Manchete no JB:Lula vence, Brasil brilha. Brasil vira protagonista mundial

Um luz no fim do túnel. A manchete do jornal do Brasil saiu fora do tom da grande mídia. Leia a matéria
LULA VENCE, BRASIL BRILHA
BRASIL VIRA PROTAGONISTA MUNDIAL

O termo fechado em Teerã por Brasil e Turquia em torno do programa de enriquecimento de urânio do Irã já é considerado um marco na diplomacia. A mediação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostrou ser viável um caminho independente, fora do eixo e dos interlocutores tradicionais, e, a despeito das pressões em contrário, especialmente de potências hegemônicas como os EUA, foi bem sucedida. A Agencia Internacional de Energia Atômica ainda vai analisar o acordo, mas especialistas ouvidos pelo JB afirmam que a atuação de Lula na crise o aproxima de ganhar um Nobel da Paz.

O governo brasileiro amanheceu segunda-feira nas manchetes dos mais importantes veículos da mídia global, ao conseguir o empenho do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, em remeter parte do seu urânio enriquecido a 3,5% para a Turquia, onde o material nuclear será enriquecido a 20% no prazo de um ano, e em seguida devolvido ao Irã para abastecer um reator de pesquisa na usina de Natanz, no centro do país.

Embora Estados Unidos, França, Rússia e Reino Unido tenham reagido com ceticismo ao acordo e afirmado que ele não deve invalidar os esforços do Conselho de Segurança da ONU na busca por uma nova rodada de sanções contra o programa nuclear iraniano, a concessão de Ahmadinejad representa uma vitória da diplomacia brasileira, que conseguiu intermediar um plano de paz proposto inicialmente pelas potências ocidentais sob os auspícios da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), e rejeitado pelo Irã em outubro do ano passado.

Antes de embarcar de volta ao Brasil, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, festejou o novo acordo, afirmando que a cooperação e a amizade venceram a pressão nas negociações. A análise do chanceler foi uma resposta ao governo dos Estados Unidos que lideram a campanha internacional em favor da imposição de sanções ao Irã, por desconfiar que seu programa nuclear esconde a intenção de produzir armas atômicas.

Nós conversamos de maneira respeitosa e com convicção, com países em desenvolvimento que compreendem e sabem falar de uma maneira que não seja impositiva alfinetou Amorim depois de firmar o acordo. A nossa linguagem não é a pressão. A nossa linguagem é de persuasão, amizade e cooperação.

Para o professor de história contemporânea e moderna da UFRJ, Francisco Carlos Teixeira, o acordo mediado pelo Brasil representa um desafio à diplomacia americana baseada no poder militar. Francisco Carlos argumenta que a posição teimosa do presidente Lula, que obteve resultados surpreendentes, conseguiu iniciar a desconstrução de uma ordem mundial mantida desde o fim da 2ª Guerra Mundial:

O novo acordo sinaliza uma democratização das relações internacionais disse o historiador em entrevista ao JB. Além disso, mostra que a concentração de força militar não é necessária para que se consiga negociar no cenário internacional, o que beneficia o Brasil.

Realçando ainda mais a imagem de Lula no cenário internacional, o primeiro-ministro português, José Socrates, afirmou domingo em entrevista à Folha de São Paulo que apoiaria uma eventual candidatura do presidente ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas.

Estaria na primeira fila desse apoio disse o premier. O presidente Lula é uma grande figura da política mundial.

Exigências

Entretanto, a proposta firmada por Irã, Turquia e Brasil não alcança, tecnicamente, o objetivo da proposta defendida pela AIEA em outubro, que era a de se obter uma pausa no programa nuclear iraniano para permitir negociações de fundo em um ambiente de confiança.

A AIEA pedia que o Irã enviasse, como prova de boa vontade, 70% das suas reservas de urânio à Rússia, onde seriam enriquecidos em 20%, transformados pela França em combustível e retornados para o reator de Teerã.

Desde então, o Irã duplicou suas reservas de urânio levemente enriquecido e também iniciou em fevereiro a produção de urânio altamente enriquecido em 20%, apavorando os ocidentais.

Os Estados Unidos ressaltaram em abril que a oferta da AIEA deve ser atualizada para levar em consideração as novas reservas e as novas capacidades de enriquecimento do Irã. Esta opção foi descartada por Teerã, que indicou segunda-feira que continuará enriquecendo urânio em 20%, aconteça o que acontecer.

Fonte: Autor(es): Joana Duarte , Jornal do Brasil
Jornal do Brasil – 18/05/2010

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José Reinaldo: Política de sanções fracassa

O acordo anunciado entre o Brasil, a Turquia e o Irã em torno da questão nuclear é um importante passo no sentido de uma solução mais ampla para a complexa questão. Em primeiro lugar, ficou patente que a guerra de agressão e as sanções bilaterais ou multilaterais contra um país soberano são propostas correspondentes aos interesses de potências imperialistas cuja política externa é essencialmente contrária à paz mundial e à segurança internacional.

por José Reinaldo Carvalho*

A política estadunidense em relação à matéria foi amplamente desmascarada. Sob a condução de madame Hillary Clinton a (anti) diplomacia norte-americana vaticinou que seria impossível obter um acordo com o Irã, país que segundo o determinismo da maior potência nuclear do mundo, havia decidido violar as normas da não proliferação nuclear e encontrava-se engajado na fabricação da bomba atômica. O Irã demonstrou cabalmente o contrário – que está disposto a dar passos construtivos, ao mesmo tempo em que não abre mão da sua soberania, do desenvolvimento da energia nuclear com fins pacíficos e de uma atuação autônoma no concerto internacional, escolhendo suas parcerias e tomando suas decisões ao arrepio dos interesses de dominação do imperialismo norte-americano.

Desmascarou-se também o imperialismo estadunidense com a desenvoltura e eficácia com que o Brasil, sob a liderança de Lula, atuou. A secretária de Estado dos EUA emitiu todo tipo de mensagens negativas às vésperas da viagem do presidente brasileiro ao Irã. Tentou demovê-lo, fez ameaças veladas, difundiu ceticismo e criticou abertamente a iniciativa diplomática e pacifista do Brasil. Disse o que quis e depois foi obrigada a ouvir o que não queria, pois foi contundente a resposta do líder brasileiro. A resposta mais eloquente veio dos fatos – o acordo anunciado é um vivo desmentido às prédicas dos Estados Unidos e uma ata de acusação aos seus propósitos punitivos em relação ao Irã.
Vitória da luta antiimperialista

Agora a (anti) diplomacia norte-americana dá sinais de que vai “botar gosto ruim na comida dos outros”, como se diz popularmente, avisando que o acordo “ainda está por ser verificado” pelas potências nucleares. O que Washington não pode é esconder o fracasso de sua política de sanções e de preparação frenética para isolar e agredir o Irã. O rei está inteiramente nu e é cada vez maior o isolamento da (anti) diplomacia norte-americana.

O episódio em tela mostra ainda que o que mais contraria os Estados Unidos é a revelação de que está em curso a formação de uma nova conjuntura e uma nova correlação de forças no mundo, em que o imperialismo norte-americano não pode mais sozinho impor a sua vontade aos povos e às nações soberanas. Esse imperialismo não se conforma com o fato de que países soberanos e que exercem seu direito à independência cooperem entre si, entabulem acordos, concertem tratados à margem dos ditames imperialistas.

Os entendimentos entre o Brasil e o Irã, de que participou também a Turquia, são resultado do avanço das lutas antiimperialistas de povos que avançam por caminhos imprevistos, mas nem por isso menos relevantes. As alterações que se observam no quadro mundial são também frutos dessa luta, que abre novas perspectivas para a consolidação da soberania nacional e a conquista da paz.

Certamente, as forças progressistas e antiimperialistas estarão atentas e vigilantes aos novos desdobramentos e às reações que o acordo anunciado em Teerã provocar. E também saberão reagir à altura se o imperialismo insistir na fracassada política de sanções.

*José Reinaldo Carvalho é editor do Portal Vermelho