adiantamento do pagamento do IPI por 10 dias, PIS/COFINS por 5 dias e Imposto de Renda por 10 dias; b) acelerar a devolução dos tributos; c) Política Anticíclica para 2009; e, d) Redução dos custos financeiros e expansão do crédito. 11) Política Fiscal: Manutenção dos investimentos (PAC + Pré-sal), dos programas sociais, da contenção do crescimento de gasto de custeio.

 

Ora, se inegável a importância dessas medidas – utilizadas e outras planejadas -, à projeção sombria de uma recessão generalizada e demorada acresce-se a manutenção de uma política macroeconômica liberal monetarista: a) taxa de juros as maiores do mundo; b) o câmbio volátil e altamente suscetível às manobras especulativas; e c) o que é assegurado e amplificado por uma liberalização da conta de capitais verdadeiramente “padrão” às exigências do Consenso de Washington!

 

Ademais, depois de um longo período de absurda valorização da nossa moeda, estamos a sofrer déficit nas transações correntes. O que não pode afastar do horizonte, nessa crise gigantesca do capitalismo global – e numa “situação de pânico sempre latente” (Valor Econômico, Editorial, 28/11/2008) -, uma crise cambial. E quando estimativas não alarmistas já prevêem um crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) da ordem de 2,5 a 3% em 2009.

 

O mundo sabe hoje que este modelo neoliberal fraudulento e perverso explodiu, voou aos pedaços, como se diz. Resta saber se há coragem política agora para mudá-lo. Ou se vamos recusar o desvão movediço e a queda.

 

Sérgio Barroso, Médico, doutorando em Economia Social e do Trabalho (Unicamp), membro do Comitê Central do PCdoB.

 

Fonte: Portal Vermelho