Um papa no bunker

Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, visitou a África de 17 a 23 de março como quem faz questão de ressaltar sua indiferença para com a realidade social e seu descompasso com o mundo laico. Isso depois de forçado ao mea-culpa duas vezes, em rápida sucessão – uma ao admitir estar mal informado ao reabilitar bispos lefebvrianos afins ao negacionismo neonazista no próprio dia internacional em memória das vítimas do Holocausto, outra ao anular a nomeação de um bispo austríaco rejeitado por pares e vigários.

No único continente onde o catolicismo cresce de maneira significativa, Camarões e Angola são países com grande proporção de católicos. Perdido o contato com os costumes e relações sociais nas quais se baseavam seus cultos tradicionais, as populações que o êxodo rural arrancou de suas raízes tribais e jogou nas favelas procuram comunidades religiosas mais adaptadas a uma cultura urbana parcialmente ocidentalizada. A Igreja Católica continua a se beneficiar dessa desestruturação, embora seja crescente a concorrência do Islã, das igrejas evangélicas e de novos cultos sincréticos africanos.

O papa pareceu, porém, decidido a mostrar aos convertidos reais ou potenciais que o catolicismo não atenderá às necessidades sociais e espirituais da África moderna. Ainda no avião, condenou os preservativos em uma região que registra mais de 70% dos óbitos por Aids no mundo, onde 20 milhões já morreram e outra vida é perdida para a doença a cada 15 segundos.

Caso se limitasse a objeções teológicas, pouco haveria a dizer. Mas Ratzinger contrariou a ciência e o bom senso, insistindo em que a distribuição de preservativos agrava a epidemia. Ministros europeus, inclusive de países católicos, tomaram a iniciativa incomum de censurar o papa. O chanceler francês o acusou de “pôr em perigo a política de saúde pública em relação à proteção da vida humana”. A ministra da Saúde belga chamou sua posição de “perigosamente doutrinária”. Os ministros do Desenvolvimento e da Saúde alemães condenaram a afirmação do compatriota como “irresponsável”.

Não foi a única mostra de insensibilidade, desinformação ou ambas as coisas por parte do papa. Enquanto ele se preparava para falar de solidariedade e condenar a ganância, a violência e a corrupção, a Igreja fechava os olhos aos preparativos do corrupto e violento governo camaronês para a visita. Incluíram demolir com escavadeiras todas as casas e lojinhas que prejudicassem esteticamente o caminho entre o aeroporto e o centro da capital, Yaundé, sem perguntar como seus donos iriam trabalhar, dormir e comer nos dias seguintes.

Ali, o papa proclamou que “a África está em perigo devido a imorais sem escrúpulos que tentam impor o reino do dinheiro desprezando os mais miseráveis”, antes de viajar para Angola. O governo desse país empobrecido e devastado por décadas de guerra civil também fez gastos milionários para receber o pontífice. Além disso, em Luanda, a Igreja organizou dois jantares de gala a 500 dólares por cabeça, arrecadando cerca de 270 mil dólares para receber “mais dignamente” a passagem do pontífice.

Os responsáveis pelos caros e cuidadosos preparativos, que incluíram a mobilização de 12 mil policiais para cuidar da segurança do papa e de sua comitiva, não deram igual peso à segurança dos humildes. Na confusa abertura dos portões do Estádio Municipal dos Coqueiros, em Luanda, onde o papa encontraria a juventude angolana, um tumulto matou duas moças por esmagamento e mandou 89 jovens a hospitais.

Alheio ao drama, o papa assistiu à coreografia dos jovens que conseguiram entrar e os convidou a não ter medo de ousar “decisões irreversíveis” do casamento da ordenação sacerdotal. Só no dia seguinte, quando o desastre – ignorado pela cobertura oficial – foi divulgado na imprensa internacional, a Igreja e o governo angolano enviaram representantes ao hospital para visitar os feridos e levar seus pêsames à família de uma das mortas, uma catequista de 22 anos. A outra, não identificada, foi levada ao necrotério como indigente.

Trata-se de um papa muito mal informado? Em 12 de março, o papa queixou-se por carta ao episcopado da “hostilidade” com que foi recebida sua anulação da excomunhão do bispo Richard Williamson, após este negar o Holocausto, mas admitiu a má condução do caso. “Foi-me dito que consultar a informação disponível na internet teria possibilitado perceber o problema no início. Aprendi que a Santa Sé terá de prestar mais atenção a essa fonte de notícias.”

Para um não-católico, acreditar que nenhum dos secretários e assessores de Ratzinger tinha acesso a essas informações ao preparar uma decisão tão importante em relação a quatro bispos bem conhecidos é quase tão difícil quanto crer na infalibilidade papal ou na Assunção da Virgem. Principalmente tratando-se de um pontífice que liderou a Congregação para a Doutrina da Fé (sucessora da Inquisição e do Santo Ofício) e perseguiu as mais obscuras manifestações de inconformismo teológico nos cinco continentes.

Leonardo Boff, por exemplo, foi castigado com o confinamento definitivo em um convento – ao qual não se submeteu, preferindo romper com o Vaticano –, após uma palestra na Eco 92 (anterior ao Google, vale lembrar), na qual responsabilizou a Igreja pela morte de milhares de índios na América Latina.