Para OsGemeos, falta o básico nas metrópoles: "grafite é superficial"

Dupla de grafiteiros fala ao iG Jovem sobre problemas sociais, início de carreira e o universo paralelo que criaram em muros e telas

Nas paisagens de Tritrez, o universo paralelo criado pelos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo (conhecidos como a dupla de grafiteiros OsGemeos), a crítica ao poder sempre esteve presente. Mesmo que de forma indireta, irônica. E, em época de eleições, essa crítica fica mais aguçada do que nunca – como dá para ver na galeria de fotos ao lado. “O mínimo que a população deveria ter [nas cidades] é segurança, educação, saneamento”, afirmam. “Grafite é superficial nesse cenário”.

No ateliê da dupla: "Não focamos nosso trabalho só no grafite", contam
O iG Jovem bateu um papo exclusivo com a dupla, que hoje transcendeu o grafite e é um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira. Eles falaram sobre pedir latas de tinta no começo da carreira, sobre a exposição íntima que é fazer arte em muros e sobre uma recente batida de cabeça entre arte e eleições. Confira.
iG Jovem: Vocês viram que a organização da Bienal de São Paulo teve de cobrir uma obra do argentino Roberto Jacoby que retrata Dilma e Serra? (O TSE considerou que ela fazia política em espaço público, o que é proibido. A obra ficará coberta até o final da mostra, em 12 de dezembro)
OsGêmeos: É que aqui (o Brasil) é muito careta. Imagina, numa Bienal de Arte, você ter que tirar a arte de lá?! Tirar o ca*****.
iG Jovem: Se pudessem escolher um monumento ou lugar para grafitar, qual seria?
OsGemeos: A toda hora e em todo lugar a gente enxerga um mundo diferente. Achamos que a cidade inteira deveria respirar arte. Tudo deveria ser diferente. Mas há muitas outras coisas importantes para mudar nas metrópoles, além da necessidade de fazer um grafite num lugar marcante. Você sabe como são as cidades grandes. O mínimo que a população deveria ter é segurança, educação, saneamento. O básico. Grafite é superficial nesse cenário. Estamos decorando a cidade. É pouco. O legal é não ficar quieto, não estar conformado.
iG Jovem: Comparado com a época em que vocês estavam começando, dá para dizer que hoje é mais fácil conquistar notoriedade na street art?
OsGemeos: Hoje é super rápido e global. A internet facilita. A gente demorou 10, 15 anos para começar a vingar. Claro, tem um lado bom nisso, mas vemos que é preciso tomar um pouco de cuidado com essa facilidade. E não é uma questão de banalizar a arte. É de você não se enganar. Não se iludir. Porque a arte é séria em todos os gêneros. Você está se comunicando, se expondo. É você ali. Sua alma. E as pessoas estão vendo o que você está fazendo. Observando a sua essência materializada. E isso tem certo poder. O poder de influenciar outras pessoas. Fazer alguém se divertir, se emocionar.
iG Jovem: Mas a exposição através da internet está criando essa certa ilusão?
OsGemeos: Não, não achamos que seja assim. É pessoal mesmo. Você com você mesmo. É muito fácil você criar um personagem e fazer dele algo famoso. Vai do que você quer. Mas, se o objetivo é se encontrar através da arte, nós vemos que requer muito tempo de estudo e dedicação. No nosso caso, nós não fomos atrás da satisfação do ego, e sim da satisfação através do desenho.

Fama não motiva: "A arte é um alimento espiritual, uma necessidade"
iG Jovem: Depois de todo o reconhecimento internacional, dá para dizer que vocês são os expoentes da arte contemporânea no Brasil? Vocês se enxergam assim?
OsGemeos: Longe disso. A gente encontrou na arte um jeito de poder se sentir bem, realizar o que sempre imaginou. Desde criança a gente pensa o que a gente pinta. As coisas aconteceram naturalmente. Não visualizávamos ser grafiteiros para poder fazer uma exposição e viajar.
iG Jovem: Como era no começo?
OsGemeos: A gente colecionava a arte. Íamos às bibliotecas, achávamos um livro, uma figura, um grafite, aí a gente arrancava a página e levava para casa para admirar. Era tudo meio difícil. Aconteciam uns encontros de hip hop na Praça São Bento (em São Paulo) e nós frenquentávamos para dançar break, cantar rap. Na época quem grafitava era a geração ‘Tupinãodá’, com o Rui Amaral, o Zé Carratu e outros. Só que buscávamos outro estilo de grafite. Aos fins de semana, saíamos pela cidade fazendo murais junto com o Speto, Vitché, Binho e Tinho. E ao contrário da maioria, que pintava de noite porque tinha uma discriminação, a gente se aventurou e foi pintar de dia. Aí a polícia parava e perguntava: ‘Tem permissão?’ E a gente: ‘Claro’. Pô! Tínhamos nada. E foi legal porque criou uma autenticidade.
iG Jovem: Mas e as tintas? De onde vinham?
OsGemeos: Saíamos pedindo. Pedíamos para os funileiros. Também sempre moramos num bairro que possui muitas gráficas e os caras davam o que podiam para a gente. Resto de tinta, lata de spray. Aí passávamos no supermercado para pegar bico de desodorante e colocar no spray para poder ter um traço diferente. Era tudo na improvisação. Não é que nem hoje. Você vai numa loja de pintura e encontra uma variedade de produtos para poder fazer o seu grafite.
iG Jovem: Nesse contexto, qual a dica que vocês dão para quem está começando na arte?
OsGemeos: Poxa, é muito pessoal. Vai de cada um. Acreditamos que a arte é um instrumento que pode ser uma fuga, um alimento espiritual, uma necessidade. E não importa se é grafite, música, circo, dança, teatro. Ou se é contemporâneo, ou afro. O lance é você ter um motivo de estar fazendo isso. Não é uma coisa ‘Pô, se ele deu certo, eu também quero dar’. No nosso caso, precisamos da arte para poder falar com as pessoas. Ter dado certo foi uma consequência. Se tivermos que falar algo é para as pessoas correrem atrás dos seus sonhos.

"Sempre criamos, desde criança, em caixas de papelão, madeira da feira…"
iG Jovem: Como é o desafio de sair dos muros para as obras e as telas?
OsGemeos: É simples. Não focamos nosso trabalho só no grafite. Viemos daí, mas nunca fomos só grafite. Sempre tivemos um leque e canalizamos. Sempre criamos, desde criança, em caixas de papelão, caixas de madeira da feira, com papel machê. Sempre quisemos experimentar outras formas de expressão. Vídeo e animação também. O tridimensional completa o que a gente quer transmitir no nosso trabalho. Facilita um pouco mais para quem aprecia e quer entender esse hiato que passa na nossa cabeça. Nossa percepção de tudo.
iG Jovem: Depois de Tritrez [o universo paralelo criado pelos irmãos], ainda há espaço para outro mundo da cabeça OsGemeos?
OsGemeos: Não, é esse. É uma coisa mais espiritual nossa. Existe, claro, outros universos que a gente quer conhecer, quer explorar. Mas esse é a nossa base, nossa essência, de onde vêm as nossas criações. Esse é o nosso universo paralelo.

Fonte: IG

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Presidente do Conjuve, Danilo Moreira, fala ao EstudanteNet

Em tempos de eleições, o EstudanteNet vem procurando conversar com diversos segmentos da sociedade civil organizada para tentar entender como será o Brasil do futuro, o país da Copa e das Olímpiadas. O bate papo agora foi com o presidente do Conselho Nacional de Juventude. Confira a seguir a entrevista exclusiva

Muito se fala que o Brasil é o país do futuro. A explicação estaria no vigoroso crescimento econômico com distribuição de renda, na vastidão de possibilidades energéticas, como a descoberta do Pré-Sal, na sua capacidade de diálogo e interação com os diversos países da nova configuração mundial. Acompanhando todos esses indicativos, está um que projeta, literalmente, o Brasil como país em crescimento. Pela primeira vez, o país tem uma população de jovens superior aos 50 milhões de pessoas, um recorde histórico que redefine a estrutura social, econômica e cultural da nação.
Aproveitando essa irrecusável deixa, o portal EstudanteNet produziu uma entrevista especial com Danilo Moreira, que há dois anos preside o Conselho Nacional de Juventude (Conjuve). A função do conselho, ligado à Presidência da República, é debater, propor e acompanhar a implementação de políticas voltadas para os jovens.
Além de responder à pergunta “ O que é ser jovem? ” e comentar a importância do momento histórico, Danilo dá sua opinião sobre a criação do Ministério da Juventude e fala a respeito das principais conquistas e desafios dessa política nos próximos anos: “Temos dois grandes trunfos para avançarmos em 2011: a aprovação do Plano Nacional de Juventude, que é uma necessidade legal que consta no texto da PEC da Juventude e terá metas para os próximos 10 anos; e a realização da 2ª Conferência Nacional de Juventude que será um poderoso instrumento de convencimento e pressão para que continuidade e avanços caminhem juntos”, declara. Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Como funciona o Conjuve? Qual o seu papel dentro do governo federal e junto à sociedade civil?
O Conjuve foi criado em 2005, é um organismo vinculado à Secretaria Geral da Presidência da República e tem 60 integrantes (20 de poder público e 40 de sociedade civil). Pelo poder público participam 17 Ministérios além de representantes de Governos Estaduais, Municipais e Câmara dos Deputados. Compõem a representação da sociedade civil os principais movimentos juvenis brasileiros, assim como organizações que atuam com a temática juvenil, chamadas de entidades de apoio. Além de reuniões ordinárias trabalhamos em comissões que cuidam de temas como relações internacionais, políticas e programas, comunicação e parlamento.
Atualmente, o papel do Conjuve tem sido principalmente fortalecer a implementação das políticas de juventude junto ao parlamento, governo federal e governos estaduais. Apoiamos aprovação de leis, analisamos programas do governo federal, fazemos recomendações e apoiamos a criação de conselhos estaduais e municipais de juventude. Do ponto de vista da sociedade civil, o Conjuve cumpre o papel de dar mais transparência às ações governamentais assim como é um grande ponto de encontro e articulação de organizações e movimentos que lutam pelos direitos da juventude.

O que é ser jovem? Como estabelecer um critério para essa definição?
Do ponto de vista etário a juventude é definida como uma faixa entre 15 e 29 anos, mas seria uma grande simplificação reduzir a juventude a uma questão de idade. Ser jovem é também uma condição social com características e demandas diferentes da infância, da idade adulta ou da terceira idade. Questões como acesso e produção de bens culturais, a combinação entre educação e trabalho, moradia, saúde, esporte, participação política, entre outros, têm que ser analisadas levando em consideração as particularidades da juventude, esta é a chave das políticas públicas de juventude. Só para citar um exemplo bastante conhecido: do ponto de vista do mercado de trabalho não podemos tratar de maneira igual uma pessoa que busca o primeiro emprego e um profissional que já tem experiência.

O Brasil tem hoje, pela primeira vez na sua história, mais de 50 milhões de habitantes com idade entre 15 e 29 anos. Quais os reflexos disso no nosso presente e no nosso futuro?
Vou me restringir somente ao argumento econômico. Estamos vivenciando uma oportunidade única na nossa história, nunca foi e nunca será tão grande o número de jovens no Brasil. Em termos quantitativos estamos no ápice da chamada "onda jovem", mas em função da queda das taxas de natalidade tal situação não se repetirá e o número de jovens reduzirá gradualmente nos próximos anos. Temos hoje a menor taxa de dependência econômica em relação à população economicamente ativa, com um reduzido número de crianças e idosos que dependem de quem está produzindo economicamente. Os especialistas chamam isso de bônus demográfico. À medida que aproveitarmos este bônus, preparando e incluindo produtivamente este jovem, ampliaremos em muito o ritmo de crescimento do país. Caso não aproveitemos esta oportunidade, perdemos duas vezes, pois o país cresce menos e, ao mesmo tempo, aumenta a demanda pelas chamadas políticas compensatórias. Um outro aspecto é que se pensarmos em um novo modelo de desenvolvimento baseado no conhecimento, nas tecnologias da informação e na sustentabilidade não podemos prescindir do potencial da juventude.

A Secretaria Nacional e o Conjuve são a expressão institucional da política de juventude hoje. Você acha necessário criar um Ministério da Juventude? Por que?
Costumo dizer que em fevereiro de 2005, quando o Presidente Lula criou a Secretaria Nacional de Juventude e o Conjuve, estes dois órgãos eram maiores que a política de juventude. De lá pra cá, avançamos muito com ampliação de programas em todos os níveis de governo, a multiplicação de conselhos por todo país, aprovamos a PEC da Juventude e fortalecemos nossa ação internacional nesta área. Para nossa felicidade hoje a política de juventude é muito maior que a Secretaria e o Conselho Nacional. Por outro lado, ainda temos muitos indicadores negativos a superar, precisamos aprovar e colocar em prática o Plano Nacional de Juventude, apoiar mais estudos e pesquisas, incluir a juventude com mais força no PAC, aproveitar todo potencial da Copa do Mundo e das Olimpíadas, ou seja, incluir definitivamente a juventude na estratégia de desenvolvimento nacional. Deste ponto de vista, defendo que, ao lado do fortalecimento do Conjuve, a Secretaria Nacional de Juventude passe a ter um status ministerial. Recentemente o Presidente Lula transformou a Secretaria de Mulheres e a Secretaria de Promoção da Igualdade Racial em Ministérios por serem segmentos populacionais importantes para o país, não vejo motivos para não avançarmos também na juventude. Estou aberto ao debate, mas penso que o principal órgão da política nacional de juventude deve estar a altura dos nossos desafios e da importância que atribuímos à juventude brasileira.

Qual a sua trajetória de vida? Desde estudante secundarista até a presidência do Conjuve?
Iniciei minha militância na Escola Técnica de Feira de Santana, na Bahia. Estudava Eletrotécnica, ao mesmo tempo fazia um curso de eletricista no Senai. Neste período participei ativamente da diretoria do Grêmio Livre. Logo depois de formado fui trabalhar e voltei a militar quase quatro anos depois quando fui cursar história na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, em Vitória da Conquista. Daí em diante, fiz um caminho bastante conhecido no movimento estudantil: fui do Centro Acadêmico, do DCE e depois cumpri dois mandatos na executiva da UNE. Saí da UNE em 2003 quando o presidente Lula já indicava que desenvolveria uma política nacional de juventude. Por conta da minha filiação partidária – sou do PCdoB, um partido muito identificado com a juventude – e da minha trajetória no movimento juvenil, pois também fazia parte da Direção da União da Juventude Socialista – UJS, fui convidado para participar do "Projeto Juventude" coordenado pelo Instituto Cidadania. Este projeto foi à base da atual política nacional de juventude. Em 2005, com criação da Secretaria Nacional de Juventude (SNJ), o convite foi quase natural. Na SNJ desde o primeiro momento me dediquei à construção do Conjuve. Penso que presidi-lo também foi um consequência deste trabalho no governo e da boa relação com a sociedade civil.

De que modo a sua atuação no movimento estudantil te influenciou para o trabalho que desempenha?
Além de um contato cotidiano com a juventude a passagem pelo movimento estudantil me deu duas coisas que considero indispensáveis para a atuação na área de políticas públicas de juventude: a primeira coisa foi a noção de que a juventude é diversa e ao mesmo tempo comprometida com as questões nacionais. No movimento estudantil sempre valorizamos e respeitamos as "diversas tribos juvenis" sem perder de vista que melhores dias para juventude sempre estarão ligados com melhores dias para o Brasil. A segunda lição foi perceber que por maior que seja sua convicção quanto à justeza das suas idéias, sempre vão existir pessoas que pensam diferente de você. Valorizar e respeitar a diversidade de pensamentos e buscar unidade para alcançar objetivos estratégicos é o segredo da força do Conjuve.

Quais as principais conquistas do Conjuve nos últimos anos?
Completamos, no último dia 02 de agosto, 5 anos desde a posse do primeiro mandato do Conjuve. Participo intensamente desde o primeiro momento e valorizo cada passo adiante, por menor que pareça. De qualquer forma, arrisco enumerar as seguintes vitórias: ter conquistado respeito e reconhecimento no governo e na sociedade: qualquer iniciativa do Conjuve tem hoje grande credibilidade; ter promovido o maior processo participativo do governo Lula, a 1ª Conferência Nacional de Juventude que teve 400 mil participantes; ter aprovado por unanimidade, na Câmara e no Senado, a PEC da Juventude; ter convencido o presidente Lula a convocar para 2011 a 2ª Conferência Nacional de Juventude, deixando para a próxima pessoa que irá ocupar a Presidência da República a possibilidade de fazer política com democracia e participação desde o primeiro momento do seu governo. Por último e mais importante, ter demonstrado que a atual geração política não deixa nada a desejar a gerações anteriores provando que é possível sonhar, lutar e conquistar.

Neste ano de eleições, qual a plataforma de propostas defendida pelo Conjuve para os candidatos?
Em 2008 o Conjuve liderou um movimento denominado Pacto pela Juventude e apresentou uma carta compromisso aos candidatos às eleições municipais. Tentamos reeditar esta iniciativa nas eleições presidenciais, mas por força da legislação eleitoral fomos impedidos de realizar a atividade em 2010. Felizmente as organizações da Sociedade Civil que integram o Conjuve chamaram pra si esta responsabilidade e estão apresentando o Pacto pela Juventude de maneira autônoma. Tive acesso ao documento que considero muito bom. Fico muito feliz em ver que as entidades mantém suas iniciativas de maneira independente e comprometida com os avanços das políticas públicas e dos direitos da juventude.

Qual a importância de termos candidatos jovens, políticos jovens ou mais jovens participando da política?
A juventude brasileira tem um histórico forte de organização e participação política. A UNE talvez seja o seu melhor exemplo. E não falo da UNE do passado, mas da UNE de hoje que luta, por exemplo, por 50% do fundo social do Pré-Sal para educação. Poderia falar também das inúmeras formas de organização e participação juvenil que se somam ao movimento estudantil. Basta olhar a composição do Conselho Nacional de Juventude e perceber sobre o que estou falando. Ocorre que quando falamos da juventude em espaços políticos eleitorais percebemos que existe uma enorme exclusão política. Do universo de 136 milhões de eleitores registrados pelo TSE, 30% é composto por jovens até 29 anos. No entanto, desde a redemocratização do Brasil nunca passou de 3% o número de jovens deputados federais. Este é um dos problemas que precisamos enfrentar para ampliar a representação efetiva dos jovens em todas as instâncias de poder.

Quais são os principais objetivos e desafios do Conjuve para os próximos anos?
As perspectivas do Conjuve estão diretamente relacionadas com a atitude que a próxima pessoa que assumir a presidência terá diante das políticas públicas de juventude e, especialmente, dos mecanismos de democracia participativa como o Conselho e a Conferência. Todo nosso esforço nos últimos anos foi voltado para transformar nossa pauta em algo irreversível. Digo isto não por uma visão corporativa do Conjuve, mas pela convicção quanto à necessidade de apostarmos na juventude para asseguramos o pleno desenvolvimento do Brasil, no presente e no futuro. Temos dois grandes trunfos para avançarmos em 2011: a aprovação do Plano Nacional de Juventude, que é uma necessidade legal que consta no texto da PEC da Juventude e terá metas para os próximos 10 anos; e a realização da 2ª Conferência Nacional de Juventude que será um poderoso instrumento de convencimento e pressão para que continuidade e avanços caminhem juntos.

Deixe um recado para a juventude brasileira
"O melhor amigo do povo é o povo organizado"
Rafael Minoro

Fonte: Estudantenet

Drogas e delinquência juvenil: qual é a relação?

Drogas e delinquência juvenil são questões que costumam ser jogadas no mesmo saco, sem que se saiba com clareza qual é a relação entre elas. Para estabelecer os padrões de uso de drogas entre crianças e adolescentes em conflito com a lei e entender as causas e consequências do fenômeno, um grupo de integrantes do Programa de Assistência e Pesquisa sobre Dependência da Secretaria Nacional da Infância, Adolescência e Família da Argentina, realizaram o "Estudo sobre perfis sociais e padrões de consumo de substâncias psicoativas em adolescentes residentes em dispositivos de regime fechado".

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De acordo com a psicóloga Fabiana Cantero e o sociólogo Fernando Veneziale (foto), autores do estudo, não se verificou uma relação linear entre o consumo de substâncias psicoativas e os atos de transgressão da lei. Isto não significa que não foram detectados casos em que foram cometidos delitos sob o efeito de substâncias psicoativas, mas que não se pode afirmar, segundo os autores, que haja uma relação direta entre o uso de drogas com o momento que antecede os delitos.

Os pesquisadores destacaram outros aspectos como determinantes mais significativos do comportamento delitivo, como um profundo quadro de exclusão e a falta de oportunidades no ambiente onde esses jovens crescem e vivem. Baixa escolaridade, desemprego – o mercado, quando existe, é precário e informal -, reincidências no sistema correcional e experiências infantis e juvenis marcadas pela vida nas ruas, pela pobreza e pela violência, preparam o terreno para que germinem comportamentos delitivos, como roubos e furtos, ou atitudes transgressoras, como o uso de substâncias psicoativas legais e ilegais.

O estudo descobriu, entre outras coisas, que o uso abusivo de drogas entre os adolescentes se intensifica a partir dos 16 anos, mas que a idade média de início de uso de drogas está entre 12 e 13 anos. Além disso, avalia a entrada em cena da pasta-base de coca, que vem aumentando durante os últimos dez anos.

A primera parte do estudo estabelece as condições de vida e os problemas dos jovens do grupo avaliado. A segunda parte oferece uma análise da informação com o objetivo de estabelecer variáveis sociodemográficas que possam servir para o desenho de políticas públicas preventivas.

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O estudo foi realizado por meio da aplicação de um questionário a 218 adolescentes reclusos em instituições de regime fechado da Secretaria da Infância, Adolescência e Família (como o Instituto San Martín, foto). Conforme dados da Secretaria, a média de adolescentes que permanecem internados nesse tipo de instituição é de 230 a 250, por instituição.

De Buenos Aires, Fernando e Fabiana concederam esta entrevista ao Comunidade Segura.

Existe a percepção de que o uso de drogas entre os jovens precipita os delitos. Mas, segundo o estudo, isto não é necessariamente verdade. Quais são as circunstâncias que afetam os jovens do grupo estudado?

De acordo com os dados recolhidos, não se constata uma associação direta entre consumo de drogas e delito, entendendo esse consumo como o agente precipitante que empurra o adolescente para o crime. O que se observa é que, em muitos casos, o uso de drogas seja uma característica que acompanhe o quadro de profunda exclusão. É certo que a situação de vulnerabilidade por si só não é a causa da delinquência, mas temos que considerar o impacto que este processo tem tanto no plano subjetivo como no plano objetivo em vidas de jovens que ainda estão em formação.

Poderiam explicar?

Todos os indicadores sociais revelados apontam experiências de vida profundamente marcadas pela posse material e simbólica, agravadas por contínuas entradas e saídas do sistema correcional. Neste sentido, é possível pensar que a recorrência às atividades criminosas tenha a ver com o que o sociólogo R. Merton afirmava como conduta anômica, ou seja, esses jovens vivem em uma situação onde a brecha entre as metas culturalmente aceitas para ascender socialmente e os meios legítimos disponíveis se apresenta fechada, ou, pelo menos, é vista como tal, porque a realidade cotidiana confirma isso. Assim, o roubo e o furto (delitos de maior prevalência) se configuram como uma opção válida que tende a tornar difuso o limite entre o legal e o ilegal.

Existem drogas mais associadas aos delitos do que outras?

Nos casos em que se pode fazer uma relação entre os delitos cometidos sob o efeito de determinadas drogas, observamos que a pasta-base e os psicofármacos são as substâncias mais utilizadas. Por seu efeito de curta duração, o consumo da pasta-base demanda reposição contínua da substância, e em consequência, dos recursos financeiros para sua obtenção.

No caso dos psicofármacos (principalmente as benzodiazepinas), o consumo indiscriminado ou combinado leva os jovens a realizar transgressões mas eles não têm consciência de seus atos. Esta diminução da autopercepção explica, em parte, um menor nível de inibição como fator que precipita o delito.

O estudo menciona uma maior inclinação ao consumo abusivo de drogas a partir dos 16 anos. Como explicar esta tendência?

Na verdade, se considerarmos a idade dos jovens privados de liberdade que foram entrevistados durante a pesquisa, a média é de 16 anos. Por causa dos perfis sociais produzidos pelas condições de vida descritas no estudo, supomos que esta precocidade não é por acaso, mas é um marco desta faixa populacional.

Um jovem de 16 anos já tem um amplo passado de experiências vitais limites e em contínua exposição ao risco. Os dispositivos penais não os retiram do crime, apenas os capturam por curtos períodos em um ciclo constante de ingressos e saídas do sistema correcional que não fazem mais do que aumentar sua vulnerabilidade.

A pesquisa afirma também que os adolescentes começam a usar drogas entre 12 e 13 anos. Qual é o motivo para a diminuição da idade?

Uma primeira hipótese é que um número muito grande de jovens vivem em zonas urbanas de extrema pobreza onde existe fácil acesso às drogas por causa da presença do narcotráfico e de todo um sistema de venda no varejo por parte dos próprios moradores, que adotam a atividade como meio de subsistência. Outro fator importante é que praticamente os jovens abandonam a escola e se colocam numa situação de disponibilidade de tempo improdutivo em vizinhanças hostis carentes de oportunidades e produtoras de violência.

Por que houve aumento do consumo da pasta-base e qual o seu impacto nos setores sociais mais desprotegidos?

A pasta base se incorporou aos padrões habituais toxicológicos da Argentina há aproximadamente dez anos, não por acaso, durante a maior crise econômica da história do país, com índices inusitados de pobreza e indigência. A grande massa de excluídos que se formou  neste processo se converteu em um potencial mercado consumidor para esta droga, cujo custo é muito mais acessível do que outras substâncias, dado que é produto do descarte do refino da cocaína, mesmo que atualmente sua produção apresente componentes diferentes, mas sempre   mantendo um preço baixo.

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Ao comparar os resultados deste estudo com os de anos anteriores, qual é a tendência com relação ao consumo de drogas entre a população estudada? Qual avaliação vocês fazem dos resultados?

Os indicadores de tendências atuais, quando comparados com outros trabalhos que viemos fazendo a cada dois anos desde 2003, demonstram que o consumo de certas drogas   como o álcool, a maconha, os psicofármacos e a pasta-base aumentaram e outros se  mantiveram constantes, como a cocaína e os solventes. Outra variável a considerar é o modo como a droga é consumida, já que prevalece o consumo simultâneo de várias drogas. Ao longo de suas trajetórias de vida, os jovens experimentam vários tipos de substâncias.

E com relação ao álcool e a maconha? 

O álcool e a maconha são substâncias que têm característica dupla: por um lado, são substâncias quase excludentes no início. Depois, são as que apresentam as taxas de maior  consumo. Este dado é de suma importância, já que existe uma corrente de opinião pública muito arraigada nos meios de comunicação, que minimiza isto colocando foco somente no consumo da pasta-base, que não é um tema menor, mas que, ao nosso ver, se deveria mais a um imaginário popular baseado nos prejuízos estigmatizantes dos setores desfavorecidos. 

Se o uso de drogas é uma realidade entre jovens de qualquer setor da sociedade, como o Estado e a sociedade em geral devem lidar com isso?

Pode parecer óbvio, mas concluímos a partir da experiência que acumulamos ao longo dos anos, que a modificação das condições de exclusão é o que permitiria pelo menos atenuar a expansão deste fenômeno social. Medidas básicas como incluir aqueles que estão fora do sistema educativo seria um bom começo. Com relação aos que já estão dentro do sistema correcional privados da sua liberdade, é preciso evitar a reincidência com políticas ativas de emprego e inserção dirigida para estes jovens.

Vemos que muitos deles, ao voltar para o mesmo meio onde desenvolveram suas atividades criminosas e de consumo de drogas, caem novamente na mesma rotina. Por isso, a política pública deve incluir o acesso a uma moradia que lhes permita relacionar-se com outras redes sociais de contenção, algo que nos "bairros difíceis" é mais complexo. Se os jovens voltam ao seio familiar, é necessário forncecer a este grupo recursos tangíveis.

A secretária de Educação do Rio aposta nos professores – com treinamento, bônus e até Twitter.

Claudia Costin: "Prédio não educa. Quem educa é gente

Diariamente, às 5 e meia da manhã, o Twitter da secretária de Educação do município do Rio de Janeiro, Claudia Costin, já está a mil. Entre seus 6.700 seguidores, 6 mil são professores do Rio, que tem a maior rede de escolas municipais públicas do país. Uma comunicação tão pioneira entre autoridade e funcionário público que, no mês passado, a secretária foi convidada a dar uma palestra na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Em 18 meses no cargo, ela coleciona ações criativas e resultados rápidos. Já alfabetizou quase metade dos 28 mil alunos de 4º e 5º anos que evoluíam de série, mas não sabiam ler. Está investindo nas escolas em áreas de violência e na capacitação e valorização dos professores. “Piscina e quadra coberta não ensinam. Quem ensina é gente”, afirma.

ENTREVISTA – CLAUDIA COSTIN

 Daryan Dornelles
QUEM É
Nascida na cidade de São Paulo há 54 anos, é filha de imigrantes romenos. Casada pela segunda vez, tem dois filhos e três enteados
O QUE FEZ
Foi ministra da Administração Federal e Reforma de Estado, na gestão Fernando Henrique Cardoso, e secretária de Cultura do Estado de São Paulo
CARREIRA ACADÊMICA
Deu aulas na Fundação Getulio Vargas, na PUC de SP e na Unicamp. É professora visitante da Universidade de Québec, no Canadá

ÉPOCA – Como a senhora avalia o resultado do Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico (Ideb) no Rio?
Claudia Costin –
Estou surpresa e feliz. No ano passado, acabamos com a aprovação automática e a consequência natural foi um volume grande de reprovações, que foi quatro vezes e meia maior que no ano anterior. Avisei a minha equipe: vamos ter paciência, porque os resultados deste primeiro ano não serão bons, já que o Ideb é composto do índice de aprovação mais resultado na Prova Brasil. Mas do 1º ao 5º ano tivemos aumento do Ideb de 4,5 em 2007 para 5,1 em 2009. O bom desempenho compensou a reprovação maior. Ainda há muito que fazer. No 9º ano houve queda no Ideb, de 4,3 para 3,6. De qualquer forma, estamos com uma bela base para o futuro. O que mais me emocionou foram os resultados de muitas escolas nas áreas de violência.

ÉPOCA – Quais são as ações nelas?
Costin –
Assim que assumi, mapeamos os resultados escolares, e era claro que nessas áreas o desempenho era menor e a evasão escolar ruim. Professores não iam com medo de tiroteios e ataques. Em agosto de 2009, começamos a oferta de ensino em tempo integral, introduzimos um programa de ciências prático, para que a criança se interesse em ir à escola, e contratamos mães voluntárias que buscam crianças em suas casas. Capacitamos os professores com uma metodologia que acaba com os bloqueios cognitivos de crianças que têm traumas de violência. E ensinamos o que chamamos de Pedagogia do Sonho – a ligação daquilo que elas aprendem em sala de aula com o que sonham em ser quando crescer. Além disso, aumentamos o adicional para os professores que anteciparem suas metas nessas áreas. No restante das escolas é de um salário a mais. Nas 150 escolas nas áreas de risco, que chamamos de Escolas do Amanhã, é de um salário e meio. Investimos na capacitação e valorização desses profissionais, em vez de prédios novos, piscina olímpica ou quadra coberta. Prédio não educa. Quem educa é gente.

ÉPOCA – O Ideb 2009 já mostra os resultados disso?
Costin –
A Escola Municipal Afonso Várzea, no Complexo do Alemão, passou de 4,2 para 5,8. A escola tinha uma professora tão dedicada, professores tão unidos que superou as dificuldades.

ÉPOCA – Como recuperar os 28 mil alunos que no ano passado foram considerados analfabetos funcionais, apesar de já estarem nos 4º, 5º e 6º anos?
Costin –
Capacitamos os próprios professores da rede, em parceria com o Instituto Ayrton Senna. Em cinco meses e meio de trabalho, 12 mil foram alfabetizados. Agora, 10.700 deles estão num processo de aceleração, fazendo três anos em um para alcançar os colegas. Com o apoio da Fundação Roberto Marinho, estamos fazendo aceleração com 8.900 alunos do 6º ano em diante. No Rio, imperava a cultura do coitadinho: eles são pobres, os pais não dão atenção, então vamos passá-los de ano. Não vamos dar dever de casa nem prova. Todos os elementos importantes para desafiar o aluno tinham sido retirados. Com esse trabalho de realfabetização e reforço, estamos dizendo a eles: vocês podem. Não existe trabalhar a autoestima de uma criança no vazio. Só com resultados. Como os atletas.

ÉPOCA – E os professores, também estão evoluindo?
Costin –
O fim da aprovação automática já era uma grita dos professores. Já é um trunfo de nossa gestão. Agora faço um trabalho de valorização desses profissionais e estreitamento de nossa relação com eles.

”Imperava a cultura do coitadinho: eles são pobres, então vamos
passá-los de ano. Não vamos dar dever de casa nem prova”

ÉPOCA – Seu contato com eles por meio do Twitter está funcionando?
Costin –
Acredito que sim. Mas não foi algo pensado. Tenho uma filha morando fora do Brasil, e achamos que seria uma bela forma de manter contato. De repente, vi que vários professores começaram a me seguir. E percebi que canal maravilhoso poderia ser aquele. Hoje, acordo às 5h30 e faço uma espécie de clipping de tudo o que pode interessar a eles, desde acontecimento na educação até notícias que eles podem usar em sala. Eles me mandam informações, reclamações. Levo para nossa equipe técnica, e quase sempre eles estão com a razão. São mais de 6 mil seguidores e não há agressão.

ÉPOCA – Os professores das escolas que superaram as metas ganham bônus. Esses prêmios por mérito poderiam trazer talentos para o magistério?
Costin –
Não tenho dúvida. Os prêmios e o salário inicial contam muito na decisão dos jovens. Mas há outro ponto importante: a valorização. Por isso fizemos dois trabalhos importantes: o Guia da educação em família, distribuído aos pais nas reuniões, explicando que o professor é a autoridade. E também o Regimento Interno das escolas, unificando as regras do município. Ele formaliza os direitos e deveres de alunos e professores. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é importantíssimo, mas sua criação trouxe muita insegurança aos professores da rede pública, em especial os que lidam com adolescentes. Na semana passada, tivemos um caso grave: um menino de 13 anos agrediu fisicamente a professora. Na escola privada, esse aluno seria expulso. Na escola pública, isso não pode acontecer. Esse regimento diz como tratar esses casos-limite. O destino do aluno pode ser votado em conselho. Ele pode ser transferido de escola. O regimento também aborda detalhes que parecem bobos, mas são importantes. Usar boné em sala não é mais permitido. Tirar o chapéu na frente de uma autoridade é um simbolismo importante.

ÉPOCA – Por que os alunos do 1º ao 5º ano agora também terão aulas de inglês?
Costin –
Achamos importante por causa da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016 em nossa cidade. Mas visamos também à inserção no mercado de trabalho porque quanto mais cedo a criança começar a aprender uma língua, mais facilidade ela terá. Fizemos um concurso e a Cultura Inglesa está capacitando os professores.

ÉPOCA – A senhora é a favor do sistema de cotas nas universidades?
Costin –
Sou a favor. É minha opinião pessoal, não do governo do Rio. Mas apenas como medida temporária, que seja acompanhada de políticas claras. Eu morei na África durante um tempo e tenho ligações com o movimento negro. Sei que, como política de longo prazo, o sistema de cotas não é correto. Por mais que o consenso na classe média seja que não é uma boa ação, defendo porque existe uma defasagem clara. Sou defensora do mérito, mas em igualdade de condições. O Brasil foi o último país a deixar de ter escravos. É muito recente. Cota ainda mais importante é a das escolas públicas, porque lida ao mesmo tempo com a questão racial e com a social. E é extremamente importante para qualquer instituição a diversidade de gênero e etnia.

Por: MARTHA MENDONÇA portal G1

Quem é o dono de uma entrevista?

Em outubro do ano passado dei uma entrevista por email para um aluno de faculdade de jornalismo e, ao finalizar, perguntei se poderia reproduzir o texto aqui no Código. A resposta foi negativa, fiquei meio confuso mas só dois meses depois é que dei conta de todas as implicações da questão.
Por Carlos Castilho*

Agora em dezembro, o jornalista inglês Paul Bradshaw reproduziu uma experiência pessoal quase idêntica e que tem a ver com uma nova situação criada pela internet na controvertida questão do direito de autoria. Trata-se de uma polêmica que ainda vai dar muito pano para manga.

Tudo porque estão em jogo duas visões diferentes sobre um mesmo fato, ou situação. O entrevistado acha que é o dono de tudo porque afinal de conta as idéias, reflexões, experiências, percepções e opiniões são fruto de sua realidade pessoal. Já o jornalista está convencido de que a partir do momento em que ele colocou no papel ou transmitiu pela rádio e TV, ele passa a ser o proprietário dos direitos autorais do produto final, mesmo citando as fontes.

As duas partes esgrimem argumentos lógicos. O entrevistado por razões óbvias, já que ele só foi consultado porque acumulou um conhecimento fruto de seu trabalho pessoal. Se ele publicar tudo num livro, ele tem os direitos absolutos sobre a obra.
Já o repórter justifica sua negativa de reprodução alegando que ele o dono das perguntas, da idéia da entrevista e principalmente de sua edição, o que configuraria uma obra com características próprias e também pessoais.

Esta questão do direito de publicação pelo autor de entrevistas ou declarações dadas a terceiros está se tornando cada dia mais importante porque, além da autoria, também está em jogo o problema do contexto. O jornalista faz entrevistas que depois podem ser usadas em contextos informativos bem diferentes dos imaginados pelos entrevistados.
Assim, por exemplo, cresce a cada dia o número de órgãos governamentais que publicam em seus sites corporativos entrevistas e comunicados distribuídos à imprensa em geral. O caso do blog da Petrobras ainda está na memória de todos nós, em especial a reação dos grandes jornais brasileiros.
Grande parte da dimensão adquirida pela ques

tão é uma conseqüência do desejo de ter o controle sobre conteúdos informativos, seja pelo entrevistado ou pelo entrevistador. Desejo este que pode ter motivações econômicas ou políticas.

No meu caso era o de disponibilizar para os leitores do Código uma reflexão que produzi para um estudante de jornalismo preparando o seu trabalho de conclusão de curso e que provavelmente seria lida apenas pela banca examinadora.

Enquanto a questão for vista pelo lado do controle e de seus interesses implícitos vai ser quase impossível chegar a um denominador comum. Há até a possibilidade de situações esdrúxulas como o repórter ter o direito sobre as perguntas e o entrevistado sobre as respostas. É algo kafkiano porque numa entrevista – seja ela escrita, em áudio ou em vídeo – é impossível separar as partes.

É por isto que cresce a cada dia a percepção de que, pelo menos no caso de uma entrevista, ninguém teria direito a nada. O entrevistado porque esta dando um esclarecimento ao público e não ao repórter. Este, por seu lado, assume na função jornalística, o papel de representante do leitor, ouvinte ou espectador.

Se tomarmos o público como referência, a polêmica deixa de existir porque tanto o entrevistado como o entrevistador estão prestando um serviço a terceiros. Mas como a maioria dos jornalistas assume que é dono daquilo que publica, as fontes de informação começam a reivindicar o mesmo direito na medida em que descobrem que também podem publicar o que querem na internet. Daí o impasse.

* Carlos Albano Volkmer de Castilho é jornalista com mais de 30 anos de experiência em rádio, jornais, revistas, televisão e agências de notícias, no Brasil e no exterior. Escreve para o Observatório da Imprensa.

Fonte: Observatório da Imprensa